O feminismo radical e o barão de Münchhausen

Os relatos acerca do barão de Münchhausen tratam sobre “histórias fantásticas e bastante exageradas, propagadas sobretudo na literatura juvenil” segundo a Wikipédia. A história que irá nos interessar aqui (e que também interessou Michel Pêcheux) se trata sobre a fuga do barão de um pântano, na qual, para não se afundar, ele consegue tirar si próprio do poço puxando seus próprios cabelos. Pêcheux viu nesta história uma metáfora para se pensar certos efeitos ideológicos, o efeito Münchhausen. Trata-se do efeito de ilusão subjetiva a partir do assujeitamento ideológico: ao mesmo tempo em que o sujeito é efeito deste assujeitamento, o sujeito se esquece (trata-se de um esquecimento necessário) deste processo. Agora, o que o efeito Münchhausen tem a ver com o feminismo radical?

Proponho pensar aqui neste texto como o discurso feminista radical acerca da univocidade dos sentidos sobre mulheres se articula como forma de um efeito ideológico que alia ora biologicismo e ora sociologismo no recobrimento das contradições. Afinal de contas, o que seria a “abolição de gênero” se não o próprio efeito ideológico de puxar-se pelos próprios cabelos e se ver livre da ideologia (aqui, do gênero)? Se a revolução culminaria na “abolição de gênero” qual a (não) performance de gênero seria a revolucionária? Quais formas de subjetivação do (não) gênero seriam (mais ou menos) “corretas”? Afinal de contas, quem reproduz os tão temidos “estereótipos de gênero”?

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Antes de tudo, me reservo a falar sobre o termo cisgênero. Sem dúvidas, este termo está sempre lá quando falamos destas “polêmicas feministas”. Trata-se de entender que o termo significa diferentemente em diferentes formações discursivas (ou seja, como o termo funciona diferentemente em espaços transfeministas e feministas radicais). Feministas radicais alegam que designar mulheres através da determinação “mulher cisgênera” seria uma forma de desarticular a luta feminista. Tudo isso porque “cisgênero”, ao nomear o hegemônico, e apontar que dentre o grupo de “mulheres” algumas possuem privilégios cisgêneros, cindiria um grupo que deveria ser unívoco. E aqui “a classe unívoca de mulheres” é pré-construído para que a emancipação das mulheres e a luta feminista seja possível.

Primeiro, trata-se de observar que o termo cisgênero, nesta formação discursiva feminista radical, através de um deslizamento metonímico que toma “privilégio cisgênero” para “privilégio absoluto”, estabelecendo redes parafrásticas e metafóricas entre “privilégio cisgênero” e “privilégio masculino” que por sua vez desliza para um simulacro sobre “privilégio feminino” que supostamente as “transativistas” estariam apontando. “Privilégio feminino” definitivamente soa como uma blasfêmia para todxs nós que estamos inseridos no campo do feminismo. É através destes deslizamentos metonímicos e metafóricos que o rechaço ao termo cisgênero se torna possível. Contudo, vale ressaltar que este “privilégio feminino” é tão somente o simulacro que a formação discursiva feminista radical faz do discurso transfeminista através de suas próprias restrições semânticas.

Na formação discursiva transfeminista não existem estes mesmos deslizamentos metonímicos, tampouco o pré-construído sobre a necessidade de unicidade do grupo de mulheres e sua articulação política. Aliás, trata-se justamente do contrário: o feminismo só passa a se tornar possível quando simbolizamos o real pela “diferença”, seja neste vetor intra-gênero como nos vetores de raça e classe, dentre outros possíveis. Aqui “mulheres cisgêneras” não são privilegiadas por serem “mulheres”, mas tão somente por serem “cisgêneras”. E são cisgêneras na exata medida em que não são transgêneras. A cisgeneridade não é, aqui, absoluta e não recobre a identidade de “mulher” por inteiro, justamente pelos efeitos de sentido sobre “mulher”, nesta formação discursiva, não serem unívocos. Finalmente aqui me permito, portanto, uma tautologia: privilégio cisgênero trata-se efetivamente de privilégio cisgênero. Neste processo estou tentando conter, sem dúvida, a polissemia que o termo cisgênero permite e orientar para os sentidos que julgo pertinente politicamente.

Com o termo cisgênero não busco uma ligação ontológica entre um significante e um ser no mundo; o que eu busco é uma relação entre significantes na cadeia simbólica. Quem pensa que a “utilidade” (ou melhor, “perigo”) deste termo se resume a rotular pessoas cisgêneras no mundo está de fato perdendo muita coisa. Tenho que reconhecer que a relação entre significantes está sempre passível de deslocamento (muito diferente de uma concepção referencialista da linguagem na qual a relação entre palavra-mundo é tomada na sua relação de verdade). Ou seja: eu não posso prever todos os sentidos que o termo estabelece na história, tampouco advogar para um uso correto e definitivo sobre a designação do termo cisgênero tomando uma concepção referencialista (a qual definitivamente me distancio).

O que eu posso fazer é apontar certos efeitos de sentidos e suas relações com o político. Ou seja, o que procuro são justamente os efeitos políticos que o termo propicia, mas não meramente enquanto efeitos de construção de referência.  O que busco no transfeminismo é, além de devolver a opacidade do texto ax leitorx, devolver a opacidade dos nossos próprios corpos. Assim passamos a estabelecer outras relações possíveis entre corpo-linguagem. De fato, o termo cisgênero estabelece uma construção referencial, mas isso não “esgota” o que estou propondo. Estou falando sobre como simbolizamos nossos corpos e identidades, resignificando-os. Isso se dá na medida em que a cadeia em que o termo cisgênero se encontra lidar intimamente com a constituição dos sentidos de como somos interpelados ideologicamente em nosso sexo/gênero na forma-sujeito histórica atual. Seja na sua presença mostrada, seja na sua ausência necessária (a presença pela ausência), os efeitos de sentidos desta cadeia significante permitem ora a transparência, ora a opacidade.

Vemos muitas pessoas cis (não apenas feministas radicais) se contra-identificarem, negando a cisgeneridade. Neste processo o discurso dessas pessoas é “não sou cisgênero”. Trata-se de um sintoma que desvela certas “causas” subjacentes. Nesta contra-identificação paradoxal (que podemos dizer que beira o delírio, como já propus aqui) remete tanto a uma fossilização do significante (o termo cisgênero remeteria a algo no mundo, e este algo seria inominável, resistente a qualquer simbolização) como também à recusa à alteridade. Neste discurso anti-termo cis, a cisgeneridade não é apenas um rótulo, mas também uma ofensa. Afinal, o que estaria “por trás” dessa recusa? Ou melhor, o que ela significa, em sua materialidade? Quais foram os processos metonímicos (inconsciente) que levaram a nomeação da cisgeneridade para o funcionamento de uma agressão? Esse momento nos parece mostrar a ligação paradoxal e material entre ideologia e inconsciente.

O primeiro efeito de sentido que emerge desta discursividade “anti-cis” é de que seria “inútil criar novas caixinhas” e que isto “reforçaria o binarismo”. Oras, trata-se aqui da materialização não apenas do sujeito intencional-pragmático como do sujeito cisgênero enquanto evidência. Este sujeito, afetado pelo idealismo, acredita ser possível não apenas sair da ordem significante, mas da própria ideologia e do inconsciente. Nomear a cisgeneridade não é “criar um termo novo”, trata-se da irrupção do não-sentido para o sentido. Ou seja, a cisgeneridade já funciona lá, seja ocupando o espaço do significante materialmente, seja na sua presença pela ausência. A forma-sujeito cisgênera não precisa “criar um termo” pra fazer sentido; ela justamente o faz na medida em que o termo se recalca, produz sentidos tanto no espaço em que ocupa quanto no espaço em que se faz ausente. O mais engraçado deste discurso é que as pessoas esquecem que é impossível de se livrar da língua (e também de alíngua/lalangue, diria) no exato momento em que se “incomodam” com o termo cisgênero. Mas enquanto isso, outros binômios tão opacos quanto o binômio cis/trans como homem/mulher; hetero/homo; etc. passam completamente despercebidos como sentidos em evidências, como algo já lá intocável. Enquanto pessoas cis podem ter o privilégio de reivindicarem a transparência do seus próprios gêneros, nós, pessoas trans*, somos rotuladas do pé à cabeça como patologias do gênero; precisamos ser rotuladas (como na materialidade do laudo psi) para (quem sabe) acessarmos direitos humanos fundamentais.

O que fundamentalmente diferencia o feminismo radical das outras correntes (em especial, aqui, a transfeminista e as demais correntes intersecionais) é a forma como cada corrente do feminismo lida com a heterogeneidade discursiva. Heterogeneidade discursiva (como nos propõe Authier-Revuz) é a relação que um discurso tem com o que é, ao mesmo tempo, exterior (Outro) e constitutivo do Mesmo (discurso). O feminismo radical trata a heterogeneidade como excrescência que precisa ser negada em prol de uma unicidade (um retorno e reafirmação do Mesmo), enquanto que o feminismo intersecional trata a heterogeneidade como constitutiva e necessária (direciona a uma deriva constitutiva e polissêmica em relação ao Outro).

O que proponho pensar aqui é sobre a construção de um transfeminismo materialista: a tão dita “intersecionalidade” é o lugar material no qual a heterogeneidade (entendida em sua forma contraditória) emerge discursivamente e é simbolizada, textualizada politicamente. A prática feminista é, portanto, a forma como textualizamos politicamente a heterogeneidade das intersecções que cindem contraditoriamente o sexo e o gênero (nas categorias intragênero, de classe, raça, regionalidade, etc.). O feminismo radical, por sua vez, irá apagar o caráter materialmente contraditório do sexo/gênero por meio do idealismo, a partir do desdobramento entre biologicismo e sociologismo. Vamos então observar a cadeia parafrástica presente no discurso feminista radical que parte de evidências que vão do empírico-biológico ao abstrato-sociológico:

1) A biologia diz que pessoas nascem com pênis ou vagina. (Trata-se de uma evidência empírica).

2)Pessoas com pênis são homens e pessoas com vagina são mulheres. (Trata-se de uma evidência sociológica-individual).

3)O gênero é uma estrutura social hierárquica que aprisiona as pessoas em relações rígidas de poder. As mulheres são oprimidas pelos homens opressores pela via do patriarcado. O patriarcado é a forma de opressão primordial, na medida em que engloba e se desdobra em todas as outras formas de opressão. A libertação das mulheres pressupõe a abolição do gênero. (Trata-se de uma evidência sociológica-determinista tangenciando o abstrato).

barão 2Portanto, a partir do momento em que os pressupostos (ou melhor, os pré-construídos) apresentados nos 3 itens são contestados (mesmo que parcialmente problematizados) é que as “polêmicas feministas” surgem. O que propomos no transfeminismo é problematizar justamente estas 3 evidências que são tomadas pelo feminismo radical como a ordem natural das coisas.

Em primeiro lugar, a forma como a evidência empírica biológica é atravessada por este discurso biologicizante e sociológico entre um dado da natureza (o sexo macho e fêmea) que é então transposto para o dado do indivíduo (a identidade de homem e mulher) se dá através de um efeito ideológico. Não se tratam de dados da natureza ou da sociologia por si só. Neste discurso feminista radical, em um nível empírico-biológico, há o apagamento das corporeidades intersexuais e neste segundo nível intermediário (de uma passagem metafórica entre “sexo” e “gênero”) se dá o apagamento da interpelação ideológica do indivíduo biopsicossocial em sujeito do gênero.

Já propus diversas vezes aqui neste blog pensar sobre formas de assujeitamento do gênero através da forma-sujeito cisgênera, na medida em que a cisgeneridade é balizadora dos sentidos sobre homens e mulheres; homossexuais e heterossexuais, etc. A cisgeneridade interpela o sujeito em seu desígnio de sexo. Ela fornece as evidências já dadas sobre a realidade e o imaginário que temos de nossa identidade e nosso sexo. Em análise de discurso, trata-se do efeito-sujeito, da ilusão/esquecimento necessários do sujeito sobre o seu próprio dizer que produz a evidência de que sejamos donxs de nossas “próprias” palavras.

Aqui, além das palavras, a forma-sujeito cisgênero acredita que é dona do seu próprio corpo, estabelecendo uma relação de transparência entre “sexo-gênero”. Em contrapartida, na mesma medida em que há a ilusão de um pertencimento/transparência do corpo cisgênero, há o efeito de um não-pertencimento/opacidade em relação aos corpos que desviam da cisgeneridade compulsória (transgêneros). Aqui, articula-se o pré-construído de que pessoas trans* precisam ser tuteladas através do aval-aprovação de pessoas cisgêneras (seja o olhar/julgamento clínico do psiquiatra, psicanalista, psicólogo, assistente social, testemunhas frente ao juiz, etc.). Assim, as performances de gênero de pessoas trans* são interpretadas em sua opacidade, enquanto que as de pessoas cis, são naturalizadas por um efeito de transparência. Quando vemos o discurso feminista radical acusar pessoas trans* de estarem “reforçando os estereótipos de gênero” trata-se deste funcionamento ideológico de recobrimento da cisgeneridade como algo natural.

Portanto, quando dizemos acerca da existência de “mulheres com pênis”, “homens com vagina”, e até mesmo determinações que soam menos “controversas” (!) como “mulheres negras e brancas” e “mulheres trabalhadoras e burguesas” isto irá ser interpretado como uma verdadeira blasfêmia pelo feminismo radical; isso porque irá quebrar a cadeia simbólica que sustenta estas redes parafrásticas do discurso feminismo radical entre os 3 “níveis”. Já o binômio referente à orientação sexual potencialmente polêmico sobre “mulheres heterossexuais e homossexuais” é encoberto pelos efeitos de sentidos sobre o “lesbianismo político”.

Por fim, no último nível da cadeia parafrástica, a relação polêmica que este discurso vai estabelecer com outros discursos não se resume aos discursos transfeministas, mas sobretudo aos marxistas, do movimento negro, de outras correntes feministas e em especial de correntes feministas marxistas, negras e intersecionais. Todas essas discursividades antagônicas ao feminismo radical irão problematizar/contestar o caráter universal que é dado pelo feminismo radical à noção de patriarcado. Nestas outras discursividades, transfobia, opressão de classe e racismo não são completamente encobertos neste guarda-chuva conceitual do patriarcado. Aliás, o pretenso efeito de recobrimento de outras opressões por esta noção de patriarcado trata-se antes de tudo do próprio silenciamento dos outros discursos (sejam marxistas, dos movimentos negros, transfeministas, etc) que estão lá atravessados no discurso feminista radical.

Por mais incrível que pareça, o feminismo radical por vezes se reivindica materialista (estabelecendo inclusive algumas alianças paradoxais com certo discurso marxista). No entanto, esta pretensa determinação “materialista” se distancia completamente do materialismo histórico e dialético: o que existe, como demostrei, são apropriações do idealismo sob a forma do empirismo e sociologismo, nas quais a categoria da contradição se encontra apagada/encoberta. Este recobrimento ideológico se materializa discursivamente nas formas como “mulheres” é designada de forma (pretensamente) unívoca.

Este desdobramento ideológico se atrela como forma de apagamento do sujeito transgênero, em especial, das mulheres transgêneras, e dos novos sentidos que estão sendo clamados por nós na história. Apagamento, portanto, da materialidade contraditória e paradoxal do gênero. Silenciamento do político: justamente aí que se liga materialmente o ponto-cego da teoria feminista radical sobre a (in)compreensão da opressão de natureza transfóbica, suas especificidades. Tanto na versão explicitamente transfóbica quanto em uma versão mais “moderada” e “sensata” destas discursividades (em que se admite que mulheres trans* seriam oprimidas pelo patriarcado de forma mais ou menos generalizante) o que está em jogo é o silenciamento. Trata-se de um encobrimento ideológico que visa dar uma resposta reacionária frente ao movimento de mulheres transgêneras que começa a se insurgir, a disputar sentidos.

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Transgeneridade, psiquiatria e ideologia

Este texto parte de algumas leituras que tenho feito da obra de Michel Pêcheux (e alguns textos de quando o autor usava o pseudônimo de Thomas Herbert) e do meu percurso no transfeminismo. Percursos de leituras, que mobilizaram gestos de interpretação aliando um dispositivo teórico (do discurso) e analítico (transfeminista). Não apenas uma interpretação teórica sobre gênero, mas que também impacta sobre minha própria percepção enquanto sujeito na prática simbólica e política. A análise do discurso fundada por Pêcheux trabalha no espaço contraditório (entremeio) do materialismo histórico, da linguística e da psicanálise.É justamente daí que um objeto próprio a essa disciplina ganha contorno: o discurso. Caminhar neste caminho do entremeio significa dizer que a história, a língua e o inconsciente não são transparentes para o sujeito. É neste espaço de suspensão da interpretação automática que existe um espaço privilegiado na qual podemos lidar com o sentido de uma outra forma; uma forma não transparente, não essencializada.

A análise de discurso permite um duplo movimento: de descrição e interpretação. A descrição é o momento quando deixamos de considerar uma relação necessária entre linguagem e mundo e damos voz para o outro discurso (não-dito) que constituiu o próprio discurso. Caminhamos num espaço do silêncio, como diria Eni Orlandi, determinado pelo interdiscurso. Num segundo momento, da interpretação, é espaço de tomada de posição do analista, uma responsabilidade ética como já disse Pêcheux e inevitável (política). Para mim, isso significa que enquanto analista de discurso, observo as discursividades através de recortes no interdiscurso que julgo pertinente, observando certas regiões do dizer que se tornam mais ou menos regulares (as formações discursivas), os sentidos que ali circulam e a relação destes sentidos com os sujeitos e suas identidades em uma dada condição de produção; como transfeminista, a partir desta análise, ao perceber a “textualização do político” por meio da materialização da ideologia em discurso e ao tomar uma posição enquanto transfeminista, desnaturalizo certas relações de poder. Trata-se, de toda forma, de “devolver a opacidade do texto ao leitor”.

O que isso tem a ver com a transgeneridade e disforia? Bom, primeiro é necessário observar que Pêcheux estava muito interessado na crítica às ciências sociais e à linguística na medida em que estas ciências estavam atravessadas pela ideologia burguesa/idealista. Ele nos mostra o papel da ideologia, já nos textos assinados como Thomas Herbert, e sua relação com as ciências. Pêcheux nos mostra lá mesmo onde tudo parecia a mais ordem natural das coisas, em um mundo semanticamente normal, é que está o recobrimento/apagamento ideológico da política, da história, do sujeito. Estas ciências, portanto, partem de evidências sobre o mundo que são, na verdade, produzidas por um recobrimento ideológico. Evidências sobre a existência de “objetos e pessoas”; “razão e emoção” e “objetivo e subjetivo”. A ideologia se desdobra, portanto, entre o empírico e o abstrato como forma do idealismo se apropriar destas ciências. Pêcheux irá entender então a importância de se pensar em uma teoria materialista do discurso, em que como ele mesmo disse, não irá resolver as contradições, mas irá lidar com elas de outra forma: materialista.

O que significaria, portanto, pensar uma teoria não subjetivista da transgeneridade? Isso significaria pensar a disforia fora dos moldes da atual psiquiatria que vêm aliando empirismo e subjetivismo na apreensão/construção de um objeto de conhecimento: a transgeneridade vista como disforia/patologia do gênero. Portanto, trata-se de entender aqui a forma material e contraditória da transgeneridade, sua relação com a ideologia e o gênero. É indispensável pensar aqui a relação da transgeneridade com a cisgeneridade. Afinal de contas, a cisgeneridade não é o domingo do sexo (parafraseando Pêcheux quando ele diz que a poesia não é o domingo do pensamento). As evidências sobre pessoas trans* serem doentes, necessitarem de avaliação e cuidados de médicos cisgêneros, dentre tantas outras manifestações, não caem do céu. Elas partem de como a forma-sujeito do gênero, constituída (assujeitada) historicamente e individualizada pelo Estado, produz sentidos sobre o sexo/gênero. Esta forma-sujeito é a cisgênera. A cisgeneridade interpela os sujeitos em seu desígnio de sexo, produzindo evidências objetivas e subjetivas sobre o sexo, dando coerências às identidades de homens e mulheres; homossexuais e heterossexuais; macho e fêmea, etc. A transgeneridade existe porque a ideologia (ou gênero/sexo) funciona pela falha. E por existir falha que é possível resistência às normatividades.

A psiquiatria trata as pessoas trans* de forma colonizadora/civilizatória. Pra mim não há dúvidas que, muito ao contrário do que acreditam fazer, médicos psiquiatras não estão lá para “curarem” a disforia. Estão lá (nos espaços institucionais das clínicas) para justamente reproduzi-la de certa forma (mesmo que pela contradição). A psiquiatria parte de um modelo de gênero que conjuga ora o empirismo ora o subjetivismo para produzir evidências sobre os “transtornos de gênero”. Em um mundo semanticamente normal, sabemos o que é ser homem ou mulher. É isto (o que todo mundo sabe sobre homens e mulheres) que estes médicos esperam para a emissão de laudos (mediação para o reconhecimento civil e médico de pessoas trans*). Espera-se, portanto que a fala destas pessoas (a identidade subjetiva) reflita de forma transparente o que estaria ancorado a uma base biológica (empiricismo). Os sujeitos que escapam desta refração transparente entre o concreto e o abstrato são ignoradas, empurradas por debaixo do tapete: são as travestis marginalizadas, prostitutas.

Acontece que o problema aqui é que a (trans)generidade não é nem da ordem do abstrato nem do empírico. É material, portanto, contraditório. Existem aqui múltiplas formas do sujeito lidar com a disforia de gênero. Narrativas não tradicionais sempre escapam. A psiquiatria, ao não conceber a falha do gênero como constitutiva (justamente por não levar em consideração a materialidade) das identidades, acaba por nos agredir. A psiquiatria, ao partir das evidências sobre a forma-sujeito cisgênera pode (tem o privilégio social de) apagar o político, a história e até mesmo o sujeito. Trata-se do típico discurso terapêutico, que acredita que por estar apartado do político, poderia curar (seria através da fabricação do consenso?). Mas o afastamento da contradição tem um preço muito caro para as pessoas trans*. Proponho um não retorno nesta questão: trata-se de compreender, sob o primado do outro sobre o mesmo, como a contradição irrompe em nossos corpos, como assim textualizamos estas relações de poder pelo simbólico.

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Línguas de madeira e vento trans*?

Uma língua de madeira é, como tratam alguns autores da análise do discurso como Michel Pêcheux e Françoise Gadet, uma língua autoritária, na qual os sentidos sobre as palavra são tomadas na sua relação de transparência com o mundo. Se as palavras, a partir desta concepção, referem de forma transparente a relação mundo-linguagem, depreende-se por certo que exista uma forma, em última instância, mais correta e verdadeira de “nomear as coisas”. Em se tratando de sentidos sobre (as “coisas”) “travestis” e “transexuais”, a língua médica/psi é a nossa língua de madeira: estabelece-se quais são os sentidos destes termos por meio da nosologia psiquiátrica (presentes nos manuais como CID e DSM), na qual o (trans)gênero é patologizado. A língua de madeira serve, como definem os mesmos autores, ao mesmo tempo, para “comunicarem e não comunicarem”. Neste caso, a (não) comunicação se dá sob a forma da colonização cisgênera.

O sentido, entendido aqui, não é sempre passível de deslocamento ou falha, trata-se aliás do contrário: do estabelecimento de critérios (que se propõem unívocos ou como a própria tentativa de evitar ao máximo o equívoco) diagnóstico sobre os “transtornos” ou “disforias” de gênero. Todo transtorno deve ser devidamente rotulado, sob a (ilusão da) transparência da linguagem. O corpo disfórico é tido como possuidor de uma verdade biológica escondida, a qual o psiquiatra deve dissecar através de um interrogatório (!) visando o “correto diagnóstico”. Muita tensão aqui: o diagnóstico correto é tido como uma estrita necessidade, já que algum perigo envolvendo o (cis)gênero está iminente: alguma tragédia está prestes a acontecer. Vendem o perigo e cobram a “solução”. Nossos médicos só poderiam estar para nos salvar, não é verdade? Nos salvar (ou seria curar?) do que mesmo?

O discurso do sujeito trans é tido como uma barreira para a prática médica, já que o mesmo poderia estar camuflando a pretensa verdade inscrita no biológico (da disforia). Estaria “simulando”. A razão desta simulação ainda me parece obscura, mas é certo que o sujeito a faz. O bom sujeito trans deve ser um vetor transparente para que a biologia fale a partir dele, sem ambiguidades. Assim, deve-se restituir, a partir da anormalidade trans*, um mundo “semanticamente normal” sobre o gênero e o (cis)gênero. Os “profissionais” e os “especialistas” do gênero necessitam trabalhar neste espaço em que o real do sexo é domesticado. Não se deve, por exemplo, dizer-se enquanto mulher e gostar de cavalos (!). Mas afinal de contas, qual verdade estaria sendo escamoteada?

O psiquiatra ocupa este lugar social: de dizer a verdade sobre nossas identidades, já que somos despossuídas de auto determinação; nosso lugar enquanto enunciadorxs é sempre a da suspeita, do engodo e da “falsidade ideológica”. Eis que diga o juiz! Este só irá levar em consideração nossa identidade (frente ao jurídico) na medida em que somos mediadas (faladas) por psiquiatras/psicólogos/psicanalistas/endócrinos/cirurgiões/assistentes sociais (cisgêneros). A cisgeneridade é um violento filtro social para pessoas trans, não é a toa que o nosso ingresso no “universo cis” é sempre marcado pela marginalidade e pelo percalço.

Voltando para a língua. Fiz esse texto não para pensar somente na língua de madeira dos médicos, mas também como esta língua é atravessada no próprio discurso das pessoas trans* e também para discutir sobre uma suposta língua de vento que tenho visto circular pelo facebook. Esta língua de vento se dá em resposta à língua de madeira médica/trans*, ela se propõe fluída, como uma crítica e uma saída, às ditas “caixinhas” e às políticas identitárias essencializadas sobre travestis e transexuais. É a língua do “transgênero” e dxs “transgentes”. Mas em que medida essa mesma língua de vento acaba por ser ela mesma uma língua de madeira?

Esta nova língua de vento transgênera parece ter pavor de certas formas de subjetivação que seriam “normativas”: as travestilidades e transexualidades. Paradoxalmente, ao negar o discurso médico, ela precisa negar estas formas de subjetivação. Estas identidades “normativas” precisam ser julgadas, foracluídas do discurso. Só assim chegaríamos à “revolução” (seria, quem sabe, a abolição de gênero de que tantas feministas radicais falam?). O “correto” aqui passa a ser transgênero. Cria-se um efeito de ilusão de unidade, a qual todas as pessoas trans* deveriam (frise bem esta palavra) estar incluídas sob o termo guarda-chuva. Em suma: uma língua que se propõe de vento, mas acaba por se tornar tão autoritária quanto a língua de madeira médica. Uma língua de unificação da nação transgênera à la stalinismo.

O que este discurso parece não conceber é que o próprio gênero funciona através das falhas. E estas falhas se dão sobre a forma da contradição. Ao negar a falha constitutiva do gênero este discurso transgênero se torna surdo para as formas de resistência de travestis e transexuais. Desta forma não se percebe os movimentos de deslocamentos (que se dão pela reprodução) de sentidos. A tensão constitutiva entre paráfrase e polissemia: se tangencia o novo pela repetição.

Por mais que de fato exista um inegável atravessamento do discurso médico normativo no discurso do blog “mundo t-girl”, materializado neste glossário sobre a “Diferenciação básica entre Travestis, Mulheres Transexuais e Homens Trans & Andróginos, Cross Dress, Drag Queen, Drag King, Lady-Boys, She-Males” não podemos nos ensurdercer para os deslocamentos que significam enunciar a partir de um espaço muito diferente do médico: a das próprias travestis, neste caso.

Os (sic) “travestis” dos médicos não são as mesmas travestis do blog/grupo “mundo t-girl”. O (sic) “travestismo bivalente ou de duplo papel” do discurso médico não possui o mesmo sentido das “travestis super femininas”. As travestis são significadas (por elas) de outra forma. Aqui elas questionam justamente o mundo semanticamente normal dos médicos psiquiatras: o fato de eu ter “peito e pau” não é uma incongruência. Sou “super feminina” e isso não significa que eu repudie meu órgão genital, por exemplo. Mesmo as “mulheres do terceiro milênio” não são as mesmas “transexuais male-to-female” do discurso médico. As mulheres (transexuais) também (se) designam de forma diferente. Aqui as formas de determinação não deixam mentir: se tratam de deslocamentos de sentidos, sob a forma da contradição.

A meu ver, é muito mais vantajoso observar estas rupturas de sentido que são reais, dar voz aos sentidos que irromperam do não-sentido que circulam já, do que conceber sentidos a priori e calcificados sobre estas sujeitas travestis e transexuais. Nossa interpretação é política, e a forma como nós interpretamos estas formas de (re)existência significam, trata-se de uma responsabilidade ética. E eu acredito que se trate de uma responsabilidade ética para o transfeminismo a não colonização das subjetividades, sobre as formas de estar no mundo e (nos) significar.

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Sobre o termo cisgênero, o equívoco da língua e o político na sigla LGBT

Escrevo este texto pensando o encontro que a defensoria pública realizou para falar sobre “identidades trans”, em que estavam presentes a psicóloga Bárbara Dalcanale Menêses e o assessor técnico do centro de referência LGBT, Márcio Régis Vacon como palestrantes. Ao se falar sobre transgeneridade, é urgente problematizarmos certas evidências de sentidos, na medida em que considero extremamente importante o não apagamento do político da questão transgênera. Aprendi com a análise de discurso fundada por Michel Pêcheux (AD) que a impressão que as palavras designam inequivocamente coisas e objetos no mundo se dá através de um efeito ideológico; também aprendi, contudo, que a ideologia funciona pela falha. Isso significa dizer, entre outras coisas, que o sentido, apesar de parecer evidente, pode ser sempre outro, a partir do momento em que a língua (para significar) necessita da inscrição da história, e com isso, os sentidos estão sempre já divididos pelas contradições das lutas de classes. Dizemos, portanto, que a linguagem não é transparente, já que ela não designa de forma unívoca; ela é, ao contrário, opaca.

Para a AD, a falha da língua pela ideologia se denomina equívoco. A ideologia aqui é entendida como necessária para a relação do sujeito com os sentidos, se distanciando, portanto, de concepções de ideologia como “ocultação da verdade”. É a partir de uma formação discursiva que os sentidos vão ser mobilizados através de uma posição de sujeito (um exemplo clássico para entender isso sucintamente quando, a rede Globo, por exemplo, utiliza “invasão” enquanto que um blog de esquerda, para referenciar a mesma situação, irá utilizar o termo “ocupação”; os sentidos estão divididos, e uma posição sujeito determina, neste caso, uma “escolha” diferente do léxico).

Então o que a cisgeneridade diz respeito ao equívoco da língua? O que diz respeito ao (apagamento do) político? Certamente muita coisa. Bárbara começou sua palestra “explicando” quem eram (ou o que eram?) as letrinhas da sigla LGBT. LGB são pessoas não heterossexuais, dizem respeito às orientações sexuais, e o T são pessoas trans*, diz respeito às identidades de gênero. Percebam, contudo, que essa definição, a priori, “correta”, mobiliza certas evidências, pré-construídos. Por que, ao falar sobre pessoas não-heterosexuais, sempre referenciamos pessoas cisgêneras? Quem são os (cisgêneros) gays, lésbicas e bissexuais afinal de contas? Por que o tema da identidade de gênero é sempre secundarizado (e como isso se dá historicamente, na materialização dos discursos?)?

"Por que eu deveria... me designar como cisgênero?". Fonte: https://xandradurward.wordpress.com/2013/05/31/whats-in-a-name/

“Por que eu deveria… me designar como cisgênero?”. Fonte: https://xandradurward.wordpress.com/2013/05/31/whats-in-a-name/

Os LGB são sempre os homens e mulheres (cisgêneros) que se atraem por homens e mulheres (cisgêneros); enquanto que o T apenas atrapalha essa cadeia de significações. Essa é uma das evidências de sentido sobre a sigla LGBT: a tensão/contradição entre a reunião entre orientações sexuais desviantes e identidades de gêneros desviantes não é “resolvida” (ou é para mim, enquanto transfeminista, a materialização de um discurso cissexista) de forma satisfatória pela posição de sujeito cisgênera, na medida em que apaga a possibilidade de (existência do) sujeito trans*, e também apaga a própria possibilidade do sujeito trans* de ter uma sexualidade (!). Não somos destituídxs “apenas” da família, do acesso à educação e empregos, mas também da ordem significante que simboliza a sexualidade. Não temos também o direito de termos desejos! A sexualidade de uma mulher trans* em especial é vista de forma abjeta pelo discurso médico. Somos obrigadas a realizar o impossível em busca do laudo: ora performando uma identidade heterossexual legitimada socialmente, ora performando uma identidade assexual na qual nunca é suficiente, já que sempre somos passíveis de sermos desqualificadas enquanto mulher e enquanto ser humano por qualquer sinal (ou ausência) de sexualidade/gênero.

Esses sentidos desarticulam a possibilidade de resistências transgêneras, já que a própria possibilidade de humanidade nos é interditada pela linguagem. É aí que o simbólico diz respeito ao político, aliás. Afinal de contas, quem nunca se deparou com o equívoco (percebam a relação sempre com o linguístico e os significantes) acerca da orientação sexual tanto de pessoas trans* quanto de pessoas (cisgêneras) que se atraem por pessoas trans*? A pessoa (cisgênero) que namora uma mulher trans*/homem trans* é “hétero” ou “homo”? Ou nenhum dos dois? Risos!

A transgeneridade (enquanto cisgeneridade mostrada em sua opacidade significante), portanto, é uma verdadeira arma (aliás, arrisco dizer a maior delas) contra a heteronormatividade. Quem dera os gays (cisgêneros) dessem conta disso e articulassem isso politicamente… mas infelizmente é mais fácil se apegar a certas identidades essencializadas, tomadas como transparência da linguagem. Identidades essas, que dizem respeito à orientação sexual, que pessoas trans* não têm o privilégio de reivindicarem plenamente. Falar sobre tudo isso, portanto, é também falar sobre o impossível da orientação sexual, sobre suas falhas, equívocos.

Os sentidos sobre a sexualidade das pessoas trans* estão interditados na medida em que o sujeito (de orientação sexual neste caso) universal é cisgênero. E isso se dá através das evidências mobilizadas pela posição de sujeito cisgênera. Por que pessoas trans* são sempre o puxadinho (precário) da laje da significação, são sempre o Outro, que, a partir do momento (contraditório) em que se reconhece o real deste grupo até certa medida: até a medida em que a cisgeneridade é posta como ponto incontornável (e insuportável)? São sempre aqueles que sobram, são o Outro não na sua relação de alteridade, mas na sua relação de abjeção. A simbolização da linguagem de tudo o que se refere a transgeneridade (o real) pela posição de sujeito cisgênera é marcada pelo político, pelas relações de poder. Isso significa que há uma “afirmação de pertencimento dos que não estão incluídos, caracterizada pela contradição de uma normatividade que estabelece (desigualmente) uma divisão do real”, como bem define Eduardo Guimarães na sua semântica do acontecimento. E o discurso da biologia também é mobilizado por esse discurso cisgênero (designar pessoas cisgêneras como “biológicas” é um exemplo disso). E inserir o biológico na discussão é o mesmo que retirar-se do debate político.

Que existe um desconforto de pessoas cis com o termo cis não é novidade. Já falei muito disso aqui no blog. O que também é curioso é ver pessoas trans* “defendendo” a não utilização do termo cisgênero. Isso apenas nos mostra que a posição do sujeito não é empírica nem automática: pessoas trans* podem assumir esta posição de sujeito cisgênera, assim como pessoas cis podem assumir uma posição de sujeito trans* (ou transfeminista).

Vejamos certos efeitos de sentidos nos enunciados:

  • As pessoas trans* são aquelas que se identificam com o gênero oposto.
  • O homem que se veste como mulher é uma mulher transexual.
  • O que diferencia uma transexual de uma mulher é o biológico.

Nos enunciados há o efeito de pré-construído. Isso significa que algo nos enunciados “disse antes, independentemente” que atravessa o dizer e que, nestes casos, se dá sobre a forma da contradição, gerando um efeito de sentido ora paradoxal, ora transparente. Quando se define que uma “pessoa trans é aquela que se identifica com o gênero oposto” se afirma, por meio do implícito, que a pessoa trans pertence a um gênero (ela “é” alguma coisa) com o qual ela não se identifica. É aí que o equívoco se manifesta: como posso me identificar com algo que desde sempre (desde todos os dizeres, os já-ditos) eu já não seja? Este pré-construído articula dizeres anteriores que afirmam que mulheres trans* não são mulheres e homens trans* não são homens. Qual é o gênero oposto de uma mulher trans*: o feminino ou masculino? Este enunciado afirma o paradoxal: o gênero “oposto” de uma mulher trans*, a partir do seu próprio ponto de vista, é o masculino. Como poderia uma mulher se identificar com o gênero masculino? Sentidos de transparência acerca dos termos “homem” e “mulher” atuam de forma semelhante no segundo enunciado. Esses efeitos de pré-construído se dão através de um atravessamento com o discurso da biologia/medicina, no qual o desígnio de gênero ao nascer é mobilizado como evidência de que “sejamos” homens ou mulheres produzindo coerência para os termos “homens” e “mulheres”. Por isso o terceiro enunciado possui efeito de transparência. Mas aqui vai o equívoco: falar sobre transgeneridade é falar sobre o biológico? Como, então, esses enunciados podem ser tão transparentes? Como essa relação de transparência se deu historicamente? É hora de deixar para trás o “biológico” para se falar sobre (cis)generidade. Isso significa dizer, afinal, que pessoas cis não são biológicas.

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Arquivado em Cissexismo, Invisibilidade, LGBT, Linguística

Tornar-se cisgênero

No ritual de passagem adolescente, alterações corporais irrefreáveis ganham espaço nas vidas de várias pessoas, agregando-se às suas subjetividades. Tornar-se cisgênero acaba sendo, então, um evento inevitável, nem sempre desejável, um modus operandi hormonal inesperado.

A partir daí, nossos corpos são (mais) veementemente simbolizados, nossas sexualidades mais fortemente evidenciadas (e/ou hipersexualizadas), nossos atos cistematicamente indesculpáveis; Não podemos mais, na presumida inocência infantil, perguntar por que não podemos usar/se associar a essa ou aquela coisa, agir dessa ou daquela maneira. Não que a coerção (e a correção) não viesse, de outras formas, enquanto crianças, mas há algo de agenciador no ritual de passagem cisgênero, que marca a nossa (i)responsabilidade em não sermos outra coisa que não cisgêneros. Após o ritual deixamos de ser crianças, e socialmente devemos responder por nossos atos que podem ou não tencionar nossa cisgeneridade.

Nossa memória do futuro é cisgênera, ao passo que o ritual já está prescrito, é um evento pré-determinado do futuro, normalizado, esperado, acatado, e qualquer tentativa de interrupção ou desvio é considerada um ultraje, execração, um atentado contra a ordem natural das coisas, contra o que deus fez, contra a biologia, contra a saúde.

Crianças, acreditamos, não são agentes de si. “É coisa de criança” dizemos, enquanto corremos para levá-las ao/à psicólogx, que nos dará a resposta esperada, o conforto ansiado: “seu/sua filhx é normal” ou “seu/sua filhx é portador/a/x de uma doença, mas que poderá ser curada e elx será normal, viverá uma “vida normal”. A “cura” pode vir na forma de duas coerções: o impedimento cistemático de todos gestos, expressões, gostos pelo “sexo oposto” ou o “processo transexualizador” que irá reorganizar binariamente esses corpos.

Toda vez que um sujeito diz “não desejo passar por isso”, “não me reconheço nesse corpo”, “minha memória não é essa”, “esse não é meu futuro”, um conjunto de discursos é colocado em prática, para defender a criança dos agentes externos que lhe desejam modificar a estrutura, ou para reorganizar esse corpo dentro do cistema, como outro binário. Mas quem defende a criança queer, como pergunta Preciado?

Que diferenças, tão díspares, haveria entre o ritual cisgênero pautado pela injeção interna de hormônios, cujos efeitos serão determinadas modificações corporais, e as injeções externas de hormônios cujos efeitos serão determinadas modificações corporais?

O que o devir cisgênero tem a ensinar sobre autonomia?

Tornar-se transgênero é categoria nosológica, tornar-se cisgênero é natureza.

Tornar-se transgênero é a pedra no caminho, tornar-se cisgênero é o próprio caminho.

Nos compêndios médicos, uma infinidade de técnicas e guias sobre como “tratar” a nosologia trans*, mil e uma explicações que inexplicavelmente reduzem as subjetividades trans* a apenas uma. Um estudo de caso com 14 sujeitos que universalizam a experiência identitária. Dezenas de artigos e discussões sobre “transexualidade na infância”. A patologia amplia seus domínios. Logo estaremos falando no gene da transexualidade, se é já não existe e felizmente me poupei de acessar tais informações.

Vejo muita gente com boa intenção falando em “crianças trans*” ou “transexualidade na infância”. A transexualidade é também um conjunto de crenças médicas materializadas numa nomenclatura/categoria nosológica. Quando corremos para classificar crianças que expressam seu gênero de forma inconforme com o cistema, ou seja, a(s) expressão(sões) de gênero(s) e o(s) corpo(s) designado(s) e cistematizado(s) não são isonômicos, estamos indiretamente patologizando uma expressão e estereotipando comportamentos. Ser trans* é sobretudo uma experiência identitária, e como toda experiência identitária ela é – ou deve ser – autônoma, deve haver agência por parte dxs sujeitxs que a experienciam. Essa também é uma luta do Transfeminismo.

Crianças devem ser livres para expressar seu(s) gênero(s) sem classificações identitárias que não escolheram, caso contrário acabaremos essencializando certas expressões/vivências como sendo trans*, sem ao menos deixarmos que seus agentes decidam por si mesmxs, quando forem capazes de compreender o que tal identidade significa e quais são as implicações existentes.

Nós trans*, nem sempre fomos trans*, mas pode-se dizer que muitxs de nós fomos pessoas cujo gênero era inconforme ao cistema. Fomos não, somos. Muitas de nossas infâncias foram pautadas pela subversão das normas que orientam o gênero. E nós éramos quem sempre fomos: nós mesmxs. Que essa experiência, posteriormente, foi classificada com o termo “transexualidade” de nada sabíamos e não teria feito diferença. Talvez a diferença tivesse sido o conforto que a patologia traz aos pais e mães desesperados com a “pane no cistema”.

Me entendo como trans* porque existe uma categoria identitária que abraço, sobretudo politicamente, para demandar direitos e explicar o que meu corpo e meu gênero significam para um mundo cistemático. Para mim, é uma categoria que inteligibiliza minha existência. Só que ao mesmo tempo, essa categoria permanece como doença mental. Só existe se for através do estigma da doença. E como lembra Missé, só podemos subir à Arca que promete a cura para os corpos errados, que nos levará à Ítaca com a promessa de uma vida melhor, se estamos convencidxs que nossos corpos sempre foram errados, de que necessitamos consertos, e essa memória de nunca termos sido normais é algo que jamais conseguiremos desexperienciar.

Meu corpo não é errado, não necessito de cura, errado é o cistema. Nunca fui uma criança transgênera, eu fui eu.

Prazer, eu sou a Hailey.

 

 

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