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Feminina demais pra ser homem Masculina demais pra ser mulher: sobre identidades trans não-binárias ciborgue Full view

Feminina demais pra ser homem Masculina demais pra ser mulher: sobre identidades trans não-binárias

Feminina demais pra ser homem Masculina demais pra ser mulher: sobre identidades trans não-binárias

Ensaio de Caiene Reinier [1]

caienereinier@gmail.com

Resumo: Este ensaio pretende introduzir e enegrecer [ou confundir ainda mais, rs] sobre o que seriam as identidades trans não-binárias para, desde aí, tentar romper com os estranhamentos e algumas das diversas dúvidas que, possivelmente, rondam a temática. Talvez vá além disso.

Palavras-chave: Gênero. Trans. Não-Binária.

Devir Minoritário

“Qual o sexo do bebê?”

“Não, você nasceu homem/mulher e nada se pode fazer contra esse destino biológico”

“Mãe, é homem ou mulher?” garoto [6 anos?] com a mãe. Muffato, Fevereiro.2016

“E você, é homem ou mulher?” [abordagem] policial. Jardim Universitário, Fevereiro.2016

Poderia continuar listando as inúmeras e i[ni]magináveis expressões que pessoas trans ouvem/leem para, desde aí, fazer emegir, ou tentar evidenciar, algumas tensões e problemáticas de um sistema coercitivo-regulatório-identitário de gênero – também limitado, limitador e pouco criativo/imaginativo – que tenta impor suas vontades sobre aqueles corpos que, supostamente, vivenciam e experimentam suas potencialidades para além das expectativas sócio-político-econômico-culturais do binarismo de gênero.

“[…] Em outra epistême, minha nova voz seria a voz de uma baleia ou o som de um trovão, aqui é simplemente uma voz masculina.” PRECIADO, P. B. [2]

“[…] certas vidas não se qualificam como vidas, ou, desde o princípio não são concebidas como vida, dentro de certos marcos epistemológicos, então, tais vidas nunca se considerarão vividas ou perdidas no sentido pleno de ambas as palavras.” BUTLER, J. 2010 [3]

Me detenho a essas [expressões], por hora, para recordar-nos que, antes mesmo de nossos nascimentos, estamos inseridas em uma trama sócio-cultural que associa nossos fetos genitalizados à expectativas de masculinidades e feminilidades mainstream que minam, ignoram, desagenciam e punem qualquer dissidência/desvio. É dizer que somos acometidas, sem nossos consentimentos, à um sistema coercitivo-punitivo que, supostamente, limitaria as possibilidades de vivenciar e explorar nossos corpos e vidas em duas: como meninos/homens [com pênis] ou como meninas/mulheres [com vagina]. Ignorando, minando e oprimindo, desde aí, qualquer possibilidade não circunscrita a esse [cis]tema.

“[…] O feto já não é feto, é um menino ou uma menina. Essa revelação evoca um conjunto de expectativas e suposições em torno de um corpo que ainda é uma promessa. Enquanto o aparelho da ecografia passeia pela barriga da mãe, ela espera ansiosa as palavras mágicas que irão desencadear as expectativas. A ansiedade da mãe aumenta quando o aparelho começa a fixar-se ali, na genitália, e só termina quando há o anúncio das palavras mágicas: o sexo da criança. A materialidade do corpo só adquire vida inteligível quando se anuncia o sexo do feto. Toda a eficácia simbólica das palavras proferidas pelo/a médico/a está em seu poder mágico de gerar expectativas que serão materializadas posteriormente em brinquedos, cores, modelos de roupas e projetos para o/ a futuro/a filho/a antes mesmo de o corpo vir ao mundo. […] Antes de nascer, o corpo já está inscrito em um campo discursivo” BENTO, B. 2011. [4]

Se a transgeneridade é impossível/impensável, desde a interpretação da ecografia, que dirá das identidades trans não-binárias. Duplamente impossibilitadas/invizibilizadas. Trans e não-binária. Conjunção. Abominável, não cansam de dizer.

“Compreendemos identidade de gênero a profundamente sentida experiência interna e individual do gênero de cada pessoa, que pode ou não corresponder ao sexo atribuído no nascimento, incluindo o senso pessoal do corpo (que pode envolver, por livre escolha, modificação da aparência ou função corporal por  meios médicos, cirúrgicos ou outros) e outras expressões de gênero, inclusive vestimenta, modo de falar e maneirismos.” Princípios de Yogyakarta. [5]

“[…] Sexo é biológico, gênero é social. E o gênero vai além do sexo: O que importa, na definição do que é ser homem ou mulher, não são os cromossomos ou a conformação genital, mas a auto-percepção e a forma como a pessoa se expressa socialmente.” JESUS, J.G. 2011. [6]

Sou uma pessoa trans não-binária assignada “masculino”, “menino” antes de nascer [não sei se mainha fez ecografia em 1994, suponhamos que sim pra manter a coerência desse trecho] e isso significa que nego a assignação dado que não me reconheço, não reforço e não reivindico as expectativas que se criaram sobre o meu feto genitalizado [sou uma pessoa trans, portanto] e não pretendo reivindicar ou reivindico [7] qualquer identidade circunscrita ao binarismo de gênero [mulher/homem], embora me imponham uma, porque, hoje, sou “feminina demais pra ser homem e masculina de mais pra ser mulher”, ou pelo menos é isso que percebo quando no mercado [Muffato] e numa abordagem policial, por exemplo, sou/fui interpelada “é homem ou mulher?”. É uma questão sobre identidade de gênero, não tem que ver com identidade/orientação sexual [8] , diretamente, saliente-se.

Detenhamo-nos, temporariamente, a esses casos:

  • i. Uma criança, aparentemente “menino” [em Brasil, Caiene interpretou assim], possivelmente 6 anos de idade [não me perguntem como chegay à essa estimativa, pois também não sei], no carrinho de mercado com a mãe. Ao me ver passar interpela: “Mãe, é homem ou mulher?”.
  • ii. Um policial escroto, desnecessauro [desnecessário+dinossauro], numa abordagem/revista gratuita, autoritária e desnecessária em uma noite qualquer de Janeiro.2016, no Jardim Universitário, em Foz do Iguaçu: tinha acabado de chegar em Foz, mó cansada/preocupada/fudida/nervosa e teve arma e lanterna gratuíta na minha cara. Sim, estava fumando um beck, e aí? Aplaudir Mujica todo mundo gosta, né? Meu cu. Me interpela: “E você, é homem ou mulher?”.

Não que isso seja relevante – mas ao menos delineia, ou insinua, de como as instituições que “fazem o gênero” (BENTO, 2011), a escola/família e a polícia [do gênero, terrorismo de gênero, heteroterrorismo, cisterrorismo], por exemplo, perpetuam o sistema coercitivo-punitivo do binarismo de gênero quando não perguntam, por exemplo, “é homem, mulher ou ciborgue?”, hahaha. É dizer que essas interpelações revelam que ainda é impensável, no Brasil, para algumas pessoas a existência de pessoas que não são homens ou mulheres [ou que o são e, além disso, são homens com vagina e mulheres com pênis], que são obrigadas a marcar xizinho em opções de protocolos e formulários que não as contemplam e que não dizem o que são de verdade, que são obrigadas a carregarem consigo nome e identidade de gênero “oficiais” que nada tem que ver com o que são, de fato. É dizer que há toda uma trama, para além das expectativas do pré-nascimento, de instituições [as placas dos banheiros [9] inclusive, não esqueçamos] que regularizam e perpetuam esse [cis]tema. É, desde aqui, que penso minha não-binariedade e minha identidade trans: desde o rompimento, desde o constrangimento, desde a dúvida, o caos, desde a dissidência, desde o limbo do cientificamente improvável, desde os olhares de repulsa/dúvida/ódio, desde as más e boas impressões que me atingem, que me atravessam, diariamente, por todo lado, desde o banheiro que utilizo no Barrageiros [PTI, UNILA, Foz do Iguaçu] cuja placa diz: você é deficiente e tem demandas específicas [utilizo o banheiro pensado para pessoas com demandas específicas porque ele é o único, no momento, que não sugere somente identidades de gênero binárias. Há que se comentar sobre a violência simbólica que a arquitetura e as placas sinalizadoras projetam sobre os corpos trans e travestis em geral; particularmente os não-binários, heim? RIBEIRO, S. já problematizou sobre os quartos de empregada enquanto extensão da senzala]. É dizer também que nossas identidades passam, para além da reivindicação discursiva e da performance, por como somos lidas nas ruas, pelo que falam de [ou insinuam sobre] nós; não quero com isso dizer ou corroborar com a ideia de que pra sermos alguma coisa devemos, o-bri-ga-to-ri-a-mente, passar por um processo patologizante de validação de nossas próprias narrativas sobre nossos corpos e vidas ou que pra sermos alguma coisa precisamos que algo/alguém além de nós próprias, exterior, nos permita, ou que não chega reivindicarse. Quero viver e acredito num modelo organizacional em que a autodeclaração seria suficiente para que fôssemos respeitadas, onde não se forçaria as pessoas a submeterem seus corpos e vidas à uma série de violências para serem respeitadas, e onde pessoas mal-intensionadas não utilizariam um recorte desse trecho [ou as ações afirmativas que se criaram/criarão para minimizar desigualdades históricas] pra dizer que basta dizer-se e, pimba [particularmente as pessoas cisativistas transfóbicas que poderão dizer: “Aí ó, depois tem homem “dizendo” que é mulher pra tomar fala/espaço”. Eu só convido pra uma análise mais respeitosa [10] e aprofundada sobre o que temos produzido/proposto]. Este é um ponto bem delicado, como todas já perceberam/sabem. Ainda sobre isso, cabe exemplificar e sugerir a leitura da Lei de Identidade de Gênero Argentina http://goo.gl/AqAiT. Isso pra cutucar todas que ainda não pensa[ra]m sobre isso a pensar porque que aqui do lado de Foz [pra quem não sabe, Foz do Iguaçu é uma cidade na tríplice-fronteira: Brasil (Foz do Iguaçu), Argentina (Puerto Iguazu) e Paraguay (Ciudad del Este)] vigora uma lei estatal, desde 9.Maio de 2012, que é referência mundial em termos de identidade de gênero para pessoas trans e travestis e, desde o Brasil, seguimos numa quase inércia e numa desmobilização em massa medonhas no que diz respeito ao Projeto de Lei de Identidade de Gênero Brasileira http://goo.gl/K6UQSG, desde 2013. Há que se pensar na comunidade de pessoas trans e travestis desde América-Latina, fortificar e criar redes. Salientar que há, novamente, problematizações que emergem sobre esse modelo reivindicativo-estatal, e que são muito importantes pra se pensar o Estado como detentor legítimo da violência – sobre isso, ver CARRARA, citado por COLLING em Stonewall 40+ o quê no Brasil? https://goo.gl/Y5hLLM

“[…] O devir minoritário quanto ao gênero é trans porque é a transgeneridade que trabalha politicamente a negação de um contrário: nós pessoas trans negamos a negação que se dá a partir de uma expectativa quanto ao gênero e, com isso, a partir da consideração desta totalidade, afirmamos positivamente a singularidade de nossas vidas.” BAGAGLI, B. P. 2016. [11]

Muitas podem estar se perguntando: tu não és travesti?

Só digo que não estou à autura dessas pessoas-potência para reivindicar essa identidadepotência há muito violentada, discriminada e escravizada no Brasil. E, de fato, a identidade travesti poderia ser entendida desde essa divisão analítico-didáticometodológico-político-discursiva “cis-trans / [não]binário”, desde as identidades trans não-binárias [com recortes em classe e raça]; mas bem da verdade, discutir desde aí não muda o fato, por exemplo, de que cerca de 90% das mulheres trans e travestis permanecem/estão na prostituição, não muda o fato de que o Brasil é o país em que mais se assassina pessoas trans e travestis, no mundo; o fato de pessoas trans e travestis que precisam de ou solicitam acompanhamento médico em suas transições continuarem desassistidas e negligenciadas [daí trazer a tona as problemáticas da auto-hormonização, do silicone industrial, etc (e seus vários aspectos: potente na perspectiva da autoexploração e autonomia dos nossos corpos e vidas; perigoso em outros sentidos, sobretudo médico-morais; negligente, dado que quem, hoje, deveria prezar e responsabilizar-se pela saúde coletiva da comunidade trans e travesti, particularmente, não o faz)]. Não devemos corroborar com o discurso equivocado de que “prostituição é ruim e que morreu porque tava se prostituindo”, porque esse discurso é culpabilizadortransfóbico e mentiroso, devemos sim evidenciar ou sublinhar o óbvio: não há, no Brasil, ações afirmativas que atingem a massa popular no que diz respeito à integração da comunidade de pessoas trans e travestis no mercado de trabalho “tradicional/formal”; é dizer que a prostituição não é, ainda, parte de um bloco de possibilidades/oportunidades/escolhas trabalhistas, pelo contrário, é “A” possibilidade, única [Travesti/MulherTrans (se e só se) Prostituição]; particularmente para aquelas pessoas que não retificaram ou não pretendem retificar [como se o erro fosse nosso] os documentos de identificação estatais. É dizer que ainda que estejamos hiper-mega-super preparadas, no que diz respeito à conhecimentos técnico-específicos, ainda que tenhamos formação acadêmica “5 estrelas”, continuamos desempregadas no Mercado de Trabalho “formal”. Não é, pra vocês, curioso que não vejamos pessoas trans e travestis realizando mesmo os serviços históricamente considerados como subempregos [“formais”], não as vejamos com frequência nas salas de aula [e aqui poderíamos discutir inclusão e, sobretudo, permanência estudantil. Particularmente de como as instituições de ensino superior tem pensado os editais sem outros recortes para além dos sócio-econômicos]? Acham mesmo que é por falta de esforço? Ou tem que ver, também, com um [cis]tema transfóbico que ignora ou desconsidera qualquer potencialidade nas pessoas trans e travestis simplesmente porque essas pessoas são trans/travestis? É dizer que, historicamente, nossas potencialidades foram minadas e fomos empurradas, muitas, pro limbo, pro escuro da noite, porque grande maioria das pessoas optou pelo essencialismo e pelo preconceito invés da possibilidade de expansão perceptiva sobre o mundo e as coisas. Muitas de nós, contra nossas vontades, entre morrer de fome ou de apanhar [das pessoas que, dizem, deveriam nos proteger e amar, inclusive] e nos submeter à prostituição como meio de subsistência/renda, por exemplo, preferimos a última: pelo menos andamos com nossas próprias pernas e desde aí resistimos, desde as vulnerabilidades e insegurança, muitas das vezes; desde a expulsão das instituições de ensino básico/fundamental até a negação de nossas identidades e nome e demandas e tudo. E não aceitamos que nos culpem por isso. Nesse sentido que reivindica-se mais oportunidades para além da prostituição, para todas as pessoas trans e travestis. Por dignidade e respeito no tratamento de nossas vidas e saúde. E este ensaio é, também, um chamado para que todas nós comecemos a pensar mais de perto sobre as pessoas há muito invizibilizadas e oprimidas simplesmente por serem o que são: pessoas e trans/travestis [e negras e pobres e gordas e pessoas com necessidades especiais e/ou demandas específicas e analfabetas e etc – o buraco vai só abaixando e se não agirmos em massa e recordarmo-nos de Audre Lorde em Não há hierarquia de opressão [12], o transfeminicídio e o genocídio da comunidade trans/travesti e da comunidade preta, particularmente, continuarão em seu curso natural-histórico].

[Ressalva] Sim, existem pessoas trans empregadas e em bons cargos pelo mundo. A pergunta que se faz é: quantas? E o que isso significa?

[Parênteses] A bem da verdade, queremos mesmo trabalhar 8/12/24 horas por dia e receber pouco pela maior preciosidade que temos? Tempo. É fácil falar, sim, de barriga cheia, desde aqui da cama quente e do computador e do conforto que meus vários privilégios possibilitam, desde a Universidade, desde as ações afirmativas que me sustentam, desde as pessoas maravilhosas que me ajudam. Mas a pergunta é bem sincera: que tipo de sociedade pensamos pra nós? Pensar na regulamentação da Prostituição, no Brasil, e largar esse discurso meio que paternalista sobre a autonomia das pessoas travestis e pessoas trans também me parece um bom caminho. É dizer que precisamos muito aprender e somar com todas vocês, putas travestis. <3

“Eu gostaria de ter percebido antes e realmente não fazer nenhuma carreira acadêmica, não estudar na universidade, e que notassem que não o fiz. Lamento muito que me liguem ao pensamento intelectual, que acreditem que eu seja uma acadêmica. Dei-me conta tarde do pouco valor que isso tem e de quão pouco interessante é o que se produz na academia, especialmente em Buenos Aires. Se voltasse a nascer, seria boxeadora profissional, ou me dedicaria à música ou ao trabalho sexual, para fazer muito dinheiro, porque fui muito linda e feminina quando jovem e não aproveitei isso e o desperdicei sem fazer grande caso.” SILVESTRI, L. [13]

“¿Qué otros agenciamientos, formas de desear y afectarse, experimentaciones, proximidades y lejanías especialmente no humanas se niegan, se invisibilizan, se ocultan, y finalmente desaparecen cada vez que pensamos que la única existencia social es la de una sociedad estatal con derechos a trabajo, vivienda, salud, familia y propiedad para todos y todas?”. SILVESTRI, L. [14]

Sobre travestidades e prostituição, ver MOIRA, A. https://goo.gl/HdFWC5.

Quando falamos em identidades e pessoas trans, é recorrente que se pense nas explorações/modificações corporais, no acionamento de próteses-dispositivos que, supostamente, “aproximariam” esses corpos trans à suas identidades sócio-políticas, supostamente [15], desviadas. Cabe ressaltar, nesse sentido, que procedimentos estéticos não são necessários para que uma pessoa seja trans. E recordar que a lógica de “corpos errados” [16] e “corpos certos” é cissexista [ou transfóbica, se preferirem]. É dizer que há pessoas trans e travestis que não desejam, ou não tem recuros [financeiros, particularmente], ou não precisam ou decidem não recorrer à próteses-dispositivos e que, nem por isso, deixam de ser o que são: pessoas trans/travestis. Ainda, cabe relembrar o alerta https://goo.gl/JhnQkQ que NERI, N. [2016] faz sobre como cobramos que essas pessoas [AMAN [17], particularmente/sobretudo], todas elas, enquadrem-se em um tutorial de transgeneridade imaginário; muitas vezes elitistas.

Sobre saúde e hormonização [18], particularmente, digo que minhas projeções não tangenciam uma Terapia Hormonal; é dizer que ainda tenho receios sobre a administração de hormonas no meu corpo, há muito desgastado e vulnerabilizado por tecnologias de gênero já suficientemente violentas. Muito influenciada, também, pelas problematizações desde a dissidência/contraconduta sobre o biopanóptico do estado e o poder médico [19]. E é evidente que isso acarretará inúmeras discussões sobre um suposto “ser trans” standart, ou “o que é ser trans, de verdade?”.

“[…] hormonização sintética é coisa séria. Pra tocar um processo assim, é importante ter bastante nitidez sobre os motivos pelos quais estamos fazendo isso. Começar uma Terapia Hormonal pra “se sentir trans de verdade”, pra ganhar figurinha e lugar de fala dentro da militância – provavelmente é um péssimo motivo. Quem vai viver todas as alterações físicas, alterações de humor, na dinâmica energética do corpo, na libido, fora todos os riscos de saúde que podem estar implicados – são vocês. Passar por isso, em última instância, precisa ser por vocês, em nome do que vocês querem, desde uma relação bem construída com o corpo de vocês, e uma boa reflexão sobre a vida que vocês querem construir. Lembrem que – especialmente pra pessoas AMAN – as alterações físicas mais significativas são LENTAS. Demoram. Os “efeitos colaterais” chegam antes. E podem ser bem desagradáveis, especialmente no início.

[…] Mas sério: não façam isso por “querer pertencer a um grupo”. Hormônio algum vai tornar vocês “mais trans” ou “menos trans” do que ninguém. Lembrem que existem várias formas diferentes de transicionar. E que, além disso, a hormonização não vai dar por si só mais legitimidade a vocês dentro de qualquer ativismo. Vocês podem construir essa aceitação de outras formas (por exemplo: militando com mais ética, cuidado e seriedade), que com certeza vão ser muito mais positivas pra todo mundo. Mas não sigam pela hormonização sintética sem a certeza de que é por vocês, pra vocês.” SÔNICA, E. 2016 [20]

Me faltam, apenas, prótesis mamárias [não, não é pré-requisito pra ser trans, tampouco não binária, ok?]. Tamanho bitch, tu é dixtruidora mexmo viu?. Elas terei, não sei quando mas já as imagino. Se pá daqui uns dias desencano ou fico mais decidida. Na verdade me interessa mais somar na luta por um precedente jurídico [21] já evidenciado por [Dyva] Indianara Sophia Fenix https://goo.gl/r0uAr5 que as prótesis, em si. E porque acho que me cai bem, vai dar um up na auto-estima e vai ficar lindo, espero.

“[…] Criar um corpo ético, não moral. Criar um corpo que experimenta e pode cada vez mais, um corpo que escolhe tudo o que lhe convém sempre da melhor maneira possível, um corpo feliz, satisfeito, realizado. Deixar definitivamente esta corporeidade moral, que julga, cultua, edipianiza, idealiza, esquece de si, se despreza, tem nojo, medo, vergonha. É possível abrir todo um novo plano de sensações novas dentro de nós, um novo topos, uma nova região.” TRINDADE, R. 2013 [22]

Me sentirei completa, acho. Ou não, como http://goo.gl/IhGjFc diz.

“Me construo demoníaca dançando entre chamas que recusam qualquer salvação.” SÔNICA, E. 2016

Queria chegar no ponto onde as diferenças serão celebradas. “A verdade”, por aqui, é que as identidades trans não-binárias são tão diversas quanto as identidades cis e trans binárias. É dizer que do mesmo modo que não há um “ser homem/mulher, cis ou trans” homogêneo, não há um “ser trans não-binária”. Essas categorias identitárias são tão diversas quanto imaginável. E que maravilha. A tentativa é trazer à tona informações pra quem ainda não sabe que somos pessoas com um milhão de dúvidas e medos sobre nós próprias e pedir mais respeito, dignidade, empatia, companheirismo e paciência.

Ajude a fazer emegir essas vozes-potência há muito silenciadas. Ficam, aqui, mais algumas sugestões-potência: Éris Sônica, Amanda Palha, Monstra Erratik, Hailey Kass, Bia Pagliarini Bagagli, Jaqueline Gomes de Jesus, Helena Vieira, Íka Carneiro, Viviane Vergueiro, Luciano Palhano, João W. Nery, Daniela Andrade, Ana Flor, Maria Clara Araujo, Travesti Reflexiva, Luiza Copietters, Transfeminismo, Laerte Coutinho. Tem muito mais. Descobre pra gente e compartilha. Segue tudo. 😉

Notas

[1] Caiene Reinier, 21. https://goo.gl/AyVQNe. Bixa não-binária, preta. Falo desde Foz do Iguaçu, Paraná, Brasil. Falo desde uma perspectiva brasileira influenciada por leituras diversas sobre identidades trans, desde minhas perspectivas e vivências, também, que não são neutras porque não existe isso de neutralidade. Não pretendo que este ensaio seja tomado como cartilha standart sobre identidades trans não-binárias, também não me coloco como porta-voz de nada nem ninguém além de mim própria. É dizer que as pessoas são tão diversas quanto possível e entendem a si próprias de igual forma, e que maravilha isso. Também não me detive, ainda, sobre todas as possíveis implicações dessa escrita. Desconsidero outros arranjos de sociabilidade [que não os metropolitanos-contemporâneos-habituais desse modo de vida que a gente vê por aqui] onde a ideia de identidadea trans e não-binárias sequer existe. A pirataria está permitida. Cortem, desembolem, embolem, rasguem, risquem. Não precisa citar fonte, só se quiser.

[2] PRECIADO, P. B. Otra voz. http://goo.gl/VNVJYH. 23.Março, 2016. 18h40’19”.

[3] BUTLER, J. Marcos de Guerra: las vidas lloradas. 2010, p.13. https://goo.gl/4FmMkN

[4] BENTO, B. Na escola se aprende que a diferença faz a diferença. Estudos Feministas, Florianópolis, 19(2): 336, maio-agosto/2011. p. 550. https://goo.gl/4twjZv. Acesso em 23.Março, 2016. 01h29’31”.

[5] http://goo.gl/pJESK5, p.7. 23.Março, 2016. 01h28’25”.

[6] JESUS, J. G. https://goo.gl/Ap8YkF, p.6. 23.Março, 2016. 03h10’29”. Sobre uma perspectiva crítica à essa definição, ver BUTLER, Judith. Problemas de gênero: Feminismo e subversão da identidade. (2003). Tradução de Renato Aguiar. Rio de Janeiro, RJ: Ed. Civilização Brasileira, 1ª Ed.

[7] Sobre a problemática: se o discurso, se a reivindicação “chega” pra se ser alguma coisa, ver PALHA, A. inclusive os comentários de https://goo.gl/0VgWdV 25.Março, 2016. 14h06’23”.

[8] “Compreendemos orientação sexual como uma referência à capacidade de cada pessoa ter uma profunda atração emocional, afetiva e/ou sexual por pessoas de identidade de gênero diferente, de mesma identidade de gênero ou de mais de uma ou nenhuma identidade de gênero, assim como ter relações íntimas e/ou sexuais com essas pessoas.”. Princípios de Yogyakarta, p. 7.

[9] Ver PRECIADO, P. B. Sujeira e gênero. http://goo.gl/lpRKvB. Acesso em 25.Março, 2016. 17h43’25”.

[10] Sobre o que acontece quando x subalternx fala, ver ERRATIK, M. em Pode um cu mestiço falar? https://goo.gl/jTq0tr 25.Março, 2016. 19h08’12”.

[11] https://goo.gl/JLdjHb 24.Março, 2016. 19h41’18”.

[12] LORDE, A. Não há hierarquia de opressão. http://goo.gl/NfhXcz 25.Março, 2016. 17h12’06”.

[13] Citadx por Contracondutas da AIDS em A insurreição dos saberes sujeitados. http://goo.gl/zv5BSz. 25.Março, 2016. 18h06’08”.

[14] SILVESTRI, L. em entrevista http://goo.gl/SflWgU 25.Março, 2016. 10h09’48”.

[15] Note-se que utilizo, recorrentemente, o “supostamente”. Sobre as tais suposições, aqui, tento referir-me aos contradiscursos sobre a [olha só, novamente] suposta “naturalidade” da cisgeneridade. Sobre isso, ver B. P. BAGAGLI, H. KASS, V. VERGUEIRO.

[16] Sobre isso, ver REINIER, C. 2014. https://goo.gl/fZXwr7 25.Março, 2016. 14h01’57”.

[17] Assignadas Masculinas Ao Nascer

[18] Sobre hormonização e cissexismo, ver BAGAGLI, B. P. https://goo.gl/pv1QTS 25.Março, 2016. 16h01’11”.

[19] Ver Contracondutas da AIDS e Repensar a AIDS: http://goo.gl/nL8hXr e https://goo.gl/4R7WKr

[20] SÔNICA, E. sobre hormonização sintética. https://goo.gl/Rcvp2E. 23.Março, 2016. 21h24’33”.

[21] Se condenada, por ter seus seios – lidos como femininos – mostrados em público [atentado ao pudor] sendo uma pessoa trans AMAN sem documentos retificados [Masculino/Homem, para o Estado] por um lado se reconhece sua identidade de gênero: não-masculina. Por outro reafirma [ou sublinha o óbvio] que, no Brasil, mulheres e homens não são iguais perante a lei [contradição constitucional]: porque homens, supostamente, podem andar sem camisa na rua/praia, por exemplo, e isso não é considerado atentado ao pudor. Estamos falando de criminalização das corporalidades, [trans]misoginia e machismo. Penso meu corpo desde aqui, também. Corpopolítico. Corpo-intervencionista. Corpo-necessário. https://goo.gl/ctPjbb

[22] TRINDADE, R. Espinosa – que pode o corpo? http://goo.gl/LmiDZm 25.Março, 2016. 12h21’29”.

Imagem: hypescience.

Written by Beatriz