O que é cissexismo.

Revisei e ampliei a primeira postagem sobre o assunto, baseado em discussões e leituras novas.

Agradeço às pessoas da comunidade Transfeminismo do Facebook pelas ótimas discussões acerca do tema.

Para ver a postagem original, clique aqui.

Vivemos em uma sociedade ciscêntrica, cisnormativa. Isso ocorre porque as pessoas cis detém o poder de decisão sobre as pessoas não-cis dentro de vários âmbitos: médico, político, jurídico, financeiro etc.

Mas quem são as pessoas cis? Utilizei a seguinte definição a priori:

“Uma pessoa cis é uma pessoa na qual o sexo designado ao nascer + sentimento interno/subjetivo de sexo + gênero designado ao nascer + sentimento interno/subjetivo de gênero, estão “alinhados” ou “deste mesmo lado” – o prefixo cis em latim significa “deste lado” (e não do outro), uma pessoa cis pode ser tanto cissexual e cisgênera mas nem sempre, porém em geral ambos.”

Uma pessoa cis é aquela que politicamente mantém um status de privilégio em detrimentos das pessoas trans*, dentro da cisnorma. Ou seja, ela é politicamente vista como “alinhada” dentro de seu corpo e de seu gênero.

Quero evitar dicotomizar aqui sexo e gênero, pois muito embora essas categorias sejam divisíveis para problematização, a idéia que a ciência construiu sobre o sexo é pré-discursiva, ou seja, é como se fosse compulsoriamente uma verdade.

Isso significa que sexo é entendido como pré-dado e associado dimorficamente (homem-pênis/mulher-vagina) e a ele são atribuídos valores generificados que inscrevem o corpo em um sistema binário; “Corpo masculino” e “corpo feminino”.

Voltando na definição cis. Eu já havia retificado minha afirmação prévia em outra postagem, na qual elimino a discussão etimológica sobre o prefixo cis, porque não é cabível em uma discussão que se quer puramente política. Não queremos criar uma dicotomia entre pessoas cis e pessoas trans* e sim evidenciar o caráter ilusório da naturalidade da categoria cis.

O alinhamento cis envolve um sentimento interno de congruência entre seu corpo(morfologia) e seu gênero, dentro de uma lógica onde o conjunto de performances é percebido como coerente. Em suma, é a pessoa que foi designada “homem” ou “mulher”, se sente bem com isso e é percebida e tratada socialmente (medicamente, juridicamente, politicamente) como tal.

Em outras palavras pessoas cis são aquelas que nos discurso correntes (médico, acadêmicos, jornalistico, entre outros) são chamadas de “biológicas”, mas essa definição é discriminatória ao passo que pessoas trans* também são obviamente biológicas e o que difere é apenas seu status político.

O que é o desígnio?

O desígnio é o conjunto de práticas que envolvem a generificação de sujeitos por meio da nomeação de morfologias e a expectativa de gênero atrelada ao nascituro.

Ou seja, quando uma pessoa engravida, ela discursivamente já produz o gênero do sujeito antes mesmo deste nascer. Tanto isso é verdade que ao “saber” o “sexo” do nascituro criam-se expectativas de gênero que se exprimem na cor das roupas, do quarto, nos brinquedos etc. E esse discurso tende a ser mais limitador e repressor conforme esse sujeito cresce.

(Costumo associar o desígnio com o conceito de Memória do Futuro do Bakhtin, porque encaro o desígnio como uma expectativa que já se concretizou, por se apoiar em vários discursos normativos de sexo e gênero que orientam a sociedade e produzem os corpos e performances normais/anormais).

Quando o médico designa “é um menino/ menina” criam-se aí uma série de expectativas de gênero na qual esse sujeito deve estar conforme durante sua vida, caso contrário correrá o risco de ser visto como uma pessoa trans*/inconforme com seu gênero, um doente mental, como veremos a seguir.

Patologização das identidades trans*

Segundo o DSM-IV e o CID, Transexualidade (lá referida como transexualismo) é uma patologia, uma doença mental. Ao longo do século, as ciências psi trabalharam em direção à desumanização das identidades trans* por meio do discurso patológico. Estar de alguma forma incongruente segundo a norma cisgênera – homem/penis – mulher/vagina – tornou-se uma anormalidade, uma abjeção e por isso uma patologia. Para a ciência, a experiência trans* e os trânsitos de gênero não são normais, porque ela parte da mesma concepção ciscêntrica que apontei acima. Para a ciência, uma pessoa com “morfologia masculina” sempre será homem e sempre irá querer ser homem dentro da norma. Da mesma forma, uma pessoa com “morfologia feminina” sempre será mulher e sempre irá querer ser mulher. As ciências psi consideram essa norma como pré-discursiva, ou seja, não se discute o caráter ideológico de supor que tod@s somos centrad@s dessa forma. Qualquer sujeito que falhe nessa lógica, será anormal, um doente mental. Daí a criação da transexualidade. Quando pessoas que não se sentiam confortáveis com sua morfologia e/ou com as expectativas de gênero designadas a elas durante sua socialização começaram a surgir, a ciência rapidamente relegou essas experiências ao campo patológico.

Relegar essas experiências ao campo patológico é desumanizar as pessoas que se sentem como não-cis. Isso porque atualmente para existir politicamente como trans*, o sujeito deve passar por uma equipe médica que irá “atestar” a experiência trans* permitindo a existência desses sujeitos na sociedade através de um laudo médico. Da mesma forma, as instâncias jurídicas estão alicerçadas na mesma norma, e em conjunto com a legitimação médica só irão garantir existência jurídica a essas pessoas através do laudo médico.

O que irá guiar as ciências psi para “atestar” a “condição” trans* serão normas cisgêneras binárias. As ciências psi irão absorver os valores sexistas da sociedade para atestar o que é ser homem ou mulher. Então, para a ciência psi, será uma mulher trans* aquela que estiver conforme com as expectativas sexistas do que é ser mulher: gostar de se depilar, ser vaidosa, ter cabelos compridos, unhas feitas, gostar de maquiagem – e ainda as de ordem “psicológica” como por ex. ser emotiva ou não gostar de sexo. O mesmo ocorrerá com a definição de homem: ser “pegador”, querer ser ativo sexualmente, ter barba, ter pelos, ter ou querer ter voz grave, etc.

É importante ressaltar aqui também o caráter heterossexista dessa norma: se na sociedade heteronormativa mulheres e homens cis são heterossexuais, mulheres e homens trans* também devem ser, e para a ciência não existem pessoas trans* homo/bissexuais. As ciências psi confundem o tempo todo identidade de gênero e sexualidade.

Para as ciências psi, todas as pessoas trans* que falhem no modelo binário-sexista de comportamento, não são trans* “de verdade”.

Mas o que é o sistema binário? Binarismo, disforia* e conformidade na experiência trans*:

*(a utilização do termo disforia em itálico e com asterisco procura automaticamente problematizar e se diferenciar da definição das ciências psi).

Binarismo é a idéia que todas as pessoas (seus comportamentos) devem se inscrever em um sistema binário rigidamente (cis) sexista. Ou seja, “homem fala grosso, cospe, tem voz grave, é racional, automaticamente violento, gosta de ter barba” etc. Mulher é “emotiva, gosta de se depilar, é vaidosa, usa maquiagem” etc. Homem tem e/ou gosta de ter “aparência masculina” e mulher tem e/ou gosta de ter “aparência feminina”. Essa idéia se reflete na experiência trans* na medida em que as ciências psi irão cobrar esses mesmos elementos. Uma mulher trans* deverá cumprir com todas essas normas. Caso falhe, falhou na expectativa de “ser mulher”. O mesmo ocorre para homens trans*. As pessoas trans* internalizam essa idéia de tal forma, que muitas só conseguem se ver ou se sentir “completas” dentro do sistema binário, e quando sentem que falharam, experienciam disforia*.

Disforia* aqui é usado de forma diferente do discurso médico. Disforia* seria a direta experiência binarista-cissexista da norma cisgênera. Ou seja, a norma orienta um binarismo – se falhamos em cumprir nos sentimos socialmente e morfologicamente inadequad@s. Esse sentimento é o que chamamos de disforia*. A disforia* só existe porque existe uma norma que regula comportamentos e morfologias. Só existe porque a sociedade é baseada da cisnorma, ou seja, no alinhamento compulsório morfologia-gênero. Isso não significa que o sentimento disfórico seja menos real ou passível de desconsideração, mas sim que o reforço das normas binárias cissexistas produz e reproduz a disforia*. Não é, como acredita a ciência, um sentimento puramente subjetivo das pessoas trans*, é um sentimento produzido por uma norma social.

Mas afinal o que é cissexismo então?

Primeiramente é a desconsideração da existência das pessoas trans* na sociedade. O apagamento de pessoas trans* politicamente por meio da negação das necessidades específicas dessas pessoas. É a proibição de acesso aos banheiros públicos, a exigência de um laudo médico para as pessoas trans* existirem, ou seja, o gênero das pessoas trans* necessita legitimação médica para existir. É a negação de status jurídico impossibilitando a existência civil-social em documentos oficiais.

Porém esses exemplos são mais óbvios, e poderíamos chamá-los simplesmente de transfobia. O cissexismo é mais sutil. Ocorre quando usamos o termo biológico para designar pessoas cis, quando usamos certos discursos e certas expressões que excluem ou invalidam direta ou indiretamente as identidades das pessoas trans*, como eu exemplifiquei na postagem anterior:

“Cissexismo será então qualquer discriminação baseada em:

1) Na noção de que só existe um tipo de morfologia (corpo) e este deve estar alinhado com o gênero designado ao nascer e/ou;

2) Noção de que só existem 2 gêneros (binários: masculino/feminino) e que uma pessoa deve estar alinhada dentro de um desses 2, e/ou;

3) Noção de que uma pessoa trans* tem uma vivência menos ‘verdadeira’, e/ou nunca será ‘verdadeira’ se não fizer modificações em seu corpo para ficar mais próxima de um dos gênero binários, e/ou;

4) Noção de que uma pessoa precisa estar dentro de um desses gêneros binários, porque senão ela não será feliz, ou não será aceita etc. e/ou;

5) Noção de que pessoas que não se encaixam no binário são doentes mentais, tem patologia e precisam se tratar de algum modo para se curar e que essa cura ou será o alinhamento ou o processo transsexualizador, e/ou;

6) Noção de que o corpo da pessoa é “bizarro”, que ela não pode viver no “entre” etc. o que pode caracterizar também transmisoginia e/ou transmisandria e/ou;

7) Noção de que a pessoa “dá pinta”, é muito “escandalosa” chama atenção, principalmente no que diz respeito a performance/atitudes que não estão alinhadas do ponto de vista cis. Achar que porque essa pessoa ‘chama atenção’ e não age como esperado do alinhamento cis, ela irá “atrapalhar a causa”, “estragar a imagem do grupo” etc. Atenção porque esse discurso está bastante difundido no meio LGBT. E/ou;

8) Uso de termos ofensivos, mas que muitas pessoas (atenção LGBT’S) não acham ofensivos, ou evocar arbitrariamente (sem a permissão da pessoa) o nome designado ao nascer, a experiência “pregressa” (falar em “antes” e “depois” é cissexista também); termos como ‘transvestir’,'transformista’, ‘traveco’, ‘transsex’, ‘t-gata’ (sim ‘t-gata’ é um termo fetichizador cissexista e sexista também, objetificador: atenção pessoas que se identificam como “t-lovers”); uso de termos como crossdress, drag, drag queen/king, quando você não sabe qual é a identidade da pessoa. E/ou;

9) Cont. item 8 – Designar arbitrariamente a identidade da pessoa. Conhecer alguém e prontamente decidir qual é a ID da pessoa baseada na imagem (visual e/ou performática) (da sua posição cis) que você tem dela. Alinhar pronomes e identidades também é cissexista. E/ou;

10) Na simples discriminação pela pessoa não ser cis, por ter qualquer comportamento diferente do esperado pelo alinhamento cis. Nesse ponto o sexismo também tem papel importante. Cissexismo e Sexismo são faces da mesma moeda. Desenvolverei esse assunto em outro post. E/ou:

11) Qualquer outra situação que se encaixar em discriminação, pois com certeza não consegui listar tudo aqui, existem inúmeras outras.”

Por que nomear quem são as pessoas cis:

Como eu disse mais acima, ser cis é uma condição principalmente política (mas não só). A pessoa que é percebida como cis e mantém status cis em documentos oficiais não é passível de análise patologizante e nem precisa ter seu gênero legitimado. Ora homens são homens, mulheres são mulheres e trans* são trans* correto? Não. Historicamente a ciência criou as identidades trans* (e por isso já nasceram marginalizadas), mas não criou nenhum termo para as identidades “naturais”. É por isso que a adoção do termo cis denuncia esse status natural. Denotar cis é o mesmo processo político de nomear trans*: nomeia uma experiência e possibilita sua análise critica. Nas produções acadêmicas contemporâneas, tanto das ciências médicas quanto das sociais, a identidade trans* é colocada sempre sob análise, tornando-se compulsoriamente objeto de critica. Ao nomearmos @s “normais” possibilitamos o mesmo, e colocamos a categoria cis sob análise, problematizando-a. Buscamos o efeito político de elevar o status de pessoas cis ao mesmo das pessoas trans*: se pessoas trans* são anormais e doentes mentais, pessoas cis também o são, suas identidades também não são “reais”; se pessoas cis são normais e suas identidades naturais, pessoas trans* também são normais e suas identidades tão reais quanto.

A naturalização das identidades cis produz privilégios. Esses privilégios são diretamente percebidos na medida em que, como eu disse acima, pessoas cis não precisam ter sua identidade legitimada pela ciência; tampouco estão classificadas como doentes mentais em documentos médicos; não sofrem privações jurídicas de existência em documentos oficiais; não sofrem violência transfóbica e cissexista; não precisam dar explicações sobre suas identidades; não são vistas como pervertidas e nem tem sua sexualidade confundida com seu gênero. Esses são apenas alguns exemplos, para conferir uma lista bem atualizada e completa, verifique aqui. (em inglês).

Para além da discussão trans*: a multiplicidade das identidades de gênero:

Essa discussão se pautou principalmente nas pessoas trans*, mas é importante lembrar que gênero é uma categoria instável que não é coerente. Gênero está se deslocando continuamente dentro das performances culturais. Gênero é uma performance discursiva, móvel e abstrata. Esse pensamento orientou muitas pessoas que não se sentiam cisgêneras, mas também não se denominavam trans*. Criaram categorias de classificação próprias que no tumblr ganhou força. Alguns exemplos são: genderqueer, third sex, agender, bigender, androgyne, neutrois, entre outros. Não convém aqui explicar cada uma dessas categorias, mas denunciar o caráter frágil do binarismo. O sistema binário de gênero não é tão natural quanto se imagina e tampouco é estável e inabalável.

Resta saber se iremos contribuir para reforçar um sistema excludente e desumanizador, ou lutar contra as políticas e discursos cissexistas existentes na sociedade.


7 Comentários

Arquivado em Cissexismo, Despatologização, Política, Trans*

7 respostas para O que é cissexismo.

  1. Andréa

    Excelente trabalho de pesquisa! Gostei da forma argumentativa de problematizar o supostamente comum ou normal em oposição às questões das – como dito – pessoas trans.

  2. Marina

    Gostei bastante do texto, me leva a questionar minhas concepções sobre transsexualidade. Porém, confesso que esse assunto é cheio de pontos de interrogação na minha mente. Mesmo lendo textos que procuram esclarecer os termos como transsexual, transgênero, cissexual, cisgênero, interssexualidade, entre outros, continuo achando muito confuso. Quero dizer, na hora que estou lendo definições, é fácil entender, porém não consigo diferenciar corretamente na prática, nem relacionar estas definições com a problematização social dos indivíduos. Entendo todas essas ocorrências como algo natural e consigo parcialmente analisá-las fora do contexto binário que a nossa sociedade prega, porém não consigo entender exatamente onde está o problema e como resolvê-lo, porque não entendo quais demandas são necessárias a um transsexual, a um interssexual, àqueles que não definem seu gênero, etc., Será que essa dificuldade é fruto de uma cisnormatividade internalizada, ou o assunto é realmente complexo? Há leituras (como livros ou artigos) que aprofundam o tema de forma simples e crítica?

    • Marina, o assunto também é cheio de interrogações para nós também, porquanto a questão das categorizações trans* é bastante subjetiva e fluída, sendo muito difícil senão impossível efetuar alguma distinção satisfatória. Minha sugestão é que as categorias devam ser utilizadas em prol de um discurso político e não médico como ocorre atualmente, pois diferentes pessoas trans* necessitam de políticas institucionais diferentes. Por exemplo, uma pessoa que se denomine (ou por si mesma ou pela coerção da ciência, ou pela lente de uma pessoa cis) transexual, tende a sofrer menos discriminação e ter mais “apoio” de outras pessoas do que aquel@s que se denominam travestis. Travesti em nosso contexto tem conotação bastante negativa visto que são associad@s com prostituição e/ou personagens caricatos/abjetos. Travesti também é um categoria considerada como “perversão” pelo DSM-IV (e agora também no V com novas estigmatizações…), enquanto transexual não, embora esteja ainda classificada como GID – Gender Identity Disorder, ou seja é considerada desordem (doença mental). Quanto ao fato da dificuldade ser fruto da cisnormatividade, acredito que seja exatamente isso. A todo tempo nós usamos a lente da norma cis como filtro para analisar questões trans* – isso porque historicamente a categoria trans* foi criada como aquela anormal, aparte, em relação ao binário cisgênero, e sempre foi (inclusive até hoje) considerada um “desvio”, uma doença social que autoriza uma “assepsia”. Por vezes a assepsia é a morte e em outras a coerção desses sujeitos de volta ao binário através do tratamento e da cirurgia.

      • Rodrigo

        Primeiramente parabéns pelos textos, excelentes !!!

        Sou estudante de psicologia e sim, infelizmente somos doutrinados na universidade, nas “ciências psi”, a pensar na sexualidade conforme descrito aqui. Estudo as questões de gênero a um certo tempo e recomendo a leitura do livro “Problemas de gênero – Feminismo e subversão da identidade” da autora Judith Butler, o único porém da obra é que ela exige um certo conhecimento e entendimento/compreensão de certos paradigmas e ou matrizes/escolas da psicologia e antropologia, trata-se de uma leitura sobre Epistemologia, o que é muito esclarecedor, demanda trabalho mas vale a pena !

        E somente uma pequena e humilde crítica construtiva, acho que houve uma certa supergeneralização em relação ao conceito “ciências psi”, pois o livro citado, o DSM, é da área da psiquiatria e possui um sistema categórico pragmático de classificação nosológica, muito próximo e ou congruente com o paradigma do biopoder.

        Hoje em dia, no arcabouço teórico da Psicologia, existem sistemas nosológicos alternativos com vertentes dimensionais, que abrem mais espaço para a reflexão na hora de elaborar um psicodiagnóstico, o que eleva a Psicologia à uma visão BIOPSICOSSOCIAL, (objetivo de humanização em relação as questões existenciais e sofrimento subjetivo), o que reduz os preconceitos enraizados (heterossexualidade compulsória), que ainda influenciam muitos profissionais da área da saúde como um todo.

        Uma das maiores conquistas da Psicologia no Brasil, foi vetar a todo e qualquer psicólog@ tratar questões de Orientação Sexual, ou seja, a Psicologia brasileira reconhece como não-patológica e não descrimina à opção, escolha e preferências sexuais !

        • Olá Rodrigo, obrigada pelo comentário. Embora eu concorde que a psiquiatria é muito mais nociva do que a psicologia, que como você disse possui vertentes menos patologizadoras e mais abertas, ainda sinto um certo retorno ao biológico em certas questões, assim como algumas visões estereotipadas sobre as vivências trans*, como o fatalismo de que cada pessoa trans* necessariamente sentia-se como de outro gênero (chamado de “gênero oposto”) na infância, o ódio ou aversão ao próprio genital, ou que toda pessoa trans* é por compulsão heterossexual. Essa noções são fruto dessa herança pseudocientífica da psiquiatria e da endocrinologia. Quanto à resolução do CFP, refere-se apenas à homossexualidade; a transexualidade segue patologizada no Brasil e em grande parte do mundo no novo DSM (V). Algumas teóricas sugerem, inclusive, que a despatologização da homossexualidade e a entrada da transexualidade no DSM (que ocorreram na mesma revisão, no DSM-III se não me engano) é um 360º na patologização da homossexualidade e do gênero em si, pois utilizam a patologização da transexualidade como baliza para coibir comportamentos considerados não adequados (afeminados/masculinizados), e frequentemente considerados homossexuais.

          • Rodrigo

            Pois é Hailey, a pauta é complexa mesmo, e o que mais me deixa indignado é a falta de preparo dos cursos de Psicologia, ou seja, seremos profissionais habilitados legalmente a ajudar/tratar questões várias das vivências e subjetividades, e sinceramente NÃO estamos e ou NÃO somos conduzidos a pensar/refletir/indagar/questionar nada além daquilo que os professores repassam/”ensinam”, e em quatro anos absolutamente nenhum dos professores que tive mencionou uma palavra se quer sobre as questões de gênero, sexo e orientação sexual. O conhecimento sobre esses assuntos (tão demasiadamente humanos não ?) estou buscando por conta e foi assim que encontrei este site, que diga-se de passagem é muito bem FEITO ! Os textos são congruentes e esclarecedores, logo PARABÉNS a todos que aqui contribuem, creio que esse intercâmbio é muito produtivo, pois a academia/ciência infelizmente se fechou na torre de marfim da “NEUTRALIDADE” e prefere optar sim pelos biologismos deterministas quando o que está em jogo é MANUTENÇÃO desse tão velho, retrógrado e doente mundo contemporâneo, fica aí uma máxima de JUNG:

            “SER NORMAL É META DOS FRACASSADOS !!!!!!”

  3. Adorei o texto, muito coerente estava lendo um artigo no blogueirasfeministas.com e apareceu um link com cisseximo por aqui.

    Parabéns ;)

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