O Domínio Semântico de Determinação das identidades trans*

Muitas pessoas perguntam acerca das identidades trans*: qual é a diferença entre travestis e transexuais? O que significa o * do trans? Levando em consideração que estas perguntas se referem à significação, acho bastante pertinente atentarmos sobre alguns conceitos da Semântica da Enunciação para analisarmos não apenas os sentidos de travestis e transexuais, mas também sobre qual é o estatuto (e implicações) destes sentidos. Esse texto se trata de uma continuidade com o texto “Descolonizando os entremeios de Travestis e Transexuais”, no qual eu abordei como os sentidos de travestis e transexuais são instrumentalizados pelos discursos médico e jurídico para reproduzir transfobia e então, pensar em possíveis formas de resistência a essas normatizações; agora pretendo me aprofundar um pouco mais em questões linguísticas propriamente, como a enunciação, designação, referência e sentido, conceitos que foram só tangenciados no texto anterior.

Durante esse texto, muito embora o termo trans* abranja diversas identidades, estarei focando especialmente os termos travesti e transexual. Cabe ressaltar também que, por tratar deste recorte, irei privilegiar o espectro feminino das identidades trans*, ou seja, pessoas trans* que foram designadas com o sexo masculino ao nascer. Digo isso pelo fato do recorte travesti/transexual só operar com estas pessoas, visto que homens trans* e outras pessoas trans* que performam um espectro masculino de identidades ou não binário (podendo incluir também o espectro de feminilidade, como bem me apontou Carina Rez Lobos) não serem designados enquanto travestis, mas apenas como transexuais pelo discurso médico/jurídico. Este fato pode indicar a possibilidade de um controle menos rígido operado pelos discursos médicos e jurídicos sobre essas pessoas trans*, na medida em que as diferenças entre travestis e transexuais são instrumentalizadas pelos discursos médicos e jurídicos para produção de abjeções e especificamente transmisoginia; mas como isso ainda não foi analisado profundamente, digo que se trata ainda de uma hipótese. Mesmo operando este recorte, acredito que esta análise possa ser útil para se pensar as transmasculinidades e não binaridades, na medida em que homens trans* e outras pessoas trans* designadas com o sexo feminino ao nascer que se identificam com um espectro masculino/não-binário sofrem inúmeras deslegitimações de suas identidades que são comuns às pessoas trans* de um espectro feminino.

Digo de antemão que as perspectivas enunciativas, que levam em consideração que o sentido não se dá a priori, mas sim no e pelo ato de enunciação, me são bastante empoderadoras para se pensar em práticas de resistências transfeministas (como espero mostrar aqui). Contudo, vale ressaltar que nenhuma observação que faço aqui pretende ser definitiva, na medida em que, como podem ter visto neste blog, estamos e estaremos sempre atualizando nossas posições e que, muito embora estas perspectivas linguísticas levem em consideração o que é externo à linguagem, as questões identitárias são complexas, de forma que elas podem envolver outros desdobramentos políticos e subjetivos que eu a princípio não poderia supor em uma breve aplicação teórica que se propõe linguística.

Então, uma primeira observação que eu acho relevante é, ao invés do próprio significado destas palavras, falar sobre o que se espera de uma pergunta sobre o que significa ou o que são as identidades trans* e apontar certas concepções de linguagem. As pessoas por vezes criam uma ligação muito forte entre o nome dado a determinada coisa e a própria coisa, de forma que muitas vezes as pessoas esperam que quando nomeamos ou designamos travestis e transexuais estaríamos apenas rotulando certas pessoas que existiriam previamente no mundo, estabelecendo uma relação de referência com o mundo. O que nos mostra, contudo, autores como Eduardo Guimarães (2007), é que a própria linguagem cria um modo específico de apreensão do real, ou seja, cria os seus próprios referentes através de um processo de designação, que é o modo pelo qual o real é significado na linguagem, ao invés de meramente apontá-los no mundo.

Algo interessante de se notar também é para a própria pergunta “Qual a diferença entre travestis e transexuais?”. Percebam que, ao invés desta, poderiam ser feitas outras duas perguntas separadas, em busca do sentido de cada palavra separadamente. Mas acredito não ser mera coincidência ser mais comum vermos a pergunta acima do que simplesmente “O que é travesti? / “O que é transexual” justamente porque “travesti” e “transexual” se definem mutuamente. Ou seja, o sentido de uma depende da outra, pois o sentido das palavras se dá sempre em relação a outras palavras, e não enquanto classificação de objetos (Guimarães, 2007).

Levar em consideração esta posição não-referencialista irá nos impedir também de definir os sentidos de travestis e transexuais como um dicionário faz. Também não será possível admitir que os significados dessas categorias podem ser apreendidos (como frequentemente se faz) em pequenos glossários acerca de determinados temas. Ao contrário, o dicionário e o glossário são antes de tudo, textos, textos esses que apresentam algumas relações de sentidos sobre esses termos construídos na enunciação, mas que não são universais. Não existe, portanto, um sentido meramente abstrato e virtual que um dicionário ou glossário poderia apreender de forma “neutra”.

Aliás, é importante ressaltar o poder de um certo fetiche que muitas pessoas conferem ao dicionário. Assim como é muito comum vermos uma instrumentalização do discurso biológico para deslegitimar as identidades trans* (“uma mulher trans* na verdade é homem pela biologia”) o mesmo opera com as acepções encontradas no dicionário. Já me cansei de ver gente dizendo que travestis são “homens que se vestem de mulher” porque leram isso no dicionário. Então cabe aqui a advertência: o que está expresso no dicionário muitas vezes pode não representar a forma como certos grupos minoritários veem a si mesmos, neste caso, travestis; e também que esta acepção no dicionário não é “neutra”, ela está sim marcada ideologicamente.

Guimarães (2007) propõe o conceito de Domínio Semântico de Determinação (DSD) que visa explicar o funcionamento da significação em um texto. Segundo ele, a “determinação é fundamental para o sentido das expressões linguísticas”. Então, supondo os enunciados:

  1. Reportagem mostra rotina de travestis e prostitutas na noite de Teresina.
  2. Reportagem mostra rotina de travestis e prostitutas na noite de Teresina. Os clientes de umas e os das outras raramente se encontravam.
  3. As mulheres prostitutas e os travestis entrevistados relataram que o fato de serem profissionais do sexo configura-se como uma profissão legítima.
  4. As prostitutas entrevistadas, tanto mulheres cisgêneras quanto travestis, disseram sofrer discriminação.
  5. Mulheres que se prostituem, sejam travestis ou cisgêneras, estão propensas a sofrerem discriminação

Eles nos mostram como as relações entre as palavras no texto constituem o sentido delas. Embora em (1) já se encontre uma oposição entre travestis e prostitutas, é em (2) e (3) que se reforça a relação de oposição entre, respectivamente, travestis e prostitutas e entre mulheres e travestis. Em (3) mulheres determina prostituta, mas não travestis, e isso fica ainda mais marcado pelo uso do flexão de gênero gramatical no masculino para travestis. Porém, em (4), prostituta designa de forma diferente dos enunciados anteriores, pois determina não apenas mulher, mas também travesti. Em (5), por sua vez, a designação de mulheres é diferente de todas as demais, pois determina tanto travestis como cisgêneras.

O chiste da tirinha abaixo, publicada pela página do facebook “Travesti Reflexiva”, provém diretamente das relações de sentido estabelecidas entre homem e travesti construídas na enunciação encenada por um diálogo entre quadrinhos. Se homem determinaria (ou predicaria) travesti, estabelecendo uma relação de sinonímia, a outra via de sentido, travesti determinando (ou predicando) homem, passa a soar absurda. A tira lida com certas incoerências do discurso cissexista por rememorar na primeira tira um enunciado que é socialmente dizível e amplamente difundido de que “travestis são homens” que é então problematizado ao apontar, interrogando acerca da designação que o próprio interlocutor faz de si, a evidência de existirem outras relações de sentidos que circulam socialmente entre os dois termos além da mera sinonímia.

travestireflexiva

Desta forma, a partir destes exemplos e das contribuições teóricas desta área da linguística, é que deixamos de considerar o sentido como já dado no mundo (assumindo, portanto, uma concepção não-referencialista da linguagem) e apontar para a instabilidade constitutiva do sentido, já que temos que sempre levar em consideração o sentido como relações entre palavras em um determinado texto, que por sua vez é entendido como um conjunto de enunciados articulados entre si. A língua, nesta perspectiva, é pensada não como uma estrutura fechada, mas como um sistema de regularidades determinado historicamente que é exposto ao real e aos falantes nos espaços de enunciação (Guimarães, 2007).

Ao ler as análises de Bruno C. Barbosa (2013) sobre como são feitos os usos das categorias travesti e transexual e a partir das minhas leituras de reportagens e artigos que envolviam travestis e transexuais na mídia e em alguns artigos científicos, percebo que existe a construção de um imaginário de “superficialidade/abjeção criminal” associada à identidade travesti e um imaginário de “profundidade/abjeção patológica” associada à identidade transexual (de forma parecida com o recorte de Barbosa em seu artigo entre artificialidade e naturalidade). Podemos dizer que os sentidos provenientes deste imaginário são reforçados/criados pelos discursos médicos e jurídicos, que como já disse, se ancoram por legitimação institucional capazes de uma maior circulação o que garante sua hegemonia.

As listas que se seguem não configuram propriamente um DSD, na medida em que não analisei um texto ou conjunto de textos, mas já parti da identificação de uma memória discursiva sobre o sentido destes termos, de forma que o que chamei, por exemplo, de “ambígua em relação ao binário de gênero” incluir diversas determinações concretas possíveis, como “não ser/não se sentir homem nem mulher”. Esses imaginários vão influenciar, portanto, a forma como travesti e transexual são reescrituradas na enunciação. Isso se dá através dos determinantes de travesti como:

  • “ambígua em relação ao binário de gênero”
  • “não passível de ser diagnosticada como portadora de distúrbio de gênero”
  • “não fez/não quer fazer a cirurgia de redesignação sexual”
  • “sexualmente ativa”
  • “transexual falsa/ mulher falsa”
  • “traços masculinos”
  • “marginal”
  • “criminosa”
  • “prostituta”
  • “subversiva”

e de transexual como:

  • “não ambígua em relação ao binário de gênero”
  • “passível de ser diagnosticada como portadora de distúrbio de gênero”
  • “fez/quer fazer a cirurgia de redesignação sexual”
  • “não sexualmente ativa”
  • “transexual verdadeira/ mulher verdadeira”
  • “feminilidade unívoca”
  • “disfórica”
  • “transtornada”
  • “suicida”
  • “normativa”

Vale uma observação sobre como as determinações encontradas em uma categoria implicam o sentido das outras determinações da outra categoria de uma forma mais ou menos implícita, criando uma rede intrincada e complexa de sentidos que visa produzir uma coerência entre eles que acaba por reforçar as supostas diferenças essenciais entre travestis e transexuais. Estas diferenças são tomadas como evidências de sentidos que acabam por reforçar a aparência das palavras como substâncias (objetos no mundo) que por sua vez corroborará a hipótese de gênero (ou seus transtornos) enquanto uma categoria nosológica e a transexualidade/travestilidade como patologias diagnosticáveis[1]. Afinal de contas, se o sentido destas categorias estiver apenas “colado” em algum corpo fora da linguagem, o corpo tido abjeto das pessoas trans*, estabelecendo uma relação de referência, bastaria garantir o crivo e separar o joio do trigo, de modo à pretensamente observar se a relação entre a enunciação/identidade da pessoa realmente conferir com uma suposta realidade: as pessoas trans* falsas de um lado e as verdadeiras de outro.

Voltando às determinações, é de se esperar que uma pessoa marginalizada (determinação de travesti) tenha muito mais dificuldade de poder concretamente “ser diagnosticada como portadora de um distúrbio de gênero”, justamente pelo fato recorrente das travestis não conseguirem ao menos acessar cuidados básicos de saúde [2], interditando, de certa forma, que travesti seja determinada por termos afeitos à saúde mental, já que estes termos são condicionados a um crivo psicológico (que pressupõe, portanto, o acesso a cuidados de saúde). Aliás, há alguns casos de “exceção” a esse caso (que acabam por só reforçá-lo na verdade), quando a determinação “suicida” muitas vezes só é utilizada para determinar travesti em ocasiões muito específicas (mas apenas para reforçar os imaginários de que falei), em especial para justificar a necessidade de terapias psicológicas/psiquiátricas obrigatórias, articulando o mito da visão suicidógena (Bento, 2012) e a validade do diagnóstico médico.

Da mesma forma, existe uma interdição de determinantes de transexual que dizem respeito à profissão, pois se por acaso transexual for determinada como prostituta, existirá uma associação entre sua profissão e uma consequente deslegitimação de sua identidade, na medida em que se associa fortemente a prostituição com diversos outros determinantes de travestis, como “sexualmente ativas” e “marginais/ criminosas”.  Neste sentido, certos fatos externos à linguagem refletem como as relações de determinação linguística são construídas na enunciação.  Contudo, isso não quer dizer que exista, como disse anteriormente, uma relação direta e inequívoca entre mundo e linguagem, mas como define Guimarães (2007), a partilha do real não se projeta sobre a linguagem diretamente e o caráter relacional do sentido ficou bastante evidente, na medida em que travesti significa na relação de seus determinantes com o que justamente não significam os determinantes de transexual e vice-versa. Outro fator externo à linguagem que certamente influencia as designações e reescriturações de travesti e transexual feitas pela enunciação são recortes de raça, classe e orientação sexual que poderei abordar numa futura análise.

A transgressão de gênero das travestis é determinada pelo aspecto de “vestir” (remetendo a uma superficialidade) enquanto as transexuais pelo de “sentir” (remetendo a uma profundidade). A retificação deste recorte de sentidos (orientados pelos imaginários superficialidade/abjeção criminal e profundidade/abjeção patológica) tenderá a reproduzir as formas de dominação através de cissexismos diversos, em especial a marginalização das travestis que serão determinadas com traços que “superficializam” tanto seus gêneros quanto suas próprias humanidades, já que suas identidades femininas se deslegitimariam por meio destas formas de se designar “superficiais”. Do outro lado, há as determinações que “aprofundam” os sentidos de transexuais na medida em que, ao “explicar” subalternamente suas existências e operando por meio de essencialismos (estratégicos ou não), houvesse a necessidade de apelar a praticamente uma construção metafísica, como vistos frequentemente em “almas femininas aprisionadas em corpos masculinos” e “diagnosticadas”. Transexuais são assujeitadas a formularem (ou serem formuladas) por meio dessas expressões a fim de legitimarem suas existências e conseguirem sobreviver em uma sociedade nitidamente transfóbica por meio da vendida “cura” (através dos dispositivos do diagnóstico e do laudo)  por médicos psiquiatras, por isso são abjeções patológicas. Já travestis são a face vazia do Outro, na qual não foi possível a construção de uma inteligibilidade pelo discurso médico, tratando-se de uma dupla abjeção por não apenas infringir a lei da cisgeneridade compulsória, mas a própria lei do gênero enquanto binário; essa dupla infração não é perdoada pelo cistema, por isso são abjeções criminais. Não à toa associarem o lugar social de transexuais com as clínicas e das travestis com a prisão e as pistas de prostituição, o que remete bem aos estereótipos de “doida” e “puta” apontados por Barbosa (2013).

No entanto, quero mostrar, assim como ele fez acerca das potencialidades de deslocamento dos sentidos de travestis e transexuais , que a enunciação torna possível uma forma de empoderamento e resistência antinormativa, pois é a partir dela que pode existir a auto identificação (que tanto prezamos no transfeminismo) sobre nossas identidades. Ao invés de designar as diferenças entre travestis e transexuais como postulam médicxs e juízxs é possível designar as semelhanças (ou diferenças, de fato, já que vão sempre tender a existir, mas que sejam agora relevantes politicamente) e a partir disso, ensejar formas de solidariedade entre pessoas trans* que visem à crítica institucional da transfobia [3]. Como exatamente fazer isso? Não é uma resposta fácil, nem dada. Espero que consigamos construir isso coletivamente.

Apontar a opacidade da língua, portanto, é apontar que existem disputas. Se tomarmos os sentidos já dados como mera virtualidade acerca de travestis e transexuais estaremos dando de mão beijada a supremacia de apenas uma forma de apreensão deste real, que não é à toa que se trata da apreensão feita pelos discursos médicos e jurídicos que visam apenas produzir controles cisnormativos, marginalidades e abjeções sobre nossas identidades.  Apontar o funcionamento da língua se mostrou para mim como uma forma de resistência à própria patologização das identidades trans*, pois, levando em consideração que as categorias travesti e transexual não configuram substâncias/seres, mas sim palavras, a apreensão deste real por dispositivos de saber da biologia/medicina se torna não apenas um erro epistemológico, mas a própria reprodução das relações de poder que envolvem a transfobia e transmisoginia.

1. O diagnóstico de transexualismo(sic) é o único “viável”, na medida em que a travestilidade, mesmo sendo patologizada e classificada enquanto “travestismo”(sic), não possui efeitos práticos a não ser como constituinte do próprio sentido do diagnóstico de transexualismo(sic) por mera relação de diferença e negação, enquanto Outro.

2. Inclusive, pelo fato de que travestis justamente por não conseguirem acessar cuidados básicos de saúde, são constantemente noticiados seus problemas de saúde em decorrência da aplicação de silicone industrial e da falta de acompanhamento endocrinológico.

3. Sem, contudo, apagar as especificidades, atentando para recortes intersecionais. O que proponho é designar as diferenças que sejam relevantes para se pensar, a partir destas representações, ações políticas que promovam os direitos das pessoas trans* e demais grupos oprimidos.

Referências Bibliográficas

BARBOSA, Bruno Cesar. “Doidas e putas”: usos das categorias travesti e transexual. Sexualidad, Salud y Sociedad-Revista Latinoamericana, n. 14, p. 352-379, 2013.

BENTO, Berenice; PELÚCIO, Larissa. DESPATOLOGIZAÇÃO DO GÊNERO: A POLITIZAÇÃO DAS IDENTIDADES ABJETAS. Estudos Feministas, v. 20, n. 2, p. 569-581, 2012.

GUIMARÃES, Eduardo. Domínio semântico de determinação. A palavra: forma e sentido. Campinas: Pontes, p. 77-96, 2007.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Cissexismo, Despatologização, Discursos Jurídicos, Discursos médicos, Linguística, Patologização

O que é cisgênero?

Falar sobre cisgeneridade ou que significa o termo cisgênero é falar sobre diversas lacunas que envolvem o conceito de gênero/sexo. É falar sobre abjeções, normatividades, discursos de resistência, equívocos, alteridades, lugares de falas e também sobre questões linguísticas que a dicotomia cis/trans* envolve ou propõe. Neste texto, pretendo abordar o termo cisgênero principalmente em sua faceta analítica/política (muito embora sua faceta subjetiva muitas vezes se mesclar com ela).

Acho que posso começar a falar sobre o que é cisgênero apontando um fato curioso: de longe, nas estatísticas deste blog, os termos de busca mais utilizados se relacionam com a partícula cis. “O que é cis?”; “O que significa cisgênero?”; “O que é cissexismo?”; etc. estão mais ao topo do que termos envolvendo a partícula trans, como “transgênero”; “transexual”; “transfobia”; etc. O que isso significa?

Digo que é um fato curioso por, a princípio, um blog destinado a tratar das questões das pessoas transgêneras, de nome TRANSfeminismo, ser mais conhecido e procurado por termos que envolvem a cisgeneridade. Seguindo uma lógica mais imediata, esperaríamos que quem procurasse um blog destinado ao transfeminismo, procurasse acerca das temáticas transgêneras em si mesmas. Mas não é exatamente isso o que acontece, já que nunca é possível pensar a transgeneridade em si mesma; sempre, ao tocar em qualquer coisa que remeta a um “trans*” estaremos remetendo a alguma coisa “cis”. Isso é justamente o que o transfeminismo traz de “novo”. Mas então por que exatamente o uso de cisgênero é tão importante?

Julia Serano neste texto traça um paralelo entre o uso de cisgênero com o de heterossexual e suas consequências políticas, já que se tornou possível não apenas nomear o “normal”, mas também o próprio sistema que gera as “anormalidades”, e com isso, pensar formas de resistência a esse sistema. Respectivamente, o vetor que envolve a orientação sexual e identidade de gênero são o heterosexismo/homofobia e cissexismo/transfobia. Percebam como formas de resistência a essas normatividades se relacionam com o reconhecimento do “Outro”, a alteridade, no que toca diretamente à língua. É através de palavras novas surgidas pelas vozes de pessoas marginalizadas através destes rótulos (homossexuais/transgêneros) que se desmascaram essas relações de poder, ao colocar o “normal” e o “natural” em uma nova relação com o “anormal”, uma relação agora simétrica através de novos rótulos (heterossexuais/cisgêneros).

São estes significantes que tornam possível o reconhecimento do Outro como uma variável tão legítima quanto à norma, que passa agora a ser designada com um rótulo, suprindo uma lacuna que por vezes é/era preenchida com termos naturalizantes. Quando alguém prefere se designar enquanto pessoa “biológica” ou “natural” para se dizer não-trans* (ou no passado, como não-homo) está se tentando preencher essa lacuna por meio de uma identificação delirante. Esta identificação delirante tenta continuar remetendo o Outro (as identidades trans* atualmente, e no passado, xs desviantes da norma heterossexual) ao seu lugar de abjeção.

Neste sentido, apontei neste texto como a luta referente à identidade de gênero está aquém da luta referente à orientação sexual meramente através da constatação na assimetria do uso dos termos cisgênero e heterossexual. Quero apontar como essa inferiorização da luta trans* impacta em nossas vidas e está diretamente relacionada com a (ausência) do reconhecimento e uso do termo cisgênero. Assim como muito provavelmente na época em que se começou a circular o termo heterossexual em que pessoas heterossexuais certamente (puderam) achar essa classificação pouco importante, inútil ou por vezes ofensiva, hoje vemos isso se repetindo, só que agora com o uso do termo cisgênero e seus derivados. O termo heterossexual já se encontra consolidado no léxico da língua, tanto é que já se encontra dicionarizado; já cisgênero (ainda) não.

Hoje em dia soaria absurdo alguém se contra-identificar como “biológico” para se dizer não-hétero e arrisco a dizer que é por isso que a homossexualidade não se encontra mais nos manuais de doenças como uma doença, ao contrário das identidades trans*. Digo também que a possibilidade de uma pessoa cis não se identificar enquanto cis é em si um próprio privilégio cisgênero.

Tentar pensar a transgeneridade em si mesma (recalcando ou não usando o termo cisgênero) é o que fazem, por exemplo, xs psiquiatras/profissionais psi , que essencializam e patologizam as identidades transgêneras, e algumas vertentes do feminismo dito radical.  Isso decorre devido a uma falta de reconhecimento do “Outro”, que são as próprias pessoas trans*, produzindo anormalidades e marginalizações que servem a interesses ideologicamente marcados: aos primeiros interessa o controle biopolítico dos corpos e identidades trans e aos segundos, a supremacia das questões referentes às mulheres cisgêneras (e por vezes, de mulheres brancas, ocidentais, heterossexuais e de classe média) pautadas no feminismo.

As pessoas cisgêneras não sentiram e não sentem necessidade de se designarem enquanto cis. São as pessoas trans* que estão apontando e apontaram esta necessidade, e possibilitando, por exemplo, não apenas pensar formas emancipatórias e descolonizadas de se entender a transgeneridade, mas também como meio de se criticar as formas como foram representados os sujeitos “homem” e “mulher” na antropologia, nos estudos de gênero/feminismo e em qualquer outra materialidade discursiva.

Isso significa dizer que é possível fazer uma crítica transfeminista a qualquer estudo/teoria – ou melhor dizendo, a praticamente todos os estudos/teorias já produzidos, no sentido que a categoria cisgênera só começou a ser utilizada recentemente e em pouquíssimos e restritos espaços não legitimados enquanto produtores e legitimadores de conhecimentos e verdades – que envolva gênero/sexo/sexualidade em que não se encontra cisgênero enquanto categoria analítica. Não se trata de jogar fora tudo o que o feminismo, a psicanálise, marxismo, etc. produziram sobre gênero, mas apontar suas lacunas ou colonizações referentes à questão transgênera. Igualmente proporcionar contribuições a todas as áreas de saber e ativismo político (em especial as afeitas aos estudos de gênero e ao feminismo), ao incluir um novo vetor intra-gênero que se referem às questões e existências de pessoas transgêneras, que passarão a integrar as análises intersecionais que levem em conta a classe, raça, gênero, etc.

Trata-se sim de apontar certas opacidades da língua que o reconhecimento da cisgeneridade passa a permitir. Por exemplo, quando se usa termos como “mulher” ou “homem” para referenciar sujeitos no mundo como evidência de sentido de um sujeito universal, que é o cisgênero, passamos o questionar a naturalidade desta relação. Neste sentido vale dizer que a língua faz um determinado recorte do real e o termo cisgênero permite um recorte diferente deste real, na medida em que desestabiliza relações de sentido já consolidados das categorias “homem” e “mulher”, proporcionando a inclusão das identidades trans* como hipônimos nestas categorias.

Por fim, quero reforçar a ideia de que não existe mais volta. Não existe mais volta a um passado em que seria possível pensar as identidades trans* como anormalidades distantes e isso passar batido. Nós estamos aqui pelo menos, resistindo. Não existe mais volta quanto ao uso político da categoria cisgênero, assim como aconteceu com a categoria heterossexual. Quero frisar também que qualquer tentativa de rechaço a esse termo trata-se da reprodução da própria supremacia cisgênera e, portanto, um ataque transfóbico. E a própria possibilidade deste rechaço, um privilégio cisgênero, pois quando se rechaça o uso do termo cisgênero, são as vozes subalternizadas que são desqualificadas. São as vozes das pessoas trans* que buscam se libertarem destas formas estigmatizadoras e colonizatórias de entenderem suas existências.

4 Comentários

Arquivado em Ativismo, Feminismo, Invisibilidade, Linguística, Transfeminismo

Sara, por Sara (e mais ninguém)

Hoje temos a participação de Sara Jhones, com seu relato. Devemos proporcionar um espaço para que nós, pessoas trans*, possamos ter nossas vozes ouvidas e publicizadas. Precisamos de mais relatos como esse aqui no transfeminismo. Precisamos também, sobretudo, garantir através dessas “novas” vozes, a construção contínua de diálogos entre nós mesmxs, tanto para discutirmos questões mais teóricas como para garantir nossa própria sobrevivência física e emocional. Porque nós sabemos que para nós, não existe o privilégio de pensarmos as teorias separadas das práticas (de resistência, já adianto).

***

Image

Meu nome é Sara e sou uma mulher trans*

Venho nesse momento expor alguns fatores que fazem parte da minha história/vivência enquanto pessoa trans*.

O “ser mulher” e “ser homem” sempre me foi ensinado tanto no núcleo familiar em que cresci  (assim como na maioria dos lares brasileiros), quanto nas escolas que frequentei e a todo o tempo, pelas pessoas que conheci. Pessoas cisgêneras que faziam questão de separar muito bem o gênero, assim como as cores, brinquedos, brincadeiras, roupas, hábitos, comportamentos e costumes. Não questionava, pois pensava: “Acho que ninguém gosta de ser homem”. Impressionava-me constantemente com a forma de pensar dos meninos e tentava ao máximo compreender o que motivava os pensamentos parecidos, sendo que sentia só o meu ser completamente diferente. Procurava sempre fazer amizade com outras garotas, para ter com quem compartilhar ideias e pensamentos parecidos, mas na hora de formar a fila para cantar o hino nacional ou para passeios da escola, sempre me colocavam na fila errada. Cresci de certa forma “conformada” com a situação, pois não era apenas a minha família ou funcionários da escola que “supervisionavam” a minha adequação ao gênero designado, mas a sociedade como um todo. E isso é algo realmente infeliz de se perceber aos 7/8 anos de idade. Parecia a sociedade protegendo-me da própria sociedade, como se me dissessem aos sussurros: “Faça isso, para que nós não te punamos e consigas viver em paz”. Pensava que queriam o “meu bem”, mesmo que o “meu bem” não me fizesse bem.

Não estou replicando aquela história: “Quando eu era criança gostava de brincar de boneca e não de carrinho”, estou dizendo que a não similaridade com o gênero masculino sempre me foi bastante nítida. E se há algo que me lembra isso é o fato de que adorava subir no palco da escola todos os dias na hora do *recreio* para cantar as músicas de “Sandy&Junior” (obviamente só cantava as partes da Sandy rsrs).

Não tive uma infância sofrida nem com episódios de automutilação como muitos psicólogos e psiquiatras adorariam que fosse para inserir no meu prontuário médico e dessa forma compor um diagnóstico de “transsexualismo irrefutável”. Um caso fácil. CID 10 F 64.0 na ficha médica e pronto.

Por sorte, e MUITA sorte faço hoje acompanhamento com uma excelente ginecologista que acima de tudo leva em consideração minha intenção com tratamento hormonal e objetivos reais. Que não me tratou como um objeto a ser estudado ou me trouxe formulários pré-estabelecidos para hormonização pré-cirúrgica, afinal, muitos médicos nem nos questionam a intenção da hormonoterapia e pensam que todas as pessoas trans* obrigatoriamente fazem seu uso com fins de redesignação sexual,*mesmo que a hormonização seja totalmente desnecessária para a realização da mesma*, mas o protocolo adotado exige hormonoterapia, então uma trans (que não é o meu caso) que deseja realizá-la terá de seguir o protocolo querendo ou não.

Protocolos, normas, regras, exigências, paramentos, métricas, processos, tratamentos.

Chegamos a um ponto e na verdade nunca saímos dele, de que se pessoas cisgêneras nos dizem que devemos ser atestadas(os) como doentes para nos tratarem, tudo bem. Se precisamos de laudos, provas e tudo mais que nos identifiquem possuidoras(es) de transtorno mental/comportamental  necessários à retificação dos documentos, faremos o quê?  Colocaremos-nos mais uma vez nas mãos de um (cis)tema que nos obriga a pedir permissão de existir. Se um erro aconteceu no momento do nascimento por avaliação da morfologia genital, não nos dão o direito de corrigir esse erro. Não nos dão o direito de corrigir sem depender de uma pessoa cisgênera para dar ou não a permissão para que isso ocorra, para ter minha vida em meu poder. Não nos dão direitos simplesmente.

Não só param aí as decisões tomadas por nós, pois mesmo nas relações permeadas pelo “teórico” afeto, também se vê a sobreposição de poder, quando homens cis héteros dizem para mulheres trans*: “Gostei de você, quero você”. Como se a decisão fosse a deles, nunca a nossa, pois na nossa cultura não deveríamos “escolher” e já seria um verdadeiro “milagre” atrairmos uma pessoa sem ela estar bêbada ou sem a enganarmos escondendo nossa “verdadeira identidade” (identidade essa que não se verifica psiquicamente mas compulsoriamente). Não é inteligível nem aceitável nossa opção de revelar ou não nossa condição trans*, afinal, o mundo precisa saber e se defender de nós, que existimos para “enganar”, né? E precisamos ser resumidas(dos) a um genital, para tornar as coisas simples, muito simples, o mais simples possível até chegar no religioso e científico “macho” e “fêmea” que tantos discursos transfóbicos amam se sustentar.

Parem com isso. Devem-nos o direito de decidirmos por nós mesm@s, de corrigir erros que não fomos nós quem cometemos, de decidir o que fazer com nossos corpos, de decidir o que fazer com nossas vidas! Não vou pedir permissão para existir assim como não vou pedir permissão para me aceitar! Não irei faltar-lhes com respeito, porém não vou permitir que me subjuguem ou que me resumam, pois não posso ser resumida, principalmente não irei ser resumida a um órgão, a um gênero que não me define, nem a um monte de conceitos cisnormativos que me impuseram.

Se não tivesse meus cabelos longos “de mulher”, minhas saias “de mulher”, meus sapatos “de mulher”, meu rosto “de mulher”, seria “mulher” mesmo assim. Podem me tirar e negar o que não tenho. Mas não podem tirar minha essência, minha alma e minha vida, pois senhoras e senhores CIS, sinto informá-los, mas são puramente e naturalmente “de mulher”.

4 Comentários

Arquivado em Guest Post, Reflexões, Relatos, Socialização

Por um conceito de sexo transfeminista

Em tempos de carnaval, em que pessoas cisgêneras (em especial, homens) se veem livres para tratar mulheres trans* e travestis com chacotas enquanto enganadoras, acho bastante relevante falar como o aparentemente inocente conceito de sexo implica nestas formas cruéis e opressoras de se compreender as pessoas trans*. Diversos autores – como Judith Butler – vêm questionando e problematizando com bastante minúcia o conceito de sexo e o estatuto de sua materialidade. Essas discussões colaboram para uma perspectiva essencial para compreendermos práticas e teorias transfeministas, pois trazem o caráter político/ cultural do sexo, e não apenas, como tradicionalmente foi entendido, acerca do conceito de gênero. Aqui, neste primeiro momento, não me interesso em aprofundar estes debates sobre as controversas acerca da materialidade do sexo, mas sim, enquanto pessoa trans* transfeminista que está iniciando seus estudos nestes autores e nestes temas, apontar minhas impressões sobre algo que ainda me parece incipiente nestes debates: a representação do sujeito coletivo e político de pessoas trans*.

Acredito que esta falta se dê justamente pelo apagamento/silenciamento das questões tipicamente transfeminista pela brutal violência com a qual são submetidas as pessoas transgêneras, que as impedem de acessar direitos básicos, quem dirá espaços como a academia para discutir estas questões políticas (que trazem implicações nos campos do feminismo, teoria queer, antropologia, etc.). Acho que nem ao menos preciso lembrar sobre como a voz das pessoas trans* é correntemente colonizada por pesquisadores, pois isso já foi denunciado aqui neste blog, dentre outros, e em discussões nos grupos e páginas sobre o tema no facebook.

Eu acredito que o transfeminismo seja capaz de suprir esta falta, enquanto meio efetivo para que as vozes das pessoas trans* sejam efetivamente ouvidas e expostas. E é a partir desta voz, antes não ouvida, que vamos passar a compreender o sujeito político de pessoas trans*. Quero problematizar alguns conceitos sobre sexo que tem suas implicações no meu cotidiano e nas demais pessoas trans* e neste momento não vou me aprofundar nas teorias feministas ou queer, mas desejo que seja feito o convite (mais do que urgente) em se pensar de vez sobre transfeminismo e suas implicações na teoria/prática.

Como disse, existe um debate acadêmico/político acerca do conceito de sexo que visa questionar o estatuto abstrato, biologizante e a-histórico do sexo. Esse debate está imerso em diversas “polêmicas”, pois o que se discute aqui se refere ao caráter contraditório do sexo que se manifesta muitas vezes nas tensões entre áreas de conhecimento ditas “humanas” e “biológicas”. Resumindo as querelas, sexo deixa de ser um dado objetivo e passa a ser cada vez mais compreendido – em diversas nuances – como um dado prescritivo que só pode ser entendido nas relações de poder em que se encontra. Estes apontamentos são essenciais para entendermos o transfeminismo, mas não são suficientes a meu ver.

Tenho a impressão que ainda falta discutimos sobre o sujeito político que é diretamente oprimido, que neste recorte, são as pessoas trans*/mulheres trans*. Se não falarmos sobre quem são as pessoas trans* quando discutimos sobre as relações de poder que envolvem o sexo, parte essencial do debate sobre sexo é violentamente silenciado, pois não se leva em consideração integralmente sexo enquanto sua materialidade contraditória.

Pois acredito, enquanto transfeminista, que pessoas trans* são aquelas que sofrem (materialmente) a faceta transfóbica das normas de gênero/sexo. O feminismo conseguiu/tem conseguido problematizar a faceta misógina das normas de sexo/gênero e proponho que façamos o mesmo para a faceta transfóbica, e para isso, é essencial entendermos qual é o seu sujeito político. Se não dermos “nomes aos bois”, a meu ver, estaremos nos furtando de entender as diversas formas de como sexo enquanto norma se materializa. Isso significa dizer que são as pessoas trans* que sofrem com transfobia, e transfobia decorrendo diretamente das normas cisgêneras que o conceito de sexo pressupõe. A discussão sobre o sujeito político do feminismo também foi feita, a partir da dessencialização da categoria mulher proporcionado por perspectivas intersecionais que levaram em consideração questões como classe, raça e agora, também (assim espero), um recorte intra-gênero que considerará a questão transgênera. E vale a pena também ressaltar que este recorte transgênero se relaciona diretamente com a utilização do termo cisgênero enquanto conceito analítico que questiona as diversas formas de naturalização da supremacia cisgênera.

Então afinal, o que é sexo enquanto produtor de transfobia? É bastante fácil observar isso no cotidiano. Não se trata de discussões acadêmicas e difíceis de entender. Quando lemos nas matérias de jornais a forma como tratam as pessoas trans* com nomes, pronomes e flexão de gênero com o qual não se identificam, isso é uma manifestação de sexo enquanto supremacia cisgênera. Quando vemos a insistência contraditória de se levar em consideração o (suposto) respeito à identidade das pessoas trans* porém, ao esbarrar no discurso biológico que ditaria que a verdade por trás do “gênero” de uma mulher trans* estaria “escondido” o “sexo” masculino e com homens trans*, o “feminino”, o que de fato estas construções de sentido implicam? Vemos com relativa frequência esse discurso que respeita as identidades trans* até a página dois, até quando falamos em “biologia”, na qual uma suposta verdade objetiva entraria em jogo e imperaria. É sobre dizer e descrever objetivamente alguma coisa no mundo ou, ao contrário, construir um argumento, de que pessoas trans* são, apesar de suas identidades psíquicas, as “falsas”, aquelas cuja, em última instância, não são capazes de sustentar seus gêneros através de seus corpos?

A pergunta aqui foi retórica: a instrumentalização ideológica de conceitos da biologia serve para a perpetuação de pessoas trans* enquanto falsas e abjetas e a destituição de direitos civis. Quando um juiz nega o reconhecimento à retificação dos documentos às pessoas transgêneras, é usado o discurso biológico, de que tais pessoas não seriam verdadeiramente homens ou mulheres. Quando pessoas trans* são exotificadas, objetificadas, transformadas em seres de potencial “engano” e destituídas de consentimento sobre seus próprios corpos também. Quando pessoas cis se sentem no direito de tornar a transgeneridade de alguém objeto de escrutínio público, quando elas se sentem no direito a saberem se uma pessoa é trans*, caso contrário a pessoa trans* é vista enquanto praticante de alguma forma de delito, também. Quando pessoas cis acham que se trata de apenas uma “piada” chamar uma travesti de mulher falsa, tratando-a como motivo de chacota, também. Trata-se da perpetuação de uma opressão e para isso a utilização de conceitos de sexo enquanto pretenso dado biológico, objetivo, abstrato e a-histórico. Pessoas são trans*, portanto, são oprimidas pelo sexo, não apenas pelo “gênero” (entendido em sua faceta social da dicotomia natural-social).

O que eu quero é que tragamos o transfeminismo para a academia, para as discussões teóricas e políticas das questões de gênero e isso irá significar levar em consideração, em última instância, sexo como materialidade contraditória do discurso que poderá ser apreendido e entendido enquanto produtor não apenas em seu vetor de opressão misógina (às mulheres cisgêneras), mas também em seu vetor transmisógino (às mulheres/pessoas transgêneras); sexo não entendido como um produtor de normas em abstrato, mas que se manifesta e se materializa nas vidas destas pessoas. Levar, portanto, a existência dessas pessoas para estas discussões, em especial, as mais subalternizadas e desvelar como essas formas de opressão ocorrem em suas formas concretas.

Deixe um comentário

Arquivado em Acadêmico, Ativismo, Feminismo, Feminismo Intersecional, Política, Transfeminismo

Disputas acerca do conceito de “privilégio” em discussões sobre privilégio cisgênero

Este texto faz parte da Blogagem Coletiva pelo dia da Visibilidade Trans*, uma colaboração entre os blogues Transfeminismo, Blogueiras FeministasBlogueiras Negras e True Love.

Por Leda Ferreira do Amaral

Pessoas trans* que buscam engajamento e visibilidade em espaços de militância frequentemente precisam apontar o lugar de discurso de seus interlocutores cisgêneros, numa tentativa de demonstrar como os privilégios cisgêneros destes podem estar interferindo em sua capacidade de sentir empatia pelas pessoas trans*. Não raro, situações como essas terminam em disputas sobre o que “privilégio” envolve e se determinado grupo de pessoas cis têm ou não o que se chama de privilégio cisgênero – disputa essa que frequentemente prossegue para a própria negação da existência de privilégio cisgênero ou da cisgenereidade em si. Um dos espaços de militância onde isso ocorre repetidamente é o Feminismo.

Feminismo, para muitas pessoas, é um movimento que luta pela liberação e emancipação de todas as mulheres, e pessoas trans* buscam espaço e visibilidade dentro deste movimento, principalmente as mulheres trans*, que, mesmo se não fossem um grupo extremamente vulnerável socialmente, correndo os riscos mais altos de sofrerem violência física e sexual e exclusão das escolas e dos ambientes de trabalho, deveriam ter suas pautas levadas em conta por este movimento simplesmente pelo fato de serem mulheres.

A mera ideia de que todas as pessoas cisgêneras – incluindo as mulheres – exercem poder e privilégio sobre pessoas trans ainda encontra muita resistência entre muitas feministas. Uma das estratégias usadas é colocar em debate o próprio conceito de privilégio. Segundo esse pensamento, privilégio implica em beneficiar-se de alguma forma da marginalização ou exploração de outra pessoa. Mulheres cisgêneras não exerceriam privilégio cisgênero, portanto, porque elas não se beneficiariam de forma alguma da marginalização e violência que as pessoas trans* sofrem. O próximo degrau deste argumento é negar a própria cisgenereidade em si, potencialmente abrindo caminho para negar também a transgenereidade. É interessante perceber como a negação do privilégio cisgênero é base fundamental para a transfobia.

Para fundamentar tal pensamento, muitas vezes é feita uma analogia com o racismo: é ponto pacífico entre feministas que mulheres brancas exercem poder e privilégio sobre mulheres negras, devido ao racismo estrutural da sociedade, do qual mulheres brancas se beneficiam, por terem muito mais chances do que as mulheres negras de terem participação no patrimônio econômico que durante séculos foi gerado pelas próprias pessoas negras, sob condições de trabalho escravo desumanas, e por não enfrentarem o preconceito social resultante de séculos de estigmatização das pessoas negras. Porém, tal privilégio não existiria quando falamos das relações sociais com pessoas transgêneras. Por exemplo, o fato de as pessoas trans* encontrarem barreiras estruturais e sistêmicas para alterarem seus documentos e poderem ter direito ao seu nome e ao seu gênero e, por causa disso, serem excluídas do mercado de trabalho não implicaria em privilégio para as mulheres cisgêneras, que não enfrentam os mesmos problemas, pois elas não se “beneficiariam” do fato de as pessoas trans* passarem por essas dificuldades.

Comparando esse exemplo ao do racismo, e analisando o argumento, parece que quem defende isso entende privilégio exclusivamente como exercício de poder econômico, em que se possui alguma vantagem financeira sobre alguém. Naturalmente, classes privilegiadas reservam para si o direito de determinar o que é ou não privilégio. A manutenção do significado de privilégio permite às classes privilegiadas impedirem que se questione o próprio sistema que lhes dá poder, em primeiro lugar.

Questionar o poder de classes privilegiadas – incluindo, aí, pessoas cisgêneras – de decidirem acerca do significado de privilégio é vital. Mas hoje não faremos isso. Ao invés disso, aceitaremos, para os propósitos dessa discussão, a definição de privilégio que feministas cisgêneras escolheram como oficial, para demonstrar que, mesmo sob essa definição, ainda encontramos exemplos de privilégio cisgênero.

A marginalização das pessoas trans* diminui o acesso dessas pessoas às escolas, faculdades e universidades e ao mercado de trabalho – e consequentemente diminui a concorrência que as pessoas cisgêneras enfrentam. Isso é uma vantagem econômica – um privilégio, que mulheres cis também exercem. Cabe ressaltar que não se deseja, com essa constatação, culpabilizar as mulheres cisgêneras pela marginalização das pessoas trans*. Os meios de produção são, em sua maioria, controlados por homens cisgêneros, que decidem quem contratam ou não, e que certamente são responsáveis pela exclusão de pessoas trans*. Porém, mesmo não sendo responsáveis por isso, mulheres cisgêneras ainda assim se beneficiam disso.

O mesmo vale para abrigos para mulheres vítimas de violência e estupro. Mulheres trans* são desproporcionalmente mais afetadas por esse tipo de violência, e teoricamente haveria uma ocupação grande desses espaços por elas, diminuindo as chances de mulheres cisgêneras que sofressem a mesma violência de encontrarem lugar nestes espaços. A atitude de banir mulheres trans* desses espaços sem levar em conta os riscos sofridos por elas – atitude essa apoiada por muitas feministas – resulta em maior chance de mulheres cisgêneras encontrarem lugar nesses espaços se precisarem.

Quanto ao próprio Feminismo em si, impedir o acesso de mulheres trans* aos espaços feministas resulta em mais tempo, energia, dinheiro, esforço e atenção dedicados às pautas específicas das mulheres cisgêneras. Aceitar mulheres trans* nestes espaços significa, para muitas feministas, ver todos esses recursos sendo dedicados em menor quantidade às pautas delas, para serem dedicados às pautas específicas de toda uma classe de mulheres. Isso também pode ser entendido como vantagem competitiva e privilégio.

Questionar a existência de privilégio cisgênero é silenciar as denúncias de opressões vividas por pessoas trans* e se isentar de responsabilidade. É impedir que o lugar de discurso das pessoas cisgêneras seja apontado. É negar que a sociedade e a cultura são cis-supremacistas. É desqualificar a existência de cissexismo. Cissexismo é o fundamento teórico para a transfobia. Não reconhecer a existência de privilégio cisgênero está na base da transfobia.

Que nesta Semana da Visibilidade Trans*, e em todas as demais semanas do ano, se reconheça a existência da transfobia, e que privilégio cisgênero está na base dela. Que lutemos contra a transfobia com coragem.

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized