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Divagações dxs Leitorxs: Explicando Genderqueer Para aquelxs que o não são

Por Maddox

Tradução: Jamal

“Eu tenho uma prima que acaba de sair do armário como genderqueer. Ela e eu fomos melhores amigas enquanto crescíamos e, naturalmente, eu quero entender o que sua experiência é, mas eu simplesmente não entendo. (Eu também não sei se me é permitido referir-me a minha prima enquanto ela / dela.)

Eu posso entender o sentimento de que você devesse ser de um gênero diferente de seu corpo, ou do que você foi criado, mas eu não entendo como seria não se sentir como pertencente a nenhum dos sexos. É sobre as construções sociais em torno de que a sociedade diz que meninas e meninos / homens e mulheres devem ser? Porque eu entendo aqueles que rejeitam estereótipos, não gostam de cozinhar / cor-de-rosa / salto alto / etc.

Acho que eu deveria perguntar a ela, mas eu não quero incomodá-la muito. Você pode fornecer material on-line para eu ler sobre a experiência de ser genderqueer?”

Obrigadx por vir aqui e fazer um esforço para compreender seu/sua primx. Elx se mostrou valente em sair do armário e em confiar em você informações pessoais, e um sinal de que elx confia em você uma informação pessoal preciosa.

O que é Genderqueer?

Primeiro, cada pessoa que se identifica como genderqueer define seu gênero de forma diferente. Isso ocorre porque genderqueer tornou-se um termo genérico que engloba uma grande gama de gênero de forma que a ser realmente diferente para cada indivíduo.

Eu estou usando pronomes de gênero neutro “elxs” para seu/sua primx, pois é a opção mais segura em minha mente. Nós não sabemos as preferências de pronome delx: você vai ter que perguntar. Sério, é só dizer “que pronome você prefere?” Você vai ter que perguntar um monte de coisas, como o nome que de preferência, como você deve abordá-lx em público e em privado (porque elx podem estar fora do armário ou não para pessoas diferentes) e, mais importante, o que genderqueer significa para elx.

Para um grande número de pessoas que se identificam como genderqueer, sua identidade de gênero – e a forma como expressá-la – continua a evoluir com o passar dos anos. Isso inclui roupas, pronomes, nomes, transição, transição física, médica, e outras coisas. Não é necessariamente que as pessoas genderqueer estão confusxs; apenas que descobrir o que você entende sobre sua própria identidade pode ser um processo longo, que muitas vezes envolve desaprender o que deveríamos ser.

Sair do armário não significa que necessariamente elx irá compartilhar todo o processo com você, ou porque elx optou por manter algumas coisas privadas (por qualquer motivo), ou elx pode ser apenas tímidx em relação ao assunto. Eu não falo muito sobre o assunto com qualquer 1 de meus/minhas amigxs há anos. Como alguém de fora, pode ser frustrante ver as mudanças e se sentir como se estivesse sendo mantido no escuro. Seja paciente com essas mudanças. Se elx se sentiu confortável o suficiente para falar com você, é melhor conversar sobre o assunto do que presumir alguma identidade.

Fazendo perguntas

A melhor coisa que você pode fazer agora é fazer perguntas: para outrxs (como eu, ou outrxs blogueiros), para si mesmx (você ficaria surpresx com o quanto você pode aprender sobre si mesmx no processo), e seu/sua primx (embora não todas as perguntas devem ser dirigidas a elx, não tente invadir a privacidade pessoal).

Sei que você provavelmente vai cometer um monte de erros ao longo do caminho, mas todos começaram do início, e finalmente aprenderam. Contanto que você seja respeitosx e honestx com suas intenções, suas ações serão apreciadas.

Explicando Genderqueer para alguém que não é

Agora, para chegar ao cerne de sua pergunta:

“Eu posso entender o sentimento de que você devesse ser de um gênero diferente do que você foi criado como, mas eu não entendo como seria se sentir de ambos os sexos.”

Como eu disse, comece com algumas perguntas. Eu estou supondo que você é uma menina, e que você se sinta confortável ao se identificar como uma menina. Mas talvez você não goste de usar salto alto, ou cozinhar, ou odeia rosa – rejeitando coisas “femininas”, como você apontou. No entanto, você ainda se sente como uma menina. Por quê? O que faz você se sentir desse jeito? Espero que você possa entender que pode ser extremamente difícil explicar sua identidade de gênero para outra pessoa.

E se eu lhe disser que amanhã você vai se sentir exatamente a mesma, e se ver da mesma forma. No entanto, todas as pessoas lhe veem como um homem, lhe tratam como um homem, e esperam que você faça coisas de homem. É realmente difícil imaginar isso, eu sei, por isso vamos fazer um experimento.

Tente caminhar para o banheiro dos homens. Sério, experimente na próxima vez que você está no cinema. Avalie o seu nível de conforto e o seu senso de segurança. Tente andar no vestiário dos homens. Apresente-se a alguém como “John” – Como se sente (errado, estranho)? Como as pessoas vão tratá-la (com desdém, com surpresa, com o ridículo)? Agora imagine olhando para si mesmo no espelho e tendo barba ou barba por fazer, ou usando um barbeador elétrico. Ninguém está olhando para o espelho, exceto você, mas como você se sente?

Transgênerxs tem uma experiência semelhante: a desconexão entre o seu sexo de nascimento e o sexo com o qual se identificam, além de como as pessoas as veem e o que se espera delxs. Pessoas transexuais que estão dentro do binário encontram conforto no outro lado do espectro: se elxs nasceram homens, elxs se vêem como mulheres, e se sentem bem tendo a aparência de mulheres e sendo visto como meninas ou mulheres.

No entanto, algumas pessoas trans * sentem angústia ou desconforto ao colocar-se no lado feminino, bem como o lado masculino. Não se sentem muito bem em nenhuma caixa. Outras pessoas sentem que pertencem a ambos os lados, ou mais de um lado do que o outro. Esta é apenas uma pequena parte de como as pessoas genderqueer experimentam o seu gênero.

Eu como Trans / Gênero / Queer

Eu escrevi algumas postagens sobre como eu sinto o meu gênero como neutro. E apesar do jeito de eu expressar e representar o meu gênero no mundo ter mudado, a minha identidade de gênero não mudou. Ainda é neutro – e minha experiência dele- é apenas um de uma infinidade de variações de experiências genderqueer e transgênerxs.

N.E. Artigo original: http://neutrois.me/2013/04/17/explaining-genderqueer-to-those-who-are-not/

Confira também o material do Coletivo Safira sobre Gênero-Queer: http://coletivosafira.org/post/49865695756

Written by Hailey

15 Comments

  • Posso dar meu exemplo aqui como uma das tantas formas de “genderqueer” existentes: biologicamente falando, sou uma mulher. Quando criança, esforçava-me para construir uma identidade de gênero masculina porque detestava meus peitos (como era bem gordinha, sempre tive peitos) e as restrições de usar uma saia. Minha mãe também diz que havia um menino na minha sala (por volta dos 3 anos) na escolinha que me batia, e ela acredita que meu “desejo” de ser um menino era para revidar e bater nele de volta.

    Enfim, quando adolescente, descobri-me bissexual e pensei que talvez tivesse a ver com essa “vontade” de ser um garoto. No fim da adolescência, quando eu emagreci mais de 15kg, percebi que minha insatisfação em ser garota estava também no fato de que mostrar o corpo é uma “atitude feminina” e, sendo gorda, eu preferia não mostrar meu corpo e me vestir como homem. Vestindo-me como homem, eu também me apresentava como homem.

    É claro que estou simplificando minhas relações e pensamentos aqui, mas acontece que, mesmo depois de emagrecer, continuei a nutrir um problema de autoestima que não tinha só a ver com os resquícios físicos de alguém que já foi gorda (seios caídos, excesso de pele…), mas com uma “exigência social” de ter que parecer feminina. Não me sinto bem com saias, saltos e frufrus, mas gosto de me arrumar, de usar maquiagem etc. Sempre fui fascinada com androginia e com sujeitos andróginos e me custou mais de 20 anos para perceber que eu buscava um entre-meio, uma forma de ser feminina e masculina ao mesmo tempo, que seria condizente com minha sexualidade. Eu sempre rejeitei avidamente que me chamassem de “bofinho” porque, no meu ponto de vista, eu expressava certa feminilidade além da “masculinidade de uma lésbica”. Até que alguns amigos me disseram que, na verdade, eu parecia um “homem gay quase travesti”. O definição me divertiu tanto e acertou num ponto tão interessante, que optei por trabalhar essa “bagunça” na minha própria identidade. Posteriormente, ainda percebi que sinto atração sexual por travestis e transexuais (tanto FTM quanto MTF)…

    Hoje, se alguém me pergunta o que eu sou, eu digo que sou poligênero (uma mistura de homem, mulher e travesti) e que sou polissexual. O que eu sou, mesmo? Eu não sei! Mas as pessoas têm tanta necessidade de classificar umas às outras que eu adotei como resposta uma classificação quase caótica. Não quero ter de restringir minha expressão física/apresentação pessoal à feminilidade ou masculinidade, e não quero ter de restringir meus possíveis amores também – por isso, sou genderqueer. 😉

    • Vou responder a este comentário, pq vai que alguém decide ser a terceira pessoa a mostrar seu próprio caso como GQ a fim de dar exemplos… e sério, sou louco pra ver uma grande quantidade disso.

      Eu sou bigênero com sobreposição. Isto significa que eu tenho expressão/performatividade masculina (ou primariamente masculina) e identidade/sentimento feminino. Fui identificado como homem ao nascer. Sempre fui assim, mas só encontrei o conceito de genderqueer há muito pouco tempo. Como a pessoa acima, eu também achava que tinha a ver com minha bissexualidade. Considerando que quando criança achava que travesti e gay era tudo a mesma coisa, e que a primeira vez que soube que bissexuais existiam foi numa revista erótica… percebo o quanto a ignorância e a normatividade impedem a gente de se sentir mais como nós mesmos.
      Meu gênero, ou gêneros, está relacionado de perto com minhas orientações. Eu sou bissexual, mas nunca me apaixonei (nem me parece mais possível) por homens. Para a maioria das pessoas, eu sou heteroafetivo por conta disso, já que elas me enxergam como homem e eu gosto só de mulheres. MAS o meu afeto está muito ligado a meu sentimento de gênero feminino! Então na verdade eu sou homoafetiva. Como as pessoas não percebem que orientação sexual ou afetiva (que ainda por cima, pra maioria delas é tudo a mesma coisa, nem nisso eu sou “cis”, se é que me entendem) é uma questão de vetor, é muito difícil pra elas compreenderem que eu sou homoafetiva mas tenho uma relação heteroafetiva, pq minha namorada gosta do homem que enxerga em mim. Isso tudo me faz até questionar a eficácia desses rótulos algumacoisassexual, em mais de um nível. Pelo menos pra nós genderqueers, esses termos tendem a bugar.

    • Essa eterna busca social do binarismo para determinar a qual “tribo” pertencemos ou não. Sofri tanto quanto você as agruras de tentar determinar o que afinal era feito de mim inserido(a) na sociedade; fui repelido(a) por heteros, homos e bissexuais que consideravam meu modus vivendi um misto de indefinição com loucura! Felizmente nunca me deixei levar pelo binarismo das definições e mantive minha personalidade e desejos acima de quaisquer convenções. Respiro aliviado(a) atualmente por saber que essa inquietude é reverberada por aí; não sendo eu insular, o sorriso de Monalisa faz parte de mim agora!

  • Muito interessante leer a minhas palavras no português! Eu falava melhor, mas há muito tempo que não escrevo ou leio. Obrigadx pela tradução.

  • Eu tenho uma dúvida que me atormenta quando leio essas palabras terminadas em “x”:
    Como se pronuncia isso? Como se diria, em voz alta, “primx”? tem como incorporar isso na fala?
    Obrigada.

    • Oi Alejandra, desculpe, a gente acaba aprovando os comentários e deixa para responder depois e às vezes esquecemos.
      O x não ocorre na oralidade, isto é, não tem pronúncia. Uma estratégia que costumo sempre compartilhar é substituir os termos que indicam gênero por “pessoa” que é uma palavra gramaticalmente feminina mas que não tem esse sentido extralinguístico. Também é possível, quando estivermos falando de alguém, usar o nome da pessoa em vez de usar o pronome. Ou seja, em vez de eu dizer que “Alejandra falou tal coisa” e depois substituir seu nome por “ela”, eu repito o nome. Eliminar artigos desnecessários para o entendimento também é útil, como falar “Alejandra” somente, em vez de “A Alejandra”. Entende?

  • 🙁

    Sério que ninguém vai responder? Eu realmente queria saber isso…

    Acho muito ruim esse aspecto da língua portuguesa, que sempre flexiona todas as palavras no gênero. Quero dizer, em inglês, pode-se dizer “The student is tired” e vc não sabe qual o gênero de “student”, mas, em português ou é “A alunA está cansadA” ou “O alunO está cansadO. Acho isso uma barreira difícil de ultrapassar, pois não visualizo uma forma de incorporar a neutralidade de gênero na fala no caso do português

  • Ah, obrigada! 🙂 Pois é, eu uso muito “pessoa” no lugar dos outros “sinôminos” (sujeito, indivíduo, ser humano e até “homem”), mas ainda acho complicado para o resto. Mas vamos tentando! 😉

  • Fernanda Vedrossi on

    Bom dia! Sou professora e estou escrevendo um artigo sobre transfobia no ambiente escolar. Mas estou tento dificuldades pra conceitualizar o guarda-chuva trans*. Você conhece algum artigo? Obrigada

  • Excelente, nunca tinha ouvido falar nisso fiquei encantada.

    Obrigada pela explicação!

    :*

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