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É possível abolir o gênero? gênero contradição - Fonte: http://calei2copioblog.wordpress.com/2011/02/10/la-inmoralidad-de-los-moralistas-parte-2/ Full view

É possível abolir o gênero?

Texto de Larissa Zanette.

Lembra uma época em que tinha um monte de campanha na televisão anti-racismo que tinha como mote “somos todos da raça humana, somos todos iguais”? Aqui convoco todas as pessoas não-brancas desse grupo pra discutir o quão negativo e silenciador esse discurso é. Apagam-se as identidades culturais e históricas ao mesmo tempo que se mascara o problema do racismo. Existe mesmo só uma raça? É possível, hoje, todo mundo concordar que “não existe diferença” e os problemas vão acabar? Não. Porque a construção da identidade racial é sociocultural e não é a toa que difere de país pra país.
Legal, e o que essa pessoa branca ta falando exatamente sobre isso?

É porque eu quero fazer um paralelo aqui e to pegando um absurdo como gancho pra vocês entenderem outro.

Vou falar sobre a questão de abolição de gênero e o quão próxima a ideia é do que eu falei acima. Vou explicar.
Sim, gênero é uma imposição e a forma como ele vem carregado de signos e estereótipos também. A imposição de gênero ocidental privilegia a masculinidade e, tudo que é visto, percebido ou próximo ao feminino é socialmente tido como ruim.
<3 Isso é basicamente a misoginia (nossa velha amiga da onça). <3
Mas essa imposição é feita por quem? Por uma organização anônima de homens de terno que mandam um infiltrado colar um lacinho na tua cabeça ou uma gravatinha no teu pescoço assim que você nasce? NÃO. Essa imposição é social. A sociedade constrói o que é homem e o que é mulher e as implicações disso.

Muitas vezes a gente se pega nessa pergunta “mas o que é ser mulher?” e eu acrescento mais uma: “o que é ser homem?” Posso dar a mesma resposta para as duas: É UMA CONSTRUÇÃO SOCIAL. Ponto.
E a partir dos signos que a sociedade denomina ser de homem ou ser de mulher que surge a identidade de gênero.
E veja bem, a sociedade não odeia A mulher, a sociedade odeia o SER mulher. Ou seja, o ódio é, na realidade, direcionado a signos e não a pessoas. Louco né? Mas para pra pensar um pouquinho que tu vê que faz sentido. Por isso tanto as pessoas afab* no geral quanto as mulheres trans sofrem com misoginia (cada uma de um jeito diferente).

“Então vamos abolir os signos. Vamos acabar com tudo que tem a ver com gênero e então a misoginia vai deixar de existir!”
Vai? Como? Com que método?

Para acontecer a abolição de gênero real, TODO MUNDO tem que aderir. Não existiria mais homem nem mulher nem nada. Todo mundo seria visto exatamente da mesma forma. Mesmas roupas, mesmos cortes de cabelo, mesmas oportunidades, mesma criação, mesmo banheiro…….
É isso que abolicionista de gênero quer? O quão praticável isso é de verdade?
Você não pode lutar por abolição de gênero se chamando de feminista, porque isso nem mesmo faz sentido, já que nessa lógica, você não é mulher, você só é individualmente você. Não pode lutar por abolição de gênero lutando “pelas mulheres” porque você tem que ser igual aos homens.
“Somos todos o gênero humano, não tem diferença nenhuma entre a gente.” – é ISSO que, na prática, seria abolir gênero. Não adianta espernear, não tem outro jeito nem outra explicação que não passe de lenga lenga.
Responde com sinceridade: Vai dar? Vai ter? Você quer?
Aí ok, você concorda com a ideia, ia ser ótimo, tudo lindo. Como pretende convencer os homens cis a perder os privilégios? Porque olha, tem que ser O trabalho de convencimento. Vai matar todos eles? (se você pensa assim de verdade eu te aconselho a procurar uma ajuda profissional. Ou um pouco de empatia mesmo, porque branca que defende “morte aos homens” numa sociedade que extermina homem negro e pobre é bem paia né?)
É material e realista abolir gênero? Não é.

“mas então vamos lutar para que só exista macho e fêmea”

Então vão continuar existindo signos sociais do que é “ser macho” e “ser fêmea”? Você não está abolindo gênero de jeito nenhum com essa lógica. Não interessa o quão “tratado igual” o macho e a fêmea seriam, isso é reformista, não abolicionista. E continuaria existindo trans de qualquer forma, valeu?
Não vou nem me alongar no fato de que existem pessoas que não são nem macho nem fêmea. Pesquise intersexualidade.

“O que fazer então? Como arrumar a merda misógina que a sociedade fez de si própria?”

Primeiramente, entender que a sociedade constrói o gênero e seus signos. E que isso é mutável e, de forma alguma, uma verdade universal.
Entender que a opressão de gênero que você sofre vem do ódio ao que é lido como feminino. Empoderar, subverter e amar A FEMINILIDADE. (e veja bem, não tem nada de individualista nisso).
A busca feminista deve ser para subversão >a esse ódio< e não uma ideia sem pé nem cabeça, e muito menos materialidade, para abolir gênero, que além de exigir um esforço enorme, não passaria de “mascarar um problema.”

Nós estamos inseridos numa sociedade. Nós temos gênero e vamos continuar tendo, porque gênero é um fenômeno social (que existe em todas as sociedades já registradas, por sinal). Nós não somos e nem queremos ser iguais aos homens cis. Nós precisamos aprender a lidar com a diferença entre grupos. Nós buscamos EQUIDADE, não igualdade. Coletividade, não individualidade.

*afab: Designade mulher ao nascer. Refere-se à mulheres cisgêneras e pessoas trans que tenham nascido com vagina.

Written by Beatriz

1 Comments

  • Olá, gostaria de fazer algumas pontuações sobre o texto. Seu texto aponta um assunto caro e não resolvido entre feministas radicais, que hoje utilizam essa expressão “abolicionistas de gênero”. Bom, primeiro gostaria de mostrar algumas propostas que foram dadas por teóricas radicais, Kate Millet, por exemplo, falou de uma sociedade “unissex”, Atkinson falava da eliminação dos “papéis sexuais” porque nenhuma diferença sexual deveria ser critério para tratamento diferente (ou melhor, hierárquico) para os indivíduos. Outras apostaram na androginia. Não existe consenso e até onde sei, não foram discutidas outras popostas recentemente. Então existe o objetivo, mas não estratégias consolidadas. Acho a utilização da palavra gênero um tanto confusa, até pq boa parte das tradições feministas americanas que estão ainda.em debate fazem uma separação de sexo e gênero, então o corpo fica de fora da discussão. Se nós falamos de abolir o gênero, entendendo esse só como a construção de “homem” e “mulher”, se esquece que o que geralmente está se abordando é uma continuidade entre sexo/gênero/desejo, agora, se entendemos que o “sexo” é tanto o papel social quanto a aparição do corpo sexuado, a abolição deveria ser das dicotomias mais básicas, macho/fêmea.
    É bem provável que quem se diz abolicionista de gênero não esteja prestando atenção aos detalhes. Primeiro, pq entende que seja o gênero que oprime as “mulheres”. A Wittig, por exemplo, fala que as dicotomias (homem/mulher, macho/fêmea) servem para mascarar que existe uma exploração de um grupo de indivíduos sobre outro, e não que a própria dicotomia que cria a exploração.
    Nós estamos todos submetidos ao gênero (não de forma mecânica) como disse, mas se ele é um fenômeno social, então existe a possibilidade de desasparecer sim. Por exemplo, as lésbicas não são nem mulheres e nem homens na abordagem da Wittig, elas superam essa dicotomia. Transexuais transgridem a continuidade de sexo/gênero.

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