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O que é cisgênero?

Traduzido por Ivone Pita. Original disponível em: http://weheartit.com/entry/114229468/in-set/21628459-girl-power?context_user=Mycenas
Texto da imagem traduzido por Ivone Pita. Original disponível em: http://weheartit.com/entry/114229468/in-set/21628459-girl-power?context_user=Mycenas

Falar sobre cisgeneridade ou que significa o termo cisgênero é falar sobre diversas lacunas que envolvem o conceito de gênero/sexo. É falar sobre abjeções, normatividades, discursos de resistência, equívocos, alteridades, lugares de falas e também sobre questões linguísticas que a dicotomia cis/trans* envolve ou propõe. Neste texto, pretendo abordar o termo cisgênero principalmente em sua faceta analítica/política (muito embora sua faceta subjetiva muitas vezes se mesclar com ela).

Acho que posso começar a falar sobre o que é cisgênero apontando um fato curioso: de longe, nas estatísticas deste blog, os termos de busca mais utilizados se relacionam com a partícula cis. “O que é cis?”; “O que significa cisgênero?”; “O que é cissexismo?”; etc. estão mais ao topo do que termos envolvendo a partícula trans, como “transgênero”; “transexual”; “transfobia”; etc. O que isso significa?

Digo que é um fato curioso por, a princípio, um blog destinado a tratar das questões das pessoas transgêneras, de nome TRANSfeminismo, ser mais conhecido e procurado por termos que envolvem a cisgeneridade. Seguindo uma lógica mais imediata, esperaríamos que quem procurasse um blog destinado ao transfeminismo, procurasse acerca das temáticas transgêneras em si mesmas. Mas não é exatamente isso o que acontece, já que nunca é possível pensar a transgeneridade em si mesma; sempre, ao tocar em qualquer coisa que remeta a um “trans*” estaremos remetendo a alguma coisa “cis”. Isso é justamente o que o transfeminismo traz de “novo”. Mas então por que exatamente o uso de cisgênero é tão importante?

Julia Serano, em Whipping Girl FAQ: perguntas freqüentes sobre cissexual, cisgênero e privilégio cistraça um paralelo entre o uso de cisgênero com o de heterossexual e suas consequências políticas, já que se tornou possível não apenas nomear o “normal”, mas também o próprio sistema que gera as “anormalidades”, e com isso, pensar formas de resistência a esse sistema. Respectivamente, o vetor que envolve a orientação sexual e identidade de gênero são o heterosexismo/homofobia e cissexismo/transfobia. Percebam como formas de resistência a essas normatividades se relacionam com o reconhecimento do “Outro”, a alteridade, no que toca diretamente à língua. É através de palavras novas surgidas pelas vozes de pessoas marginalizadas através destes rótulos (homossexuais/transgêneros) que se desmascaram essas relações de poder, ao colocar o “normal” e o “natural” em uma nova relação com o “anormal”, uma relação agora simétrica através de novos rótulos (heterossexuais/cisgêneros).

São estes significantes que tornam possível o reconhecimento do Outro como uma variável tão legítima quanto à norma, que passa agora a ser designada com um rótulo, suprindo uma lacuna que por vezes é/era preenchida com termos naturalizantes. Quando alguém prefere se designar enquanto pessoa “biológica” ou “natural” para se dizer não-trans* (ou no passado, como não-homo) está se tentando preencher essa lacuna por meio de uma identificação delirante. Esta identificação delirante tenta continuar remetendo o Outro (as identidades trans* atualmente, e no passado, xs desviantes da norma heterossexual) ao seu lugar de abjeção.

Neste sentido, apontei no texto Apagamento das Ids trans e não-cis: como empoderá-las como a luta referente à identidade de gênero está aquém da luta referente à orientação sexual meramente através da constatação na assimetria do uso dos termos cisgênero e heterossexual. Quero apontar como essa inferiorização da luta trans* impacta em nossas vidas e está diretamente relacionada com a (ausência) do reconhecimento e uso do termo cisgênero. Assim como muito provavelmente na época em que se começou a circular o termo heterossexual em que pessoas heterossexuais certamente (puderam) achar essa classificação pouco importante, inútil ou por vezes ofensiva, hoje vemos isso se repetindo, só que agora com o uso do termo cisgênero e seus derivados. O termo heterossexual já se encontra consolidado no léxico da língua, tanto é que já se encontra dicionarizado; já cisgênero (ainda) não.

Hoje em dia soaria absurdo alguém se contra-identificar como “biológico” para se dizer não-gay e arrisco a dizer que é por isso que a homossexualidade não se encontra mais nos manuais de doenças como uma doença, ao contrário das identidades trans*. Digo também que a possibilidade de uma pessoa cis não se identificar enquanto cis é em si um próprio privilégio cisgênero.

Tentar pensar a transgeneridade em si mesma (recalcando ou não usando o termo cisgênero) é o que fazem, por exemplo, xs psiquiatras/profissionais psi , que essencializam e patologizam as identidades transgêneras, e algumas vertentes do feminismo dito radical.  Isso decorre devido a uma falta de reconhecimento do “Outro”, que são as próprias pessoas trans*, produzindo anormalidades e marginalizações que servem a interesses ideologicamente marcados: aos primeiros interessa o controle biopolítico dos corpos e identidades trans e aos segundos, a supremacia das questões referentes às mulheres cisgêneras (e por vezes, de mulheres brancas, ocidentais, heterossexuais e de classe média) pautadas no feminismo.

As pessoas cisgêneras não sentiram e não sentem necessidade de se designarem enquanto cis. São as pessoas trans* que estão apontando e apontaram esta necessidade, e possibilitando, por exemplo, não apenas pensar formas emancipatórias e descolonizadas de se entender a transgeneridade, mas também como meio de se criticar as formas como foram representados os sujeitos “homem” e “mulher” na antropologia, nos estudos de gênero/feminismo e em qualquer outra materialidade discursiva.

Isso significa dizer que é possível fazer uma crítica transfeminista a qualquer estudo/teoria – ou melhor dizendo, a praticamente todos os estudos/teorias já produzidos, no sentido que a categoria cisgênera só começou a ser utilizada recentemente e em pouquíssimos e restritos espaços não legitimados enquanto produtores e legitimadores de conhecimentos e verdades – que envolva gênero/sexo/sexualidade em que não se encontra cisgênero enquanto categoria analítica. Não se trata de jogar fora tudo o que o feminismo, a psicanálise, marxismo, etc. produziram sobre gênero, mas apontar suas lacunas ou colonizações referentes à questão transgênera. Igualmente proporcionar contribuições a todas as áreas de saber e ativismo político (em especial as afeitas aos estudos de gênero e ao feminismo), ao incluir um novo vetor intra-gênero que se referem às questões e existências de pessoas transgêneras, que passarão a integrar as análises intersecionais que levem em conta a classe, raça, gênero, etc.

Trata-se sim de apontar certas opacidades da língua que o reconhecimento da cisgeneridade passa a permitir. Por exemplo, quando se usa termos como “mulher” ou “homem” para referenciar sujeitos no mundo como evidência de sentido de um sujeito universal, que é o cisgênero, passamos o questionar a naturalidade desta relação. Neste sentido vale dizer que a língua faz um determinado recorte do real e o termo cisgênero permite um recorte diferente deste real, na medida em que desestabiliza relações de sentido já consolidados das categorias “homem” e “mulher”, proporcionando a inclusão das identidades trans* como hipônimos nestas categorias.

Por fim, quero reforçar a ideia de que não existe mais volta. Não existe mais volta a um passado em que seria possível pensar as identidades trans* como anormalidades distantes e isso passar batido. Nós estamos aqui pelo menos, resistindo. Não existe mais volta quanto ao uso político da categoria cisgênero, assim como aconteceu com a categoria heterossexual. Quero frisar também que qualquer tentativa de rechaço a esse termo trata-se da reprodução da própria supremacia cisgênera e, portanto, um ataque transfóbico. E a própria possibilidade deste rechaço, um privilégio cisgênero, pois quando se rechaça o uso do termo cisgênero, são as vozes subalternizadas que são desqualificadas. São as vozes das pessoas trans* que buscam se libertarem destas formas estigmatizadoras e colonizatórias de entenderem suas existências.

Written by Beatriz

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8 Comments

  • Engraçado você postar esse texto, justo quando eu precisava mais dele. Acompanho seu blog faz uns quatro meses, e atualmente é o que mais me interessa dos blogs ”feministas”/transfeministas’, o que me ampara nas minhas confusões cotidianas. Eu cheguei aqui no seu blog justamente por uma pesquisa na internet sobre cisgênero. O meu interesse atual é montar um zine. 1° que seja claro e acessível, entretanto é muito difícil pra mim falar sobre “sexo”/”gênero”/desejo, falar sobre privilégios, falar sobre cisgeneridade sem a linguagem pesada da academia(to terminando ciências sociais e fui treinada nesses últimos quatro anos pra escrever desse jeito, uma merda). 2° que seja honesto, levando em conta a posição de quem escreve os textos, no meu caso temo pelos meus privilégios cis atrapalharem meu julgamento. Enfim, o que eu queria mesmo dizer era que seu blog tem sido importante pra mim.

  • Achei o texto difícil!

  • Não sou da academia. Encontrei seu blog impulsionada pela curiosidade que veio depois de ler uma matéria acerca do reconhecimento pela Suprema Corte da Austrália do gênero neuro, que depois descobri ser não-binário. Não sei se aqui é o lugar onde encontraria tais elucidações, confesso, que tenho dificuldade em entender essa quantidade de terminologias achei a escrita do primeiro texto mais acessível para pessoas leigas e não acadêmicas. Acho que entendi um pouco tudo o que disse! Confesso, que cada vez mais fico encantada com a possibilidade humana de se reinventar. Desculpe se usei algum termo preconceituoso estas terminologias (cis, tx e tal) ainda são bem novas para mim, mas, estou aberta para o entendimento e o respeito. Abraços

  • Com todo respeito ao autor, achei que o texto não responde à pergunta inicial “o que é cisgênero”. É um texto que contém críticas bem elaboradas, no entanto, fala a respeito do entorno de uma questão e não dela exatamente. Entendi que a proposta do blog é falar sobre a esfera trans, mas gostaria de deixar a sugestão de que um texto mais objetivo fosse elaborado quanto ao real significado do termo “cisgênero” (que eu sinceramente acabei não compreendendo e peço desculpas pela ignorância), para aqueles que são mais leigos no assunto pudessem reproduzir seu significado sem que houvessem dúvidas.

  • Dizer que tudo que vem do heterossexismo é homofobia é bem problemático, visto que lesbofobia, bifobia, panfobia e acefobobia(assexuais) tem demandas e estigmas especifiques, tratar tudo como se fosse homofobia é passar uma borracha, e ainda reforça o ideal de que só existe G no LGBT, que gera hipervisibilidade e polarização das pautas só na homofobia, e isso também é um problema para você, Viviane e demais transgêneros, visto que focando demais no G, se invisibiliza o T.

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