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Afinando a noção de “socialização” e refutando algumas distorções

Aviso de conteúdo na imagem: transfobia. Este texto parte do comentário injurioso no print com o intuito de discutir a noção de socialização e desmentir algumas distorções feitas pelo discurso transfóbico. O comentário é sintomático e sistemático na medida em que é recorrente o discurso transfóbico nos discursos do movimento social e em especial, em vertentes discursivas auto denominadas feministas.

transfobia terf

Quando dizemos de transfobia no feminismo, dizemos acerca de posicionamentos lamentáveis como este. Quando falamos da incompreensão do movimento social – que inclui especialmente e especificamente o feminismo – estamos falando de incompreensões acerca da realidade de pessoas trans que parecem só se justificar a partir de uma sistemática distorção das vozes de pessoas trans. Parece que a transfobia só consegue se justificar no discurso do movimento social a partir de muita distorção, desonestidade e total recusa da abertura acerca de questões ainda não debatidas historicamente no discurso do movimento social. Falar sobre pessoas trans é novidade porque os discursos de resistências não estão habituados a falarem sobre nós. É preciso aprender a deslocar certas ideias para de fato compreender o que significa ser trans em nossa sociedade e como teorizar sobre este realidade. É preciso estar aberto à alteridade, coisa que gente como essa que escreveu esse comentário acerca do último texto da Maria Clara no transfeminismo está muito longe de conseguir, infelizmente.

Sim, nós já rebatemos a noção acerca de que mulheres trans recebem a mesma socialização de homens cis. É completamente insustentável defender a tese que a sociedade trata mulheres trans e homens cis da mesma forma. Há dados empíricos que desmentem a ideia de que os indivíduos que recusam as expectativas acerca da narrativa de gênero legitimado – a cisgênera – seriam socializados da mesma forma que aqueles que se encaixam – mesmo que sempre provisoriamente – na norma cis.

Não há como negar o genocídio que a população trans sofre neste país: e ainda tem gente que tem a pachorra de propor que pessoas trans recebem a mesma socialização de pessoas cis. Não há como negar que a sociedade trata de forma distinta quem ela lê enquanto travesti e transexual e daquelas que não são lidas assim. Que a sociedade socializa travestis e transexuais a ocuparem lugares sociais muitos distintos das pessoas cis. Quando vemos dados como: expulsão familiar, inserção no mercado de trabalho em escolas e no ensino superior não há como restar dúvidas que nossa sociedade não é indiferente às pessoas trans. Se a sociedade, no processo de atribuição de lugares esperados através de uma socialização de gênero, não é nem um pouco indiferente a estas pessoas, nossa teoria não deveria estar.

A teoria tem que acompanhar a realidade concreta. Ela não pode servir para camuflar a realidade. A teoria tem que ser condizente para explicar e atuar na realidade, não o inverso. Se a sua teoria apresenta várias contradições, lacunas e inconsistências, ela precisa ser revista.

A socialização de gênero é desde sempre o aculturamento para a cisgeneridade. A masculinidade – o papel esperado para indivíduos aculturados para serem “homens” – e a feminilidade – o papel esperado para indivíduos aculturados para serem “mulheres” – não existe fora dos marcos regulatórios da cisgeneridade. A masculinidade e feminilidade hegemônicos são necessariamente cisgêneros. Não existe norma em relação à socialização de gênero que não seja necessariamente cisgênera, além de binária, misógina e heterossexual. Se a socialização de gênero necessita da norma cis – a exclusão da transgeneridade como Outro é na mesma medida necessária. A morte de travestis e transexuais é necessária para corroborar a verdade acerca dos sexos. Porque vocês acham que travestis e transexuais são tão exploradas e espoliadas? Não é à toa. Elas são exploradas e espoliadas em nome de algo. Em nome da verdade essencial do sexo. Não é brincadeira: pessoas trans são literalmente mortas por isto. Este algo é a violência de gênero – e a violência de gênero é necessariamente baseada em marcos regulatórios do cissexismo. Por isso a questão do trânsito de gênero está necessariamente inscrita estruturalmente na forma como a socialização funciona. Nenhuma socialização de gênero em nossa sociedade é indiferente àqueles que insistem vivenciar os trânsitos de gêneros. Por isso nossa sociedade não socializa pessoas trans e cis da mesma forma.

O “gênero de verdade” só existe porque se alocou o gênero das pessoas trans como ilusório, o doente, o patológico. A cisgeneridade só existe porque existe a exclusão de categoria de pessoas trans como pertencentes à ordem de inteligibilidade humana. O gênero só faz sentido a partir desta exclusão. A socialização do gênero de qualquer pessoa só se realiza a partir do marco do gênero cisgênero. Não é possível desconsiderar as normas cis da própria reprodução do gênero em sociedade – através da noção de “socialização”.

Se estamos falando de como a sociedade socializa indivíduos para serem homens e mulheres estamos falando NECESSARIAMENTE de como essa sociedade socializa homens e mulheres a partir do marco de norma cisgênera. Não há espaço para as pessoas trans na normalidade destes marcos regulatórios de gênero: tão somente a exclusão. Exclusão esta que se dá a nível social e também da nossa forma de compreender o mundo: as epistemologias que construímos, as teorias, os feminismos. Em suma: o que estamos dispostos a ver, a compreender e lutar por.

A transgeneridade não é algo a parte do próprio gênero. Não é um efeito colateral do gênero. Não é uma excrescência produzida pelo gênero que se possa simplesmente ignorar e colocar por debaixo do tapete da nossa teoria e prática. Você não pode simplesmente desconsiderar a existência da transgeneridade da sua análise sobre gênero.

O fato da sociedade esperar imaginariamente que todas as pessoas nasçam, cresçam, se desenvolvam e morram cisgêneras não desmente em nada a realidade de precariedade das pessoas trans. O fato da sociedade imaginar que só exista pessoas cis e, por extensão, que só devam existir pessoas cis esconde em si mesmo a violência transfóbica. Aliás, trata-se tão somente de um sintoma do quanto às vivências e vozes trans são silenciadas. Isto é imaginário, não real. Não sobreponha o senso comum e o imaginário espontâneo acerca da cisgeneridade na teoria: isso tem efeitos devastadores.

Fiz textão mas nem com textão damos conta de fecharmos tantos pontos de tanta distorção de discurso transfóbico. De discurso que a todo custo tenta desumanizar as pessoas trans.

Vamos falar a partir da realidade concreta. Pessoas trans pedem “silicone no SUS” não é por questão de aparência, futilidade ou reforço de estereótipos de gênero. É porque de onde muitas travestis vêm, o Estado falhou. O Estado falhou muito e sucessivamente em diversos âmbitos e aspectos. Falhou desde quando permitiu que travestis fossem expulsas de casa, da escola e do mercado de trabalho. Falhou na educação. A sociedade como um todo falhou a partir do momento em que expulsa crianças de suas famílias em virtude de violência transfóbica.

Mas vamos nos concentrar especificamente em uma falha: na saúde. O Estado é completamente falho quanto à saúde das pessoas trans. Travestis têm expectativa de vida de 30 e alguns anos. Deveria soar obsceno. Vale a pena lembrar que nenhuma política pública de âmbito nacional está sendo posta em prática para de fato erradicar o problema em sua real dimensão.

Dentre uma das coisas que faz com que essa expectativa de vida seja tão baixa está o uso de silicone industrial. E quanto a esta problemática, não ajuda em nada o discurso do tipo moralista – que culpabilizaria individualmente a “escolha errada” da travesti que injetou silicone no próprio corpo – tampouco o punitivista. Não precisamos de discursos moralistas que julgam as subjetividades de pessoas como “erradas”, “normativas” que supostamente reforçariam estereótipos.

Resolver um problema complexo nunca dá certo a partir de ações que culpam indivíduos e ainda advogam para práticas punitivistas. Isto é o mesmo que atacar os sintomas, não a causa. E a causa disso tudo é estrutural. Se entendemos que ações como essas se dão no nível do sintoma, temos que advogar para políticas de redução de danos. As medidas de política pública tem que aprender a ouvir aqueles que elas julgam “salvar”. A ouvir de fato suas vozes em suas diferenças, levando a sério a constituição da subjetividade destas pessoas. De forma responsável. Política tem que ser feita de forma responsável. E quanto à estrutura, temos que lutar para a construção de um novo mundo, um mundo onde formas de vidas trans sejam aceitas e celebradas.

A prostituição por si só não é empoderadora. A prostituição é condição de sobrevivência para grande parte da população das travestis e mulheres trans. O que é empoderador são as narrativas das pessoas frente a suas realidades de existência e resistência. E estas realidades muitas vezes estão marcadas fortemente pela opressão e exploração. E sim, prostitutas que lutam pelos seus direitos estão buscando empoderamento. Prostitutas que lutam pela melhora das suas condições de trabalho estão se empoderando. Elas se empoderam quando resistem. O empoderamento é construção, processo de luta; não é um dado inerte e pré-determinado.

E não é nem um pouco empoderador você julgar moralmente a condição de existência e lutas destas pessoas. Não é empoderador advogar para o discurso punitivista que visa combater a demanda por trabalho sexual. Vocês que são contra a luta de reconhecimentos de direitos das prostitutas só podem estar achando que elas são pessoas com falta de discernimento quando dizem que a repressão da demanda seria uma reivindicação das prostitutas. Eu desafio a qualquer pessoa perguntar para uma prostituta se é de interesse dela a diminuição da demanda por trabalho sexual, e não o combate à violência.

“A maioria das prostitutas é mulher [cis]”. Este enunciado não prova nem desmente nada em relação à realidade de mulheres trans, travestis e transexuais. Podemos objetar igualmente que a maioria da população é cisgênera e a maioria da população cisgênera não se encontra na prostituição – ao contrário da população de travestis, que se encontra 90% nesta atividade. E sabemos que esse dado é sintoma de uma gravíssima forma de exclusão especificamente transfóbica. E esse dado é de hoje e não vemos nenhuma politica pública contundente em prática atualmente para diminuir este número. Você tentar dizer que pelo fato de travestis “terem pênis” faz da situação melhor você está apenas jogando palavras injuriosas ao vento.

Written by Beatriz

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1 Comments

  • Obrigada por esse texto! Acabei de conhecer esse lugar e já o considero parte importante da minha formação enquanto militante feminista.
    Sou cis (e assim reconheço a minha posição de privilégio em relação à pessoas trans), mas gostaria de colocar que sinto uma ânsia enorme em perceber o feminismo como excludente.
    Também quero pontuar que mesmo estando a quase um ano e meio militando ainda não conhecia dados citados aqui, como a espectativa de vida, por exemplo. É alarmante observar a partir disso que nesse um ano e meio tive apenas uma companheira trans lutando junto comigo, no mesmo espaço, com as mesmas discussões.
    Me senti envergonhada pela moça do comentário e gostaria de dizer que continuarei lendo as publicações daqui, são todas ótimas <3

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