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Nesta era de extremos qual o nosso papel para não alimentar os extremos? Butler Full view

Nesta era de extremos qual o nosso papel para não alimentar os extremos?

Por Aline Freitas.

Eu realmente não gosto de relegar personalidades como ídolos. Esse é em muito um caminho de frustração. Não precisaria mas o que muito me admira em Judith Butler, além de ser uma das filósofas mais importantes do nosso tempo, é a coerência, o posicionamento político, a coragem de se posicionar neste momento tão delicado. Sua visão sobre a Questão Palestina, sobre o estado de Israel, sobre o avanço do ultra-conservadorismo, sobre a desigualdade social e global e não apenas no assunto que a tornou conhecida: gênero e sexualidade.

Filósofos ativistas políticos não são novidade. Serem alvos de ataques de ultra-direita também não é. Sartre, Beavouir, Foucault foram alvos de grupos de direita. E mesmo terrorismo. O apartamento de Sartre foi alvo de explosões por conta de sua posição contra as tropas francesas na Argélia. O processo político pelo qual passamos é global, simultâneo. Há alguma articulação embora não necessariamente articulada em conjunto mas como em outros momentos da história há uma sincronia entre o ultra-conservadorismo que brota aqui com o ultra-conservadorismo no restante da América, Europa, África e Ásia. Óbvio que há inúmeras diferenças entre a natureza dessas forças direitistas, mas no caso do Brasil estamos numa área de influência política “ocidental” (as aspas por conta do sentido não-geográfico).

Assim como nos outros cantos, o avanço da ultra-direita se faz no contexto da desinformação, das notícias falsas, da mentira. Mas também das meias-verdades, dos interesses de quem tem o domínio dos meios de comunicação. Muito me incomoda a disseminação de conteúdo falso de ultra-direita, mas na mesma medida me incomoda a disseminação de conteúdo falso que se pretende ser progressista. Ser capaz de filtrar a informação, de se questionar sobre cada notícia, cada nota “quem escreveu isto?” “qual o interesse?”. E isso vale obviamente para qualquer conteúdo desconhecido mas em igual medida a qualquer notícia vinda dos grandes jornais. Vi amigos que do meu coração, sei que tem todas as ferramentas para serem pessoas esclarecidas, caindo em armadilhas dos grandes meios de comunicação, de usar um jornal como “O Globo” como fonte primária e absoluta de informação. Assim como vejo parentes, amigos, colegas compartilhando conteúdo falso, formando opinião com links de internet surgidos dos lugares mais obscuros. E não estou falando aqui de pessoas de ultra-direita, sem sensibilidade, sem senso de justiça social. São pessoas sensíveis!

Me refiro às notícias falsas para voltar à Butler justamente pelo que a tornou alvo de grupos furiosos e extremistas. Mas da mesma forma vejo pessoas ligadas a grupos de diversidade criticando a autora por interpretações de conteúdo que não condizem com o que eu conheço do trabalho dela. Não sou da área da filosofia, não sou da área das humanas. Sou da área da Tecnologia da Informação, trafego pelas humanas por puro prazer. Mas nem tão distante já que me sinto bem casada com as questões de lógica. Filosofia não é uma área fácil. E não deve ser. É conteúdo analítico, abstrato. Conhecimento facilmente digerível não é trabalho sério, é trabalho para agradar público. Interpretar o trabalho de Butler exige dedicação, leitura mas principalmente sair do lugar-comum. E é o que se precisa para entender o atual estado de coisas. O benefício da filosofia é o de pensar fora-da-caixa. É o caminho de se colocar também como responsável pela sociedade em que vivemos.

Nesta era de extremos qual o nosso papel para não alimentar os extremos?

Imagem: antihomofobi.org

Written by Beatriz

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