O que é a transgeneridade em seu vetor material?

Com o transfeminismo podemos pensar a questão da transgeneridade em sua especificidade, enquanto luta política. Existem múltiplos feminismos, com o transfeminismo também não seria diferente. Isso significa, portanto, que existem múltiplas formas de se pensar a transgeneridade. Poderíamos dizer, que mesmo existindo essa diversidade, que a base comum do(s) transfeminismo(s) seria pautar a transgeneridade em seu aspecto político. O que, contudo, também não nos garante muita homogeneidade, já que também poderíamos pensar sobre diferentes formas de como concebemos o político.

Aqui de adiante, portanto, vai da forma como eu, Bia, compreendo o transfeminismo e portanto, o modo como a transgeneridade se liga simbolicamente no político. Muito das minhas interpretações da questão se dão a partir das discussões propostas pela análise de discurso materialista, cujo principal expoente é Michel Pêcheux. Em vários textos aqui do blog tenho tentando essa aproximação teórica. Tenho proposto, portanto, pensar em um transfeminismo materialista. Isso significa pensar em uma teoria não subjetivista do sujeito. Este sujeito, no nosso caso, é/são o(s) sujeito(s) trans*. Ou seja, o que eu pretendo é pensar a transgeneridade enquanto vetor material ético-político (Orlandi, 2014) de resistências à interpelação ideológica do (cis) gênero compulsório.

Esta proposta teórica, tenho que frisar, não nasce do vácuo. Eu viso manter uma ruptura, por meio desta perspectiva, tanto com o biologismo e psicologismo – materializados nos discursos médicos – quanto com o sociologismo – materializado sobretudo nos discursos feministas radicais. Ou seja, parto da crítica tanto da psiquiatrização da transgeneridade quanto pela sua (cis)socialização via feminismo radical. Meu discurso transfeminista, neste sentido, é antagônico tanto ao discurso médico quanto ao feminista radical. Não é por acaso podemos observar uma aliança insólita entre o discurso do feminismo radical e da psiquiatria em relação à transgeneridade: eis o ponto no qual Sheila Jeffreys junta esforços com Ray Blanchard no discurso furado sobre a “autoginecofilia”. Julia Serano aborda esta questão em um artigo chamado “The Case Against Autogynephilia“.

Em ambos os casos (discursos), a questão do sujeito é que está posta, por isso a importância de se pensar sobre uma teoria (não subjetivista) da transgeneridade. Vale dizer, igualmente, que pensar no estatuto do sujeito trans* na sua forma-sujeito (enquanto interpelado ideologicamente), inevitavelmente nos faz tocar no sujeito cis. Portanto, é preciso entender primordialmente o sujeito do gênero (englobando tanto a cisgeneridade quanto a transgeneridade) interpelado pelo (cis) gênero. Isso se dá na medida em que as formações discursivas – as regiões insulares no interdiscurso que fornecem os sentidos aos sujeitos – se ligam às formações ideológicas, que por sua vez, representam o todo complexo com dominante.

Percebam, portanto, que não existe diferença essencial entre cisgeneridade e transgeneridade. Tampouco diferença estanque ou já dada entre elas. A diferença se dá apenas como o gênero se cinde ideologicamente pela forma da contradição. O que significa compreender também que existe cisões que dividem inclusive a própria cisgeneridade e transgeneridade nos seus interiores. A intersecção (falamos tanto de feminismo intersecional) eu entendo, portanto, como contradição. A diferença entre pessoas cis e trans* certamente existe, pois trata-se de diferentes lugares que os sujeitos ocupam empiricamente, que é descritível sociologicamente, sobretudo quando nos atentamos para as relações de privilégios.

Mas o que proponho prestar atenção é que, no interdiscurso, a transgeneridade não está apartada da cisgeneridade, na medida em que no Mesmo se encontra o Outro. Ainda temos que levar em consideração que o inconsciente, enquanto lugar que ocupa junto com a ideologia na constituição do sujeito e dos sentidos, nos aponta para o que é mais “instável” na relação cis/trans*; cis/cis e trans*/trans*. Fluxos contraditórios que orientam para uma forma de identificação. Não existe, portanto, essência biológica, psicológica ou sociológica “atrás” das materialidades cis e trans* (ou também, da materialidade do gênero). Essa afirmação pode “assustar” muita gente, e é certo que este é o ponto mais “caro” do que proponho, já que prevejo que muita gente entenderá a questão de outra forma. Vale então aprendermos a discordar, claro, e é assim que o conhecimento e o debate avançam. Aproveitando o ensejo, refuto certas leituras que fazem do transfeminismo, nas quais nós supostamente estaríamos reificando supostas essências entre pessoas cis e trans*. Oras, estou propondo justamente o contrário. O que eu digo é que não é possível fugir da língua, no sentido em que não é possível simplesmente fugir da cisgeneridade, empurrá-la para debaixo do tapete como se ela já não estivesse lá desde sempre significando (nem que seja justamente pelo recalque, em sua ausência necessária). A cisgeneridade é a irrupção do não sentido para o (outro) sentido do gênero.

Mas voltando ao assunto, se proponho um sujeito de gênero assujeitado pela ideologia isso significa dizer (ao menos): 1) o sujeito do gênero é interpelado ideologicamente pela cisgeneridade compulsória; 2) em decorrência disso, tanto pessoas cis quanto trans* são interpeladas pela cisgeneridade; 3) as diferenças das identidades entre pessoas cis e trans* se dão como os sujeitos se “relacionam” com seu próprio assujeitamento (ou seja, como se relacionam com a cisgeneridade compulsória) 4) essas diferenças não são essenciais – não são de natureza biológica, psicológica ou sociológica; 5) os sujeitos não são intencionais (no sentido que não escolhem os seus gêneros), neste sentido, ninguém “escolhe” ser homem ou mulher, cis ou trans*; 6) dizer que o sujeito de gênero não escolhe o seu gênero não significa cair, portanto, na “armadilha” do biologismo, psicologismo ou sociologismo, ou seja, não é a biologia que interpela o indivíduo em sujeito do gênero, nem as relações interpessoais tampouco a “socialização” (tal como é entendida pelo feminismo radical); 7) a forma como os sujeitos se “relacionam” com a própria interpelação, portanto, com o próprio gênero é entendida como um processo material que conjuga tanto a reprodução quanto a transformação (tanto reiteram quanto deslocam o gênero, e não existe separação estanque entre essas duas modalidades, já que elas funcionam, necessariamente, juntas pela contradição).

O sujeito do gênero, portanto, é interpelado pela ideologia (tenho que repetir), o que significa reiterar o caráter histórico, opaco e contraditório do gênero. Isso significa dizer, que o gênero não pode ser determinado de forma direta pelas “ciências positivas” da biologia, da psicologia ou da sociologia. Ou melhor, proponho que ao menos se faça a crítica da forma como essas ciências positivas tem apreendido a transgeneridade de forma completamente colonizatória, ignorando a questão da opressão transfóbica (apagando portanto a interpelação ideológica). Isso porque o gênero tem sua espessura e especificidades próprias, ou seja, a sua materialidade contraditória é constituída imaginariamente (pela ideologia) e simbolicamente (pela língua/discurso).

Entender que gênero tem sua materialidade contraditória nos aponta para o seu caráter equívoco. A transgeneridade nos mostra isso muito bem, já que a interpelação pela cisgeneridade falha e pessoas trans* existem e resistem. Mas também é equívoco num outro sentido: gênero é passível de se tornar outro, ou seja, cisgênero. A nomeação da cisgeneridade é uma das formas que eu considero mais fulcrais de como o gênero falha. Ver pessoas cis simplesmente não “entendendo” que são cis (nem ao menos entendendo “o quê” é) nos mostra o trabalho da ideologia de fornecer as evidências sobre o gênero de homens e mulheres. Pessoas que não entendem o que é cisgeneridade não o fazem justamente porque a ideologia apaga (simula) o processo de assujeitamento destas pessoas (sujeitos) pela cisgeneridade. Neste sentido, a ideologia do (cis) gênero não oculta nada, ela satura o gênero fornecendo os sentidos sobre homens e mulheres, o que todo mundo sabe sobre eles.

Voltando para o lado polêmico de tudo isso… acho que não preciso dizer em que medida nos distanciamos do discurso médico-psi, já escrevi pelo menos três vezes sobre isso, nos textos “Descolonizando os entremeios de Travestis e Transexuais” , “O Domínio Semântico de Determinação das identidades trans*” e ” Transgeneridade, psiquiatria e ideologia“. Sobre o feminismo radical, já abordei meus antagonismos com a corrente em “O feminismo radical e o barão de Münchhausen”.

Mas em relação ao feminismo radical, vale a pena apontar em que medida me distancio do conceito de socialização proposto por essa corrente. Quando digo que me distancio do sociologismo, não quero dizer que gênero não seja uma imposição social. Mas a forma como entendemos essa imposição importa, já que eu entendo socialização como interpelação. A grande falha da teoria feminista radical sobre a socialização se escancara na medida em que ela está furada tanto para abordar a questão transgênera quanto do próprio gênero. Primeiro porque a socialização do feminismo radical só acontece com pessoas cisgêneras no sentido de que apenas mulheres e homens cisgêneros são de fato assujeitados pelo gênero. Pessoas trans* estariam livres, elas “escolhem” serem trans* por mero esporte? E ainda concebem esta socialização se dando de forma completamente sem falhas ou rachaduras. Justamente por conceber gênero desta forma o feminismo radical se condena à prática do “abolicionismo de gênero”, um realismo metafísico que (facilmente) se alia com a transfobia.  Para essa teoria furada, os sujeitos trans* são sujeitos intencionais do gênero, o que, como disse acima, se distancia completamente do meu entendimento sobre a questão. Gênero, assim como a ideologia, são constitutivos dos sujeitos. Não se pode abolir a ideologia, tampouco o gênero.

Por fim, considerando que nós, pessoas trans* constituímos uma minoria enquanto um vetor material de transformação, fico com as palavras de Eni Orlandi (2014):

Saímos assim das oposições estabilizadas: quantidade/qualidade, questão sócio-econômica/questão sócio-cultural, para incluirmos a história, o político, a ideologia, o sujeito. E Muniz Sodré (idem,2005) dirá que, referindo a Deleuze e Guattari, e o devir minoritário, pensa-se a minoria não como um sujeito coletivo absolutamente idêntico a si mesmo e numericamente definido mas como um “lugar” de transformação e passagem. Lugar como localização de um corpo, espaço ocupado, lugar da ação humana. Não é localização física necessariamente, mas uma configuração de pontos ou forças, campo de fluxos que polariza as diferenças e orienta a identificação. (idem, 2005). Dirá, então, que “o conceito de minoria é o de um lugar onde se animam os fluxos de transformação de uma identidade ou de uma relação de poder” (idem, 2005). Não é, pois, uma multidão ou um grupo, mas, principalmente “um dispositivo simbólico com uma intencionalidade ético-política dentro da luta contra-hegemônica”, diz ele. Eu diria, em vez de intencionalidade, vetor material ético-político. Porque é uma força dinâmica, na direção da transformação. E não é da ordem jurídico-social instituída. (p.32)

Referência:
ORLANDI, E. Ser diferente é ser diferente: a quem interessam as Minorias?.  In. Linguagem, sociedade, políticas / organizado por Eni P. Orlandi. –  L755 Pouso Alegre: UNIVÁS; Campinas: RG Editores, 2014. 230p. — (Coleção Linguagem & Sociedade). Programa de Pós-Graduação em Ciências da Linguagem–PPGCL Universidade do Vale do Sapucaí–Univás: 29. Disponível em http://www.univas.edu.br/menu/POSGRADUACAO/cursos/stricto/mcl/docs/LivroLinguagemSociedadePoliticas.pdf

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Guest Post com Teofilo Tostes Daniel – Um pouco mais sobre linguagem

Quem acompanha o blog já deve ter percebido como a questão da linguagem para nós não é secundária. Desnaturalizar a transfobia significa questionar certos efeitos de sentidos que tomamos como evidência: sobre homens, mulheres e “os trans”. E toda vez que questionamos certos sentidos já dados sobre essas categorias (ou poderia dizer, identidades) a questão da língua entra inevitavelmente. E isso não significa que estamos falando sobre algum sentido sobre as palavras que estaria escondido que seria em última instância verdadeiro, e que a língua portanto seria uma abstração virtual que comportaria esse sentido unívoco para a prática política. Ao contrário, a política se dá na exata medida em que a língua é capaz de falhas. O que significa também entender que a prática política – assim como o discurso – é um processo sem começo nem fim pré-determinados.

Decidi que seria interessante publicar dois comentários que Teofilo Tostes Daniel fez em uma publicação pública no facebook de Daniela Andrade em uma discussão sobre a imagem da página Era de Cisperar. Apaguei algumas marcas de interlocução (os seus nomes) no texto a quem Teofilo estava se dirigindo, já que ele estava dialogando com outras pessoas no post. Mesmo assim, como podem ver, trata-se de um texto que merecia ser publicado para além dos efêmeros comentários do facebook.

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Retirado da página "Era de Cisperar"

Retirado da página “Era de Cisperar”

Minha leitura dessa imagem não me remete a possíveis erros, que certamente ocorrem, causados por desconhecimento — embora a língua não seja neutra e ela também guarda, em sua estrutura, os preconceitos da sociedade (basta lembrar que palavras como ídolo e gênio não têm feminino, e que, ao nos referirmos a um coletivo com pessoas variadas, utilizamos sempre marcas linguísticas no masculino). Eu sou uma pessoa cisgênera. Mesmo não estando no lugar de quem pode falar com alguma autoridade — pois não tenho a vivência transgênera, ou entre-gêneros –, vejo muitos estudos acadêmicos, supostamente sérios, reproduzindo… a ignorância.

Vale lembrar que as pessoas transgêneras sofrem de uma permanente invisibilidade em relação a vários aspectos da vida quotidiana. Aspectos que a nós, cisgêneros, parecem ‘normais’, como o fato de ninguém estranhar que meu nome na identidade difere da imagem que eu tenho e passo às pessoas no convívio social. Aliás, para ser o que sou não preciso de um atestado médico falando… que eu tenho um transtorno psiquiátrico!

E no caso da figura, há um agravante: a exclusão de pessoas trans* do espectro de homens e mulheres. Homens trans* são homens e mulheres trans* são mulheres. Parece tautológico ter de repetir isso, mas no atual estado de coisas, não é ainda. Claro, há também pessoas não-binárias. Mas trans* não são, necessariamente, uma categoria, ou um outro gênero, fora do gênero masculino ou feminino. Agora, se alguém “foi lá falar sobre gênero” — e eu leio esse lá da figura como o lugar do “legítimo” saber, do poder de dizer da taxonomia do mundo, lugar esse que comumente é ocupado por pessoas cisgêneras –, talvez fosse de “cisperar” que essa pessoa ao menos não reproduzisse o preconceito do senso-comum.

Além disso, a língua é uma construção, ela não muda por decreto. Muitas vezes alternativas irrompem para responder a um silêncio, a uma não-nomeação de algo que demanda um nome. Por exemplo, o termo cisgênero. Eu aprendi pela linguagem que tinha à época — cresci nos anos oitenta — que a oposição às pessoas transgêneras — que eu basicamente identificava como travestis — eram as pessoas… normais. Particularmente, eu não achava as travestis anormais. Mas minha estrutura de pensamento não dispunha senão do repertório linguístico que reproduzia a ideia de que as travestis — e, na verdade, qualquer pessoa transgênera — não era normal. Faltava-me exatamente a palavra cisgênero! Aliás, é sintomático que o corretor ortográfico automático do meu Google Chrome grife como errada a palavra cisgênero e não aponte erro na palavra transgênero. Tocando essa questão, vale muito a leitura desse texto magnífico, que mostra a relação entre o irrompimento da noção de cisgeneridade e a possibilidade (política) de contestação da normatividade cisgênera.

No caso dessa imagem do post: Por que alguém que vai falar sobre gênero não poderia dizer, por exemplo, “os homens, as mulheres e as pessoas não-binárias”? Simples, direto, inclusivo e, me parece, mais respeitoso com o estar-sendo de cada um.

Longe de mim dizer o que é certo e errado, sobretudo no campo da linguagem. Em especial no que deve ser ou não dito para se referir a pessoas trangêneras, tendo em vista que eu sou uma pessoa cisgênera e o que me cabe nesse campo, se eu quiser respeitar as pessoas trans* — e minha opção é sempre pelo respeito –, é estar atento a como as pessoas pedem que eu me refira a elas.

Vamos voltar um pouco no tempo, num tempo em que eu não era sequer nascido. No tempo dos meus avós, quando era comum pais esconderem em casa filhos deficientes — sobretudo com deficiência mental ou graves problemas físicos. Nesse tempo, era “aceitável” se referir a deficientes físicos como aleijados, coxos, mancos, aleijões, etc. E a deficientes mentais como retardados, mongóis, débeis, entre outras coisas.

Eu sou deficiente físico. Como cresci nos anos oitenta, só se referiam a mim como aleijado quando queriam me xingar — e há crueldade também entre as crianças. No entanto, não era sequer aceitável que numa conversa educada, alguém falasse de mim como “aquele aleijado”, ou “aquele coxo”. Mas nesse tempo, ainda não era tão incomum as pessoas se referirem, em conversas normais, a um deficiente mental como “mongol”, “débil” e até “retardado”. Hoje isso não é aceitável, e o comum é falar que alguém tem “deficiência mental”, ou designando pelo tipo de deficiência, como “down”, etc. Lendo o livro Holocausto Brasileiro, que conta a história do manicômio de Barbacena, o maior hospício do país no Século XX, onde mais de 60 mil internos morreram das formas mais horríveis — frio, fome, choque, etc. — é possível intuir sobre o porquê esse estigma perdurou mais.

Coincidentemente, com a mudança no uso quotidiano das palavras, vemos o crescimento da preocupação com a acessibilidade e com a educação inclusiva. E mesmo que estejamos muito longe de estarmos num mundo acessível, é nítido que as pessoas se constrangem quando se defrontam com a inacessibilidade dentro de seus próprios espaços — lojas, supermercados, etc.

Agora vamos pensar na forma de nos referirmos à homossexualidade. Esse paralelo que traço é para pensar grupos que sofrem com estigmas. Nos anos 80, era bem comum dizer que fulano era bicha, por exemplo. E também gay — que é uma palavra aceita, leve e que não tem um sentido de xingamento. Lésbicas eram invisíveis — conheci pessoas que sustentavam seriamente que não existiam lésbicas, e era só um “homem de verdade” chegar nelas, que elas “cederiam”.

Em contrapartida, a dicotomia não era entre os gays/bichas e os héteros, mas entre os gays e os normais. Lembro que em meados dos anos 90 é que os termos homo e heterossexuais passaram a ser mais usados. A primeira vez que eu ouvi o termo homofobia, por exemplo, deve ter sido lá para 96 e 97 — não estou falando do seu surgimento, claro, que eu nem sequer sei como foi. E é claro que, sendo hétero, provavelmente eu deva ter conhecido esse termo depois dos meus amigos gays.

Obviamente, ainda existe muito preconceito contra os homossexuais, que só recentemente vêm tendo alguma paridade (ainda precária) de direitos, em suas uniões, com relação às uniões heterossexuais.Mas é de se notar que a popularização dos termos hétero e homossexuais se deu de forma mais ou menos concomitante com o crescimento do movimento que ainda em meados dos anos 2000 eu conhecia como GLS, que não só lutou contra a homofobia, mas também pela conquista de uma série de direitos negados. Essa popularização levou, inclusive, a setores mais conservadores da sociedade a inventarem a bizarrice do “orgulho hétero”, algo que seria impensável nos anos 80 porque os gays, na fala popular, não estavam em dicotomia com os héteros, mas com os “normais”.

Adentrando agora ao campo da transgeneridade — ou da cisgeneridade compulsória, sempre invisível e condenando pessoas transgêneras a serem opostas conceitualmente às pessoas “normais”: Além de a conquista de direitos estar ainda engatinhando — e não existir uma lei que permita e simplifique a mudança de nome é um índice do quanto os direitos básicos são negados a essa parcela da população –, as referências desrespeitosas às pessoas transgêneras ainda são socialmente aceitas. Não raro se fala “as travas”, “os travecos”, “as/os trans”, “o transexual” (quando se trata de uma mulher trans), etc.

E sobre a questão que a Daniela levantou, de que ela não é uma trans, isso faz muito sentido. A Daniela realmente não é uma trans, mas sim uma mulher. Uma mulher trans. Quando alguém se refere a ela como uma trans, há o apagamento do fato de ela ser uma mulher e, eu arriscaria até, o apagamento de que ela é uma pessoa. Metonimicamente, ela se torna apenas algo que a caracteriza, que a constitui. Deixa de ser um todo e se torna uma parte. E, “coincidentemente”, a parte considerada pela sociedade como “abjeta”. Em contraposição, eu jamais serei o cis — e nem qualquer mulher cisgênera será a cis. Quem se referir a mim, falará “daquele homem”. Sim, é verdade que há uma elipse quando nos referimos a alguém como “a trans”, mas existe uma construção social que leva a essa elipse que reforça preconceitos. E eu arriscaria dizer, mesmo sendo uma pessoa cis e não tendo a vivência da experiência transgênera, que essa elipse tende a significar o apagamento ou a desumanização da pessoa trans. A elipse de seu ser no mundo.

E os exemplos que ela usa são ótimos. Alguém fala que “a cis foi à praia”? É tão nonsense, que não dá sequer para imaginar isso. No entanto, com mulheres trans, isso deveria ser aceitável? Por quê? Aliás, a maior parte das pessoas cisgêneras nem sabem o que isso significa. E há também quem, sabendo o que é, se recusa a aceitar essa categorização, como se ela fosse um absurdo, ou até uma ofensa. Afinal, haveria, por exemplo, as mulheres trans e as… biológicas? Uma nova forma de dizer normais, opondo a suposta “natureza” da pessoa cisgênera a uma espécie de engodo ou artificialidade dos corpos das pessoas trans? Isso não se parece, inclusive, com um discurso religioso fundamentalista?

Bom, eu acho que não dá para ignorar o poder das palavras e da nominação do mundo. Poder dizer o que as coisas são é uma forma de poder. Por isso, existem disputas de nomenclaturas. Existe o esforço de precisão ou rejeição de termos. Não fossem as palavras tão importantes, no distópico 1984 George Orwell não conceberia um mundo capaz de criar a novilíngua — e muito menos pensar no que politicamente isso significa. Essa minha visão, porém, pode ser um defeito do olhar de quem trabalha com palavras…

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O irrompimento da cisgeneridade

Levando em consideração, a partir das formulações da Análise de Discurso de que a língua é sujeita a falhas e que comporta a lalíngua (a língua que comporta a incompletude do inconsciente e dos sentidos), passo a entender a passagem da utilização do termo cisgênero não como uma criação, mas sim como irrompimento. Aqui no blog já propus que o surgimento do termo se deu na passagem incessante entre a linguagem e o silêncio, a partir de algumas reflexões de Eni Orlandi. Ou seja, o termo cisgênero não foi criado, foi irrompido na cadeia de significantes que simboliza o gênero (e por deslizamentos, a própria sexualidade). Afinal de contas, não se pode “criar” um termo, assumindo o teor de “novidade” que este verbo poderia indicar, que esteja nomeando algo que já está sempre lá, significando de alguma (outra) forma. A questão, de fato, é entender que estas formas de significar o gênero pelo (cis)gênero que “já estão lá desde sempre” acontecem de uma forma especialmente “subterrânea”: no inconsciente e pela interpelação ideológica.

Trata-se de uma aparente sutil diferença entre concepções de linguagem, mas que julgo muito relevantes. A diferença está entre não compreender a língua como um mero repositório de léxicos que serviriam para rotular uma realidade extra-linguística, mas sim compreende-la a partir de sua espessura semântica, sua ordem própria (ordem esta tributária à linguística). Então, entender que a língua possui uma “ordem própria” diz respeito a entendê-la através da relação que os signos mantêm entre outros signos dentro do sistema linguístico.

Para compreender a irrupção do termo cisgênero temos que observar não apenas que o termo refere a certas pessoas no mundo que são/seriam cisgêneras, mas para a relação que o termo estabelece com outros signos, em especial com o termo transgênero. E também dizer que há algo “mais” (ou melhor que “falta”, já diriam os psicanalistas) que o puramente linguístico, ou seja, os significantes deslizam nas cadeias simbólicas de formas não “esperadas”, inusitadas. É quando irrompem enunciados não logicamente estabilizados, já diria Pêcheux. Este é o real da língua que falam os analistas de discurso. Lembro de ter lido em algum lugar que para ser analista de discurso é preciso ser linguista e ao mesmo tempo não ser; acredito que aqui seja bem o caso, já que proponho pensar a irrupção do termo cisgênero como uma falha (ideológica) do gênero.

cis-temÉ a partir desta perspectiva que podemos compreender como a nomeação da cisgeneridade envolve uma estranha-familiaridade. Afinal, é algo que está sempre “já lá” mas a partir do momento em que ela surge como uma materialidade significante em sua total opacidade, há um estranhamento. Por que será que pessoas cis não sabem que são cis? Ou então, mesmo que tenham contato com as “definições” sobre o termo, por que ainda não se identificam como cisgêneros, ou simplesmente não “entendem”? De onde surge esta resistência ao significante? Como é possível um homem-designado-homem ou uma mulher-designada-mulher ao nascerem não se reconhecerem como cisgêneros?

O par estranheza-familiaridade também joga com o absurdo-evidência, como também nos propõe Pêcheux (2009), ao relacionar com a questão do pré-construído. O pré-construído consistiria numa “discrepância pela qual um elemento irrompe no enunciado como se tivesse sido pensado “antes, em outro lugar, independentemente”” (p.142). A evidência sobre homens e mulheres serem homens e mulheres esbarram no seu par estranheza-absurdo quando se deparam com alteridades transgêneras. As determinações “homens nascidos homens”; “mulheres nascidas mulheres”; “homens e mulheres verdadeirxs” e “homens e mulheres biológicxs” mostram bem onde a familiaridade-evidência se choca com o absurdo-estranheza. Em todo caso, o que subjaz a todas essas formulações é o caráter de “absurdo” que uma possível alteridade que viria a se estabelecer entre pessoas cis e trans*, o que nos remete a “evidência” ideológica que alguns homens e mulheres são mais verdadeirxs/biológicxs/nascidxs do que outros.

A cisgeneridade funciona como uma lei em que a identidade do sujeito é simbolizada e determinada em uma cadeia de significantes. Com isso não quero dizer que o significante cisgênero tem que estar necessariamente ocupando seu lugar na cadeia pra que faça sentido. Aliás, ele é muito “produtivo” justamente quando se recalca e produz sentidos em sua ausência necessária. As determinações como “homens e mulheres biológicxs”; “homens e mulheres nascidxs homens e mulheres”; “homens e mulheres verdadeirxs” são formas como o significante cisgênero é irrompido na sua presença pela ausência nas formas de designar “homens” e “mulheres”.

O sujeito cisgênero pensa que domina seu discurso por meio destas designações que busca a completude do mesmo, mas trata-se novamente de uma ilusão: se o sujeito cisgênero é biológico, em que medida o sujeito transgênero não seria? Se o sujeito cisgênero é verdadeiro e nascido como tal, em que medida o sujeito transgênero também não seria? Aqui a língua é impiedosa para o sujeito cisgênero: o equívoco insiste em aparecer, desestruturando o sujeito uno novamente. Para isso as pessoas trans* tomam seu papel, aliando o simbólico com o político: afirmamos que somos também pessoas biológicas (existimos no real), nascidas enquanto tal (o desígnio de gênero no nascimento não é transparente) e tão verdadeiras (ou falsas) quanto às pessoas cisgêneras. Questionamos novamente o mundo semanticamente normal cisgênero (que a cada insistência no equívoco se mostra cada vez menos “normal”, acrescentaria, e mais estranho a si mesmo).

Se entendemos que a ideologia interpela os indivíduos em (desde já) sujeitos, entendemos que o gênero interpela (os desde já) homens em Homens e mulheres em Mulheres pelo norte da cisgeneridade compulsória. Mas esta interpelação não se dá sob a forma da perfeição, é certo que existem falhas, e isso se observa na hiância entre os homens e mulheres entre letras minúsculas e maiúsculas, ou seja, ao ser interpelado pela forma/ilusão da autonomia do gênero, os homens e mulheres irão manifestar certa estranheza-familiaridade com o próprio gênero. Aqui a metáfora com a “letra maiúscula” para entender a interpelação do sujeito não precisa de maiores explicações: todo mundo sabe o que é “um homem com H maiúsculo”. É dele (ou deste imaginário sobre o homem) que estamos falando, assim como o seu correspondente imaginário do sujeito feminino. O sujeito tende a almejar o Sujeito em um efeito de total encobrimento e univocidade, mas há uma falta neste processo, uma falha dada ao grande Outro que lhe é constitutivo e que ameaça a sua própria coerência.

É nesta hiância entre o sujeito e o Sujeito do (cis)gênero que o gênero como norma cisgênera e heterossexual pode ser contestado (e nomeado). É no entremeio desta falta constitutiva que emerge a cisgeneridade em sua faceta mais opaca: como um significante, como a própria forma de nomeação do hegemônico. O processo de nomeação do hegemônico passa a ser o próprio processo do desvelamento da hegemonia. Aqui talvez podemos observar a ligação material paradoxal entre ideologia e inconsciente: se a cadeia que simboliza o gênero é inconsciente, é certo que a irrupção da cisgeneridade no discurso se dá através da passagem dos sentidos que estão inconscientes e emergem sob determinada forma na pré-consciência ou consciência. É juntamente nesta emergência de significações que vislumbramos o político. Com isso proponho devolver a opacidade aos nossos próprios corpos, corpos esses tão generificados pela ideologia.

Isso diz respeito diretamente a uma “inversão” que estava pensando ultimamente. Não iremos mais entender os motivos biopsicossociais das subversões ou disforias de gênero. Isso pois, nesta proposta de análise, proponho uma “teoria não subjetivista da transgeneridade”. Não vai ser por meio do biologismo, do psicologismo ou do sociologismo que iremos entender as identidades trans*, pois não existe nenhum motivo biológico, psicológico ou social por si só (ou todos inter-relacionados) que poderiam definir e determinar a transgeneridade. O que de fato não existe é motivo para que a cisgeneridade compulsória não seja questionada, a partir do momento que compreendemos que a cisgeneridade funciona como forma de interpelação ideológica (pela falha). Isso significa, por fim, problematizar ou questionar os entendimentos sobre as identidades trans* que são feitos (em especial) pelos discursos da psiquiatria/psicologia e do feminismo radical. Ou seja: transgeneridade não é, em última instância, da ordem do empírico-biológico, não é determinada por razões psicológicas/psiquiátricas (a utilização do termo “autoginecofilia” exemplifica muito bem o furo destas perspectivas psicologistas) ou sociológicas. A(s) transgeneridade(s) é sim um vetor material que desestabiliza as formas de identificações pela cisgeneridade compulsória, ou seja, são múltiplas formas de resistências.

Referência

PÊCHEUX, Michel. Semântica e Discurso. Uma crítica à afirmação do óbvio. tradução: Eni Orlandi et al. – 4a edição – Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2009.

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Guest Post sobre a Teoria do “Descompensamento para Iniciantes” e avançadxs também

Abrindo o mês de agosto, temos um guest post de Eduarda Alfena. Sempre debatemos como o sistema binário-cissexista nos exclui de uma vida legítima (e legitimada). Exclusão de todas as formas: as simbólicas, as reais… Exclusões sobre as nossas formas de existências. Para o cissexismo, nunca estaremos “prontxs”. Sempre haverá um empecilho para a transição, seja na infância, na adolescência, na vida adulta, na velhice… Afinal de contas, o cistema sempre irá buscar formas de silenciamento, de cooptação para a cisgeneridade obrigatória. Me lembro de uma metáfora (já não me lembro quem a fez) extremamente pertinente sobre como é abusivo os saberes-poderes médicos em torno da emissão do laudo: para estes médicos nos “laudarem” como transexuais “verdadeiros” é necessário que nós pessoas trans* desejemos cometer o suicídio com um belo sorriso no rosto. Ou também – propondo outra metáfora – os saberes-práticas médicas constroem uma “Donzela de Ferro”. A Donzela de Ferro, como aponta Naomi Wolf em “O Mito da Beleza”, era um instrumento de tortura medieval em uma espécie de caixão adornado com os membros e o rosto de uma jovem bela e sorridente, em que a vítima era aprisionada até uma morte angustiante, seja por inanição ou decorrência das lesões provocadas pelos espigões de ferro encravados na parte interna do caixão. Assim, o laudo médico-psicológico sem dúvidas tem um “que” de Donzela de Ferro: somos “recompensadas” pelo laudo na exata medida em que temos que nos adequar aos exatos centímetros do nosso próprio caixão – ou diagnóstico.

Ou seja: exigem-nos o impossível. O texto da Eduarda nos mostra muito bem como esse mecanismo operador de “impossibilidades” funciona. E isso fica ainda mais evidente quando observamos recortes de classe, raça, de natureza capacitista, etc. Eu mesma, Bia, no topo dos meus inúmeros privilégios fui gentilmente escorraçada destes (poucos) centros de atendimento para pessoas trans* através da cínica (não) comunicação cisgênera. Afinal de contas: “O que é tratamento? Isso não é tratamento!”, me interpelava uma médica. Vamos ficar aqui com as reflexões da Eduarda sobre suas vivências (e abusos!) em torno das inúmeras falhas dos serviços públicos. Falhas sim, porque sabemos como são as condições do serviço público de saúde neste país, mas também abusos de natureza transfóbica.

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Autismo-fita

Símbolo do autismo

Olá. Vejo muitas Teorias sendo discutidas por aqui, e gostaria de comentar sobre essa, que vivi na Pele. Sempre é bom observar que o Movimento Transfeminista é sempre um Local de inúmeras Discussões, o que enriquece qualquer Debate.

Certa vez, estava em Conflitos familiares e a Bia me passou um Texto falando sobre Desvirtuamento para iniciantes.  Isso me fez perceber o quanto as Pessoas Cissexistas criam Argumentos muito interessantes, que (quase sempre) conseguem jogar outras Pessoas Cis cada vez mais contra Pessoas Trans*.

Eu sou Trans*, logo, acabei indo a um Centro de ‘’Atendimento’’ para Pessoas Trans*. No início, era extremamente submissa às Vontades do Médico Coordenador da Equipe e do Ambulatório. Um Dia, cansei, e comecei aos poucos a querer um pouco mais de Poder de Decisão. Isso foi mais ou menos na Época em que eu conheci o Movimento Transfeminista, principalmente através da Bia.

De certa forma, a Bia foi me dando Força para que fosse ouvida. O que mudou os Rumos das coisas lá no Ambulatório.

Para poder tentar resolver meu Processo, fiz inúmeros Pedidos para esse Médico (que chamarei agora de chefe) fizesse meu Laudo. Como sou Autista, mesmo num Grau leve, tenho grandes riscos de receber uma Curatela (Interdição Judicial, e consequente perda dos Direitos Civis). Foram Semanas de Brigas, até que minha Mãe ligou pra ele, e me disse ‘’ele PROMETEU fazer seu Laudo’’. Havia sido combinado que, mesmo antes deu operar, ele faria Laudo pedindo Processo de Ratificação do Prenome, e Alteração do Gênero nos Registros Civis.

Ele deu o Prazo (final de Maio). Como nossa Relação não anda bem, ele nomeou um Residente para me atender. Chegado o Prazo de entrega, o chefe não fez o meu Laudo, nem me deu retorno. Passadas 2 Semanas do Prazo, nada ainda. Dada 3 Semanas, nada. Me irritei com a tamanha falta de Respeito dele, e fiz uma Queixa na OUVIDORIA do Hospital. O engraçado é que dei de cara com ele depois disso. Disse-me apenas ‘’veja com o Residente. Ele quem te atende agora. Te Dará o Laudo do jeitinho que combinei com a sua Mãe’’.

Chego no Residente, isso já um Mês depois do Prazo inicial, o que eu escuto? ‘’Não fui informado de nada. O Laudo só pode ser feito, para Ratificação de Prenome. Gênero, só depois da Cirurgia. Te darei o Laudo no FINAL de JULHO’’ (2 Meses depois de eu ter pedido).

Eu saí do Serviço. Minha Paciência não resistiu. O que acontece sempre, é que eu ‘’melhoro’’, e na hora de pedir o Laudo o ‘’Chefe’’ me irrita profundamente, aí eu fico ‘’descompensada’’. Qual Médico pode dar um Laudo para Pessoas ‘’descompensadas’’? Nenhum.

Vejo que por muito Tempo fui Vítima dessa Arma. Sempre que estava mais animada, mais confiante, bum. Recebia o Tiro da Irritação que ele usa. Perdia muito a Paciência, e, estava descompensada. No caso, ele sabe fazer isso em nível ‘’Mestre Ninja’’. Vejo o quanto é fácil, irritar uma Pessoa Trans*, em situação vulnerável, e depois jogar isso contra nós mesmxs.

Mas não vejo que somente xs Médicxs desses Centros fazem isso. Por exemplo, uma Pessoa Trans* Disfórica tem Danos Emocionais por conta dessa Disforia, logo, ouvimos que estamos muito mal, e não podemos operar por conta disso. “É perigoso operar uma Pessoa deprimida”. Se ficamos ansiosxs esperando uma Resposta que nunca vem, estamos ansiosxs demais, logo, isso é perigoso. Uma Pessoa Trans* que critica uma Ordem Médica (algo como um Decreto Absolutista), estamos revoltadxs demais, logo, não estamos bem. E percebo o quanto outras Pessoas Cis dizem isso, o Tempo todo. ‘’Você só pensa nessa Cirurgia. E só fala nisso, vá viver sua vida e esqueça desse negócio de disforia’’. Nós jamais estaremos prontxs, pq sempre que estivermos, haverá alguém pra puxar o Tapete.

Há Pessoas que realmente querem me ajudar. Acho que esse ‘’Descompensamento’’ precisa ser urgentemente discutido. Não dá para outras Pessoas Trans* continuarem sendo atropeladas por ele. O que resolve Disforia é combate-la. Tenho Disforia com meu Corpo? Me Hormonize. Tenho Disforia Genital? Me opere. Não adianta ficar jogando pra dentro do Tapete.

Espero ter ajudo um pouco. Agradeço a Bia pelo Espaço que ela me deu.

Muito obrigada

Eduarda Johanna Alfena.

Acréscimo da autora:

Para vocês verem como esse Médico é Mestre Ninja na Arte de descompensar, durante as duas ou três Semanas que fiquei sem Resposta dele, tive Pesadelos quase todas as Noites, gripei, ainda perdi um Kilo.

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O feminismo radical e o barão de Münchhausen

Os relatos acerca do barão de Münchhausen tratam sobre “histórias fantásticas e bastante exageradas, propagadas sobretudo na literatura juvenil” segundo a Wikipédia. A história que irá nos interessar aqui (e que também interessou Michel Pêcheux) se trata sobre a fuga do barão de um pântano, na qual, para não se afundar, ele consegue tirar si próprio do poço puxando seus próprios cabelos. Pêcheux viu nesta história uma metáfora para se pensar certos efeitos ideológicos, o efeito Münchhausen. Trata-se do efeito de ilusão subjetiva a partir do assujeitamento ideológico: ao mesmo tempo em que o sujeito é efeito deste assujeitamento, o sujeito se esquece (trata-se de um esquecimento necessário) deste processo. Agora, o que o efeito Münchhausen tem a ver com o feminismo radical?

Proponho pensar aqui neste texto como o discurso feminista radical acerca da univocidade dos sentidos sobre mulheres se articula como forma de um efeito ideológico que alia ora biologicismo e ora sociologismo no recobrimento das contradições. Afinal de contas, o que seria a “abolição de gênero” se não o próprio efeito ideológico de puxar-se pelos próprios cabelos e se ver livre da ideologia (aqui, do gênero)? Se a revolução culminaria na “abolição de gênero” qual a (não) performance de gênero seria a revolucionária? Quais formas de subjetivação do (não) gênero seriam (mais ou menos) “corretas”? Afinal de contas, quem reproduz os tão temidos “estereótipos de gênero”?

barão 3

Antes de tudo, me reservo a falar sobre o termo cisgênero. Sem dúvidas, este termo está sempre lá quando falamos destas “polêmicas feministas”. Trata-se de entender que o termo significa diferentemente em diferentes formações discursivas (ou seja, como o termo funciona diferentemente em espaços transfeministas e feministas radicais). Feministas radicais alegam que designar mulheres através da determinação “mulher cisgênera” seria uma forma de desarticular a luta feminista. Tudo isso porque “cisgênero”, ao nomear o hegemônico, e apontar que dentre o grupo de “mulheres” algumas possuem privilégios cisgêneros, cindiria um grupo que deveria ser unívoco. E aqui “a classe unívoca de mulheres” é pré-construído para que a emancipação das mulheres e a luta feminista seja possível.

Primeiro, trata-se de observar que o termo cisgênero, nesta formação discursiva feminista radical, através de um deslizamento metonímico que toma “privilégio cisgênero” para “privilégio absoluto”, estabelecendo redes parafrásticas e metafóricas entre “privilégio cisgênero” e “privilégio masculino” que por sua vez desliza para um simulacro sobre “privilégio feminino” que supostamente as “transativistas” estariam apontando. “Privilégio feminino” definitivamente soa como uma blasfêmia para todxs nós que estamos inseridos no campo do feminismo. É através destes deslizamentos metonímicos e metafóricos que o rechaço ao termo cisgênero se torna possível. Contudo, vale ressaltar que este “privilégio feminino” é tão somente o simulacro que a formação discursiva feminista radical faz do discurso transfeminista através de suas próprias restrições semânticas.

Na formação discursiva transfeminista não existem estes mesmos deslizamentos metonímicos, tampouco o pré-construído sobre a necessidade de unicidade do grupo de mulheres e sua articulação política. Aliás, trata-se justamente do contrário: o feminismo só passa a se tornar possível quando simbolizamos o real pela “diferença”, seja neste vetor intra-gênero como nos vetores de raça e classe, dentre outros possíveis. Aqui “mulheres cisgêneras” não são privilegiadas por serem “mulheres”, mas tão somente por serem “cisgêneras”. E são cisgêneras na exata medida em que não são transgêneras. A cisgeneridade não é, aqui, absoluta e não recobre a identidade de “mulher” por inteiro, justamente pelos efeitos de sentido sobre “mulher”, nesta formação discursiva, não serem unívocos. Finalmente aqui me permito, portanto, uma tautologia: privilégio cisgênero trata-se efetivamente de privilégio cisgênero. Neste processo estou tentando conter, sem dúvida, a polissemia que o termo cisgênero permite e orientar para os sentidos que julgo pertinente politicamente.

Com o termo cisgênero não busco uma ligação ontológica entre um significante e um ser no mundo; o que eu busco é uma relação entre significantes na cadeia simbólica. Quem pensa que a “utilidade” (ou melhor, “perigo”) deste termo se resume a rotular pessoas cisgêneras no mundo está de fato perdendo muita coisa. Tenho que reconhecer que a relação entre significantes está sempre passível de deslocamento (muito diferente de uma concepção referencialista da linguagem na qual a relação entre palavra-mundo é tomada na sua relação de verdade). Ou seja: eu não posso prever todos os sentidos que o termo estabelece na história, tampouco advogar para um uso correto e definitivo sobre a designação do termo cisgênero tomando uma concepção referencialista (a qual definitivamente me distancio).

O que eu posso fazer é apontar certos efeitos de sentidos e suas relações com o político. Ou seja, o que procuro são justamente os efeitos políticos que o termo propicia, mas não meramente enquanto efeitos de construção de referência.  O que busco no transfeminismo é, além de devolver a opacidade do texto ax leitorx, devolver a opacidade dos nossos próprios corpos. Assim passamos a estabelecer outras relações possíveis entre corpo-linguagem. De fato, o termo cisgênero estabelece uma construção referencial, mas isso não “esgota” o que estou propondo. Estou falando sobre como simbolizamos nossos corpos e identidades, resignificando-os. Isso se dá na medida em que a cadeia em que o termo cisgênero se encontra lidar intimamente com a constituição dos sentidos de como somos interpelados ideologicamente em nosso sexo/gênero na forma-sujeito histórica atual. Seja na sua presença mostrada, seja na sua ausência necessária (a presença pela ausência), os efeitos de sentidos desta cadeia significante permitem ora a transparência, ora a opacidade.

Vemos muitas pessoas cis (não apenas feministas radicais) se contra-identificarem, negando a cisgeneridade. Neste processo o discurso dessas pessoas é “não sou cisgênero”. Trata-se de um sintoma que desvela certas “causas” subjacentes. Nesta contra-identificação paradoxal (que podemos dizer que beira o delírio, como já propus aqui) remete tanto a uma fossilização do significante (o termo cisgênero remeteria a algo no mundo, e este algo seria inominável, resistente a qualquer simbolização) como também à recusa à alteridade. Neste discurso anti-termo cis, a cisgeneridade não é apenas um rótulo, mas também uma ofensa. Afinal, o que estaria “por trás” dessa recusa? Ou melhor, o que ela significa, em sua materialidade? Quais foram os processos metonímicos (inconsciente) que levaram a nomeação da cisgeneridade para o funcionamento de uma agressão? Esse momento nos parece mostrar a ligação paradoxal e material entre ideologia e inconsciente.

O primeiro efeito de sentido que emerge desta discursividade “anti-cis” é de que seria “inútil criar novas caixinhas” e que isto “reforçaria o binarismo”. Oras, trata-se aqui da materialização não apenas do sujeito intencional-pragmático como do sujeito cisgênero enquanto evidência. Este sujeito, afetado pelo idealismo, acredita ser possível não apenas sair da ordem significante, mas da própria ideologia e do inconsciente. Nomear a cisgeneridade não é “criar um termo novo”, trata-se da irrupção do não-sentido para o sentido. Ou seja, a cisgeneridade já funciona lá, seja ocupando o espaço do significante materialmente, seja na sua presença pela ausência. A forma-sujeito cisgênera não precisa “criar um termo” pra fazer sentido; ela justamente o faz na medida em que o termo se recalca, produz sentidos tanto no espaço em que ocupa quanto no espaço em que se faz ausente. O mais engraçado deste discurso é que as pessoas esquecem que é impossível de se livrar da língua (e também de alíngua/lalangue, diria) no exato momento em que se “incomodam” com o termo cisgênero. Mas enquanto isso, outros binômios tão opacos quanto o binômio cis/trans como homem/mulher; hetero/homo; etc. passam completamente despercebidos como sentidos em evidências, como algo já lá intocável. Enquanto pessoas cis podem ter o privilégio de reivindicarem a transparência do seus próprios gêneros, nós, pessoas trans*, somos rotuladas do pé à cabeça como patologias do gênero; precisamos ser rotuladas (como na materialidade do laudo psi) para (quem sabe) acessarmos direitos humanos fundamentais.

O que fundamentalmente diferencia o feminismo radical das outras correntes (em especial, aqui, a transfeminista e as demais correntes intersecionais) é a forma como cada corrente do feminismo lida com a heterogeneidade discursiva. Heterogeneidade discursiva (como nos propõe Authier-Revuz) é a relação que um discurso tem com o que é, ao mesmo tempo, exterior (Outro) e constitutivo do Mesmo (discurso). O feminismo radical trata a heterogeneidade como excrescência que precisa ser negada em prol de uma unicidade (um retorno e reafirmação do Mesmo), enquanto que o feminismo intersecional trata a heterogeneidade como constitutiva e necessária (direciona a uma deriva constitutiva e polissêmica em relação ao Outro).

O que proponho pensar aqui é sobre a construção de um transfeminismo materialista: a tão dita “intersecionalidade” é o lugar material no qual a heterogeneidade (entendida em sua forma contraditória) emerge discursivamente e é simbolizada, textualizada politicamente. A prática feminista é, portanto, a forma como textualizamos politicamente a heterogeneidade das intersecções que cindem contraditoriamente o sexo e o gênero (nas categorias intragênero, de classe, raça, regionalidade, etc.). O feminismo radical, por sua vez, irá apagar o caráter materialmente contraditório do sexo/gênero por meio do idealismo, a partir do desdobramento entre biologicismo e sociologismo. Vamos então observar a cadeia parafrástica presente no discurso feminista radical que parte de evidências que vão do empírico-biológico ao abstrato-sociológico:

1) A biologia diz que pessoas nascem com pênis ou vagina. (Trata-se de uma evidência empírica).

2)Pessoas com pênis são homens e pessoas com vagina são mulheres. (Trata-se de uma evidência sociológica-individual).

3)O gênero é uma estrutura social hierárquica que aprisiona as pessoas em relações rígidas de poder. As mulheres são oprimidas pelos homens opressores pela via do patriarcado. O patriarcado é a forma de opressão primordial, na medida em que engloba e se desdobra em todas as outras formas de opressão. A libertação das mulheres pressupõe a abolição do gênero. (Trata-se de uma evidência sociológica-determinista tangenciando o abstrato).

barão 2Portanto, a partir do momento em que os pressupostos (ou melhor, os pré-construídos) apresentados nos 3 itens são contestados (mesmo que parcialmente problematizados) é que as “polêmicas feministas” surgem. O que propomos no transfeminismo é problematizar justamente estas 3 evidências que são tomadas pelo feminismo radical como a ordem natural das coisas.

Em primeiro lugar, a forma como a evidência empírica biológica é atravessada por este discurso biologicizante e sociológico entre um dado da natureza (o sexo macho e fêmea) que é então transposto para o dado do indivíduo (a identidade de homem e mulher) se dá através de um efeito ideológico. Não se tratam de dados da natureza ou da sociologia por si só. Neste discurso feminista radical, em um nível empírico-biológico, há o apagamento das corporeidades intersexuais e neste segundo nível intermediário (de uma passagem metafórica entre “sexo” e “gênero”) se dá o apagamento da interpelação ideológica do indivíduo biopsicossocial em sujeito do gênero.

Já propus diversas vezes aqui neste blog pensar sobre formas de assujeitamento do gênero através da forma-sujeito cisgênera, na medida em que a cisgeneridade é balizadora dos sentidos sobre homens e mulheres; homossexuais e heterossexuais, etc. A cisgeneridade interpela o sujeito em seu desígnio de sexo. Ela fornece as evidências já dadas sobre a realidade e o imaginário que temos de nossa identidade e nosso sexo. Em análise de discurso, trata-se do efeito-sujeito, da ilusão/esquecimento necessários do sujeito sobre o seu próprio dizer que produz a evidência de que sejamos donxs de nossas “próprias” palavras.

Aqui, além das palavras, a forma-sujeito cisgênero acredita que é dona do seu próprio corpo, estabelecendo uma relação de transparência entre “sexo-gênero”. Em contrapartida, na mesma medida em que há a ilusão de um pertencimento/transparência do corpo cisgênero, há o efeito de um não-pertencimento/opacidade em relação aos corpos que desviam da cisgeneridade compulsória (transgêneros). Aqui, articula-se o pré-construído de que pessoas trans* precisam ser tuteladas através do aval-aprovação de pessoas cisgêneras (seja o olhar/julgamento clínico do psiquiatra, psicanalista, psicólogo, assistente social, testemunhas frente ao juiz, etc.). Assim, as performances de gênero de pessoas trans* são interpretadas em sua opacidade, enquanto que as de pessoas cis, são naturalizadas por um efeito de transparência. Quando vemos o discurso feminista radical acusar pessoas trans* de estarem “reforçando os estereótipos de gênero” trata-se deste funcionamento ideológico de recobrimento da cisgeneridade como algo natural.

Portanto, quando dizemos acerca da existência de “mulheres com pênis”, “homens com vagina”, e até mesmo determinações que soam menos “controversas” (!) como “mulheres negras e brancas” e “mulheres trabalhadoras e burguesas” isto irá ser interpretado como uma verdadeira blasfêmia pelo feminismo radical; isso porque irá quebrar a cadeia simbólica que sustenta estas redes parafrásticas do discurso feminismo radical entre os 3 “níveis”. Já o binômio referente à orientação sexual potencialmente polêmico sobre “mulheres heterossexuais e homossexuais” é encoberto pelos efeitos de sentidos sobre a “lesbiandade política”.

Por fim, no último nível da cadeia parafrástica, a relação polêmica que este discurso vai estabelecer com outros discursos não se resume aos discursos transfeministas, mas sobretudo aos marxistas, do movimento negro, de outras correntes feministas e em especial de correntes feministas marxistas, negras e intersecionais. Todas essas discursividades antagônicas ao feminismo radical irão problematizar/contestar o caráter universal que é dado pelo feminismo radical à noção de patriarcado. Nestas outras discursividades, transfobia, opressão de classe e racismo não são completamente encobertos neste guarda-chuva conceitual do patriarcado. Aliás, o pretenso efeito de recobrimento de outras opressões por esta noção de patriarcado trata-se antes de tudo do próprio silenciamento dos outros discursos (sejam marxistas, dos movimentos negros, transfeministas, etc) que estão lá atravessados no discurso feminista radical.

Por mais incrível que pareça, o feminismo radical por vezes se reivindica materialista (estabelecendo inclusive algumas alianças paradoxais com certo discurso marxista). No entanto, esta pretensa determinação “materialista” se distancia completamente do materialismo histórico e dialético: o que existe, como demostrei, são apropriações do idealismo sob a forma do empirismo e sociologismo, nas quais a categoria da contradição se encontra apagada/encoberta. Este recobrimento ideológico se materializa discursivamente nas formas como “mulheres” é designada de forma (pretensamente) unívoca.

Este desdobramento ideológico se atrela como forma de apagamento do sujeito transgênero, em especial, das mulheres transgêneras, e dos novos sentidos que estão sendo clamados por nós na história. Apagamento, portanto, da materialidade contraditória e paradoxal do gênero. Silenciamento do político: justamente aí que se liga materialmente o ponto-cego da teoria feminista radical sobre a (in)compreensão da opressão de natureza transfóbica, suas especificidades. Tanto na versão explicitamente transfóbica quanto em uma versão mais “moderada” e “sensata” destas discursividades (em que se admite que mulheres trans* seriam oprimidas pelo patriarcado de forma mais ou menos generalizante) o que está em jogo é o silenciamento. Trata-se de um encobrimento ideológico que visa dar uma resposta reacionária frente ao movimento de mulheres transgêneras que começa a se insurgir, a disputar sentidos.

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