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Happy Valentim moça com livro Full view

Happy Valentim

Por Paul B. Preciado. Traduzido e adaptado por Inaê Diana Lieksa

 Queria celebrar o 14 de fevereiro confessando a vocês um segredo. Digamos que este será o meu presente de São Valentim. Este verão deixei de crer no amor. No amor de casal. Não foi algo progressivo. Foi um golpe seco: a ordem das minhas ideias mudou e o meu desejo se viu radicalmente modificado. Ou quem sabe foi o contrário? Me descobri desejando de outro modo e as ideias caíram por seu próprio peso. Por mais que eu seja com relação a toda teologia ateu e em filosofia metodologicamente nominalista, o amor havia até então resistido a hermenêutica da suspeita e a perseguição da desconstrução. pelo lado da virtude, a retórica do amor persistia em mim como um resto neoplatônico de anos de treinamento metafísico. Me afetaram também, sem dúvida,as fanfarrices de São Paulo, que se liam nos casamentos católicos, quem sabe se como palavras de ânimo, como mandato, ou como encantamento. Não tão longe de São Paulo como deveríamos, nas micropolíticas gays, lésbicas e trans, se falava do “direito a amar”, e voltava como um rumor a afirmação de que o importante é que “duas pessoas se amem ainda que sejam do mesmo sexo”. E assim o fluído normalizador do amor se derramava sobre nós, os párias da sexualidade e da diferença sexual.

 Se é certo, para quê negá-lo, que tudo começou quando me separei da pessoa com a qual imaginei que viveria para sempre – fui com ela até as últimas consequências da ideologia do amor, abraçando todos os efeitos secundários de seu sistema material e discursivo-. Mas nunca cheguei a fazer do campo da dor que criou a ruptura um aparato de verificação que serviria para algo mais que para destroçar as minhas manhãs. Mais ainda, a sensação de fracasso haveria alimentado a utopia. Porém, foram as conversas com os meus amigos próximos e não tão próximos em busca de resposta para a minha própria confusão as que desmontaram a hipótese do amor. Os dados que fui acumulando foram como estudo de campo empírico que, ao estilo Feyerabend, permitia, se não definir o certo, em todo caso afirmar que algo não é verdadeiro.

 Ao lhes contar da nossa separação, muitos de nossos amigos manifestaram seu desejo encoberto de se separar, e ao mesmo tempo sua falta de coragem para fazê-lo. A maioria deles me diziam em segredo que deixaram de foder fazia tempo, ou que tinham uma amante, e ao falar da pessoa que supostamente amavam, manifestavam um rancor infinito sobre o outro, como se o casal fosse uma reserva ilimitada de frustração e aborrecimento. Minha perplexidade era enorme: me parecia então que todos eles deveriam se separar e não nós. E, porém, quem se separou fomos nós. Todos eles continuaram juntos: elegeram o amor como instinto de morte.

 Nós decidimos não crer nesse amor para salvá-lo da instituição casal. Escolhemos a liberdade no lugar do amor. Platão era um trapaceiro, São Valentim um criminoso, e São Paulo um mero publicitário.Uma alma cortada em duas metades que logo se encontram? E se, no lugar de ser cortada simetricamente, a alma fosse cortada em dois pedaços desiguais? E se, no lugar de em duas metades, se dividisse em 12568 pedacinhos? E se não tivermos uma alma, senão oito como afirmam outras cosmologias? E se a alma for indivisível? E se não houver alma? Depois, numa manhã de junho, me levantei com só uma ideia na cabeça: o amor é um drone. E enquanto pensava em mudar o meu nome pelo de Paul, me deparei comigo mesmo escrevendo uma versão punk da “Carta aos Coríntios”.

 Copio agora diretamente do meu caderno como quem transcreve as palavras de um estranho: “O amor é cruel. O amor é egoísta. O amor não entende da pena alheia. O amor sempre golpeia na outra face. O amor rompe. O amor destrói. O amor é grosseiro. Uma tesoura é o amor. O amor corta. Um machado é o amor. O amor é mentiroso. O amor é falaz. O amor é ganancioso. Um banqueiro é o amor. O amor é preguiçoso. O amor é invejoso. O amor é orgulhoso. O amor quer tudo. Uma bomba de extração é o amor. O amor é voraz. O amor é abstrato. Um algoritmo é o amor. O amor é mesquinho. Uma presa é o amor. Leviatã é o amor. O amor é soberbo. O amor queima.  Um pavio é o amor. O amor é agressivo. O amor é colérico. O amor golpeia. Uma guilhotina é o amor. Um chicote é o amor. O amor é caprichoso. O amor é falso. O amor é impaciente. O amor é invejoso. O amor não conhece a moderação. O amor é vaidoso. O amor é um drone. E São Valentim um GI que se diverte nos disparando através de ecrãs.”

 O amor não é um sentimento, senão uma tecnologia de governo dos corpos, uma política de gestão do desejo que captura a potência de atuar e de gozar de duas máquinas vivas e as põe ao serviço da reprodução social. O amor é um bosque em chamas do qual não poderá sair sem que se queimem os pés. O fogo e a pele calcinada são as promessas de São Valentim. Tome-os e corre.

 Isso foi o que fizemos: destroçar a ficção normativa do amor e correr. Cada um à sua maneira, desde a precariedade, tentamos agora inventar outras tecnologias de produção de subjetividade. E agora que já não creio no amor, pela primeira vez, estou preparado para amar: de forma finita, imanente, anormalmente. Ou, dito de outro modo, sinto que começo a me preparar para a morte. Feliz São Valentim.

Nota: O dia de São Valentim, que é comemorado todo 14 de fevereiro, se trata do dia dos namorados, muito popular em alguns países.

Fonte: http://paroledequeer.blogspot.com.br/2015/02/happy-valentine-por-paul-b-preciado.html 

Imagem: Moça com o livro,  de José Ferraz de Almeida Júnior.

Written by Beatriz

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