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Do individual ao coletivo: pensando sobre transgeneridades, travestilidades e não-binaridades cartaz gênero Full view

Do individual ao coletivo: pensando sobre transgeneridades, travestilidades e não-binaridades

Texto de Raissa Éris Grimm.

falar em:
transgeneridade, em travestilidade e em não-binaridade
não são a mesma coisa.

Cada uma dessas categorias tem uma história, bem específica, que dizem respeito a diferentes inteligibilidades
sobre pessoas que se constróem por fora do gênero que nos foi assignado no nascimento.

Essas categorias falam daquilo que dão visibilidade e compreensão às nossas vivências,
no sentido de coletivizar questões que muitas vezes vivemos como isoladas e individuais

(nesse sentido, há que se ter MUITA cautela com a multiplicação irresponsável de nomes e categorias, quando se dão de uma forma individualista, sem uma preocupação ética com a construção de sentidos coletivos)

Enquanto categorias que coletivizam questões individuais, elas dizem respeito às ALIANÇAS que construímos, alianças pautadas nas necessidades de visibillidade, de reconhecimento, e de apoio mútuo contra situações de opressão vividas em comum.

Se a gente for sentar pra conversar sobre a história de cada uma, a gente vê que elas falam de histórias, vivências, e modos de coletividade mais ou menos diferentes.

Carregam atravessamentos de classe social, de escolaridade, e (especialmente no que se refere à travestilidade) nacionalidade também.
Que não são sempre lineares ou simples.

Mas, embora sejam diferentes, nem sempre é tão simples entender em qual delas nos encaixamos.

Eu mesma não sei, até agora, no sentido que existe me afirmar enquanto trans, enquanto não-binária, ou enquanto travesti.

Minha corpa, ela habita várias fronteiras – inclusive as da lesbianidade, a de me construir sapatão -, habita privilégios de classe e raça, mas ao mesmo tempo opressões bem específicas, que não são meramente individuais.

E aí você se torna uma pária, na vivência de que não é bem-vinda em lugar nenhum – nem nos espaços normativos, nem nos espaços de resistência.

Tem gente que se posiciona enfaticamente contra se identificar com as 3 coisas
– mas bom, essas pessoas sequer moram na mesma cidade que eu, não é com elas que eu vou tá colando em assembléias, ou construindo rodas de conversa, ou compondo atividades nos dias da visibilidade.
Minha ética primeira começa com quem tá aqui, com as pessoas mais próximas.
E comigo mesma, inclusive.

O individualismo é uma merda, mas eu também sei lá que tipo de construção coletiva a gente faz quando a gente evoca uma suposta “voz de todas” pra silenciar vivências mais específicas – ainda mais quando essas vivências nem sejam assim tão específicas assim, falem de uma coletividade que ainda luta por ser visível e inteligível

Eu vejo sim que a gente precisa saber problematizar as peculiaridades de classe e relações contra/neo coloniais em jogo nessa tensão entre pessoas não-binárias e travestis.
mas isso não quer dizer que essas lutas precisem sempre e necessariamente caminhar em separado.

Não sei também o quanto nossas enunciações identitárias individuais deveriam ser tomadas como ponto decisivo pra definir nossas alianças frente à cisnorma.
Nomearmo-nos é importante, mas obcecar-se com os nomes, com as caixinhas, pode ser também um mecanismo de captura que engessa nossas sensibilidades, que engessa nossas potências de existir no mundo.

Talvez a gente precise ainda aprender a fazer política sem tantas respostas, sem tantas certezas absolutas, sem tantas verdades previamente apontadas sobre quem sou eu e quem é a outra..
mas pensar outras formas de pautarmos nossas alianças frente ao que tá aí.

Não sei. Só jogando intuições. É que o me restou, nessa cabeça confusa, vivendo essa corpa cada dia mais dificilmente identificável ou localizável.
beijas.

Imagem: UNILA.

Written by Beatriz