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“O que é ser uma mulher?”

Por Raíssa Éris Grimm.

A identidade (de sexo/gênero) é uma construção tão afetiva quanto nossas orientações sexuais.
E talvez por isso mesmo não exista uma resposta objetiva pra perguntas como “o que é ser mulher?” –
essa pergunta, freqüentemente, feita por “feministas” transfóbicas
para “testar” o discurso de pessoas trans quando afirmamos nossas identidades.

Essa pergunta faz tanto sentido quanto me perguntar, enquanto lésbica, “o que é amar mulheres?”.
Eu não sei definir o que é amar mulheres.
Existem, inclusive, muitas formas de gostar de mulheres – em constante transformação ao longo das nossas vidas.

Mas o fato de não termos uma definição pra essa resposta
não torna o nosso amor por mulheres menos verdadeiro.

Há verdades em nós que são escritas pelo afeto,
e não pela racionalidade supostamente fria e objetiva que certas teorias “feministas” querem impor a quem somos.

Afirmar a minha identidade enquanto mulher é algo que vai pra além de qualquer teoria (biológica, sociológica, psicológica) – diz respeito, antes de tudo, a uma construção de afeto por mim mesma, pelo meu corpo, minhas sensações e vivências.

Se me perguntam “o que é ser uma mulher”,
eu talvez não tenha essa resposta fria e objetiva que a cisgeneridade parece ter (a biologia, a “socialização”, etc).. e eu prefira dizer simplesmente
que não sei responder. Mas a ausência dessa resposta não torna minha experiência menos verdadeira.
Mesmo porque, não existe uma única forma de ser mulher.. eu, Raíssa, não sou “todas” as mulheres:
eu sou ESSA mulher, aqui e agora, experiência viva que se constrói neste corpo e no de mais ninguém.

Meu processo de transicionar se construiu a partir do momento que eu me possibilitei escutar o caminho dos meus afetos mais do que os caminhos da “razão”,
essa que atribui ao meu corpo um destino biológico ou social fixo. Aprendi com Audre Lorde, a beber da sabedoria desse plano chamado de Erótico que – muito pra além da sexualidade – diz sobre a conexão com nossas emoções mais profundas.
Foi nesse âmbito de saber que eu entendi quem eu sou:
o mesmo âmbito do amor, que não se explica racionalmente, mas nem por isso é menos presente, existente e político.

Não há como esperar que teorias estritamente pautadas na razão, na prepotência por estabelecer verdades universais, consigam entender quem somos. Nós somos o próprio desafio a tudo que existe de universal.
Antes de disputar um lugar à luz dessas verdades, precisamos questionar sua prepotência.

E entender que quando teorias passam por cima dos afetos, vivências, para silenciá-las, distorcê-las, patologizá-las –
estamos falando sobre teorias violentas.
Teorias que não nos servem,
se temos como foco a luta por existências mais livres aos nossos afetos.

Written by Beatriz

1 Comments

  • Ametista Vieira on

    Texto incrível. Nos perdemos em nós mesmas tentando nos entendermos de forma limitada, através de rótulos.
    Me identifiquei muito :3

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