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Cirurgia imediata… para quem? René Magritte, Perspective: Madame Récamier by David (1951). Full view

Cirurgia imediata… para quem?

Por Daniela Andrade.

O povo fica chocado quando falo que me submeto à terapia há muitos anos com uma psicanalista lacaniana.

Muito em função da transfobia dos psicanalistas e psicólogos, por exemplo o que vem explicitado nessa reportagem.

E sobre essa reportagem e a suposta preocupação dos psicanalistas com as pessoas transexuais eu tenho a dizer o seguinte, primeiro quando fala que a medicina traz uma resposta imediata e tentadora – a cirurgia de transgenitalização.

Imediata para quem? Por que quem depender do SUS no Brasil possivelmente morrerá na fila esperando a cirurgia, eu estou há 10 anos nela.

E vamos combinar que a maioria dessa população não é rica, muito pelo contrário, geralmente são pessoas em situação de extrema vulnerabilidade que dependem da prostituição para sobreviver.

Esperando há tanto tempo por uma cirurgia é bem provável que a pessoa tenha ouvido muito sobre a cirurgia, lido muito sobre a cirurgia ou no mínimo conversado com outras pessoas que se submeteram à cirurgia.

Eu tenho total ciência de como o pós operatório é muito incômodo.

E também não me parece tentador morrer numa fila à espera de uma cirurgia – cirurgia essa que no Brasil demanda autorização de psiquiatra, psicólogo, endócrino, clínico geral, assistente social, etc.

Acredito que não parece tentador ser obrigada a passar durante anos sob o crivo de supostos especialistas em transexualidade, ainda que nenhum deles seja transexual.

Para ao final eles darem um laudo autorizando OU NÃO você a entrar numa fila.

Então, ao contrário do que a fala dos psicanalistas faz crer, a solução exposta pela medicina não é imediata e tampouco tentadora.

Aliás, acho sempre curioso quando se fala na quantidade de pessoa que se arrependeu da cirurgia, que entrou em depressão, que destransicionou ou mesmo suicidou-se.

Mas e as pessoas que desenvolveram depressão ou se mataram por NÃO TEREM ACESSO À CIRURGIA? Essas vidas importam?

Há apenas cinco hospitais públicos no Brasil inteiro realizando essa cirurgia, com filas que levam muitos anos. Isso aqui não importa para esses psicanalistas supostamente preocupados com transexuais?

E a qualidade das cirurgias, quem averigua? Isso importa? Lembrando que estamos falando de uma das populações mais discriminadas no Brasil, então será que todas pessoas que se mataram tiveram como motivo exclusivamente a cirurgia? E se foi, será que não se arrependeram por serem cirurgias mal feitas?

Depois, dizer que a transexualidade é uma tentativa de higienizar corpos adequando gênero e corpo e depois encarcerando pessoas é tomar todas as pessoas transexuais como seres desprovidos de vontade própria, seres totalmente manipuláveis, que não tem qualquer racionalidade que não a imposta pela medicina.

Outra coisa, é também inscrever a transexualidade como experiência única vivida da mesma forma por todo mundo, ainda que mais à frente os psicanalistas se contradigam.

Aliás, trazer a experiência do Irã em que homossexuais são obrigados a se cirurgiar para permanecerem vivos é no mínimo infeliz dentro do contexto brasileiro: aqui ninguém é obrigada a se cirurgiar, muito pelo contrário, criam tantos obstáculos e empecilhos que parece-me justamente que é para você desistir.

Depois, é sempre curioso quando trazem o caso do Irã pois não falam de como vivem as mulheres transexuais no Irã, pois são discriminadas e geralmente lhes resta a prostituição – e da forma como falam parece que são tratadas como rainhas.

Ou seja, segundo a ótica dos psicanalistas da reportagem, transexuais não existiriam, mas seriam todos homossexuais higienizados.

Olha, eu nem sei de qual país eles falam, pois até parece que trata-se melhor transexuais no Brasil, o país que MAIS MATA TRANSEXUAIS NO MUNDO.

Quer dizer, eu vou querer me submeter a algo que não vai me fazer ser aceita por uma sociedade que odeia transexuais por qual motivo?

Inclusive esse argumento dos autores parece-me muito o argumento usado por gays transfóbicos.

E ainda, o corpo É MEU, eu deveria ter o direito de fazer do corpo QUE É MEU o que eu bem entender.

Eu morro e não entendo o que muda tanto na vida dos outros se eu mudo O MEU CORPO.

Todas as pessoas, não apenas transexuais, deveriam ter direito aos próprios corpos. Se vou me submeter a um procedimento que trará consequências, sou uma pessoa ADULTA que deveria dispor dele mesmo assim. Aliás, há tanta cirurgia que as pessoas cisgêneras se arrependem, nem por isso estão pensando em submeter as pessoas cisgêneras a uma olimpíada do sofrimento para terem acesso, fazendo com que elas necessitem da autorização de diversos supostos especialistas que determinarão se ela é o que diz ser.

Os psicanalistas também se dizem preocupados com a hormonioterapia pois a mesma pode causar esterilização, coisa que as pessoas transexuais SABEM, sobretudo na era da internet que a informação é mais facilitada.

Aliás, sempre que vejo essa gente preocupada com os supostos efeitos adversos da hormonioterapia, não vejo as mesmas pessoas preocupadas com quem não tem acesso à hormonioterapia com acompanhamento médico, que é apenas a ARRASADORA MAIORIA das pessoas transexuais no Brasil, país em que a raridade é achar um ambulatório com médicos qualificados para nos atender.

Ou seja, a pretexto de escreverem um livro preocupados com a transexualidade, pela entrevista deduzo que escreveram um compêndio transfóbico que apenas contribui para que haja mais transfobia no Brasil.

Torço para que nenhuma pessoa transexual tenha como única opção para psicoterapia esses tais psicanalistas, pois presumo que ficarão pior do que entraram.

Eles inclusive deveriam se juntar aos evangélicos fundamentalistas e ao governo do Bozo e saírem com faixas por aí contra o espantalho chamado ideologia de gênero.

Written by Beatriz

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