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Pessoas trans poluem os oceanos com hormônios?

O TERFISMO ideológico não tem limites. Saiu no PinkNews: um grupo auto intitulado de feministas radicais que faz militância contra a reforma do Gender Recognition Act no Reino Unido buscou a desculpa (esfarrapada) de que mulheres trans estariam usando “hormônios artificiais” e poluindo os oceanos e rios, trazendo desequilíbrios hormonais para os peixes e demais animais aquáticos. Elas inclusive afirmam que “o mundo está sendo destruído em parte pela ideologia transgênera”. O problema é que esta informação simplesmente está ERRADA, além de ser puro sensacionalismo barato e pseudocientífico.

É com esse tipo de coisa que a gente vê que as pessoas (cis) estão mais preocupadas em atacar as pessoas trans, não importa o custo pra isso, não interessa fatos científicos e coerência, não importa se precisam distorcer informação ou mesmo criar informação falsa. O que interesse desde o princípio é propagar e reafirmar os estigmas. Esse tipo de gente está mais interessada em deslegitimar as pessoas trans, em tirar ou barrar os nossos direitos pela autodeterminação jurídica, do que qualquer outra coisa, tudo que utilizarem como suposto argumento só vai ser fachada pra tentar legitimar a posição prévia, a posição de negação de direitos, como a falsa preocupação ambiental.

Se as cisativistas estivessem mesmo preocupadas com a verdade, saberiam que mulheres trans não costumam utilizar estrogênios artificiais em suas terapias de reposição hormonal e sim estradiol bioidêntico – lembrando que são os estrogênios artificiais (como etinilestradiol) que tem mais dificuldade em serem degradados no meio ambiente e persistem por mais tempo. Sabe de onde vem tanto estrogênio artificial, etinilestradiol? Das pílulas anticoncepcionais! Sim, de pílulas que mulheres cis usam para evitar gravidez e tratar algumas condições hormonais. E bem, só pegar o número absoluto de mulheres cis que usam esses medicamentos em comparação com o número de mulheres trans e veremos que as radfem teriam um verdadeiro pepino em suas próprias mãos ao invés de um argumento que pudesse legitimar suas posições transfóbicas. Essa gente é tão ignorante que chega a dar dó, pois se realmente soubessem do que estão falando, iriam simplesmente se eximir desse tipo de argumento que acaba depondo contra a própria ideologia anti-trans.

Agora, imagina se eu dissesse “mulheres que usam pílula anticoncepcional estão destruindo o meio ambiente”. Ou ainda: “o mundo está sendo destruído em parte pela ideologia da contracepção hormonal”. Ridículo, né? Mas quando é com pessoas trans, mesmo quando o suposto fato científico não deveria se aplicar neste caso (mulheres trans usam estradiol bioidêntico como terapia padrão, além de serem numericamente muito inferiores para serem responsáveis pela “poluição hormonal no meio ambiente”) tudo soa quase justificável. Afinal, pessoas trans não são consideradas “pessoas naturais”, então fica mais fácil culpá-las da destruição da natureza mesmo que isso não faça… o menor sentido! A associação entre a existência de pessoas trans e a degradação da natureza neste caso só pode ser feita por meio da noção ideologicamente arraigada que pessoas trans vão “contra a natureza” ou que nós seríamos de alguma forma mais artificiais do que pessoas cis. O problema na verdade é sobre a invalidação das identidades trans, e não sobre o meio ambiente… meio ambiente aqui é mera fachada para transfobia.

Se atentar para o fato de que a porcentagem de mulheres trans é tão baixa para causar qualquer impacto no meio ambiente as rad são incapazes, mas óbvio que elas não iriam mencionar as reais causas de poluição ambiental por estrógenos artificiais – porque, vejam só, elas encontrariam mulheres cis como as “culpadas” ou “vilãs” por um (suposto) problema ambiental, e não mulheres trans.

Cisativismo me dá ânsias. E pensar que esse tipo de gente está obstruindo a reforma no Gender Recognition Act no Reino Unido, que daria finalmente o direito a auto determinação das pessoas trans para retificação de documentos neste país.

Comentário de Jéssica Milaré:

“As mulheres trans são culpadas pela contaminação de rios e oceanos com hormônios.” Transfóbica, Uma Pessoa.

Muito racional essa conclusão. Como se o uso indiscriminado de hormônios na indústria da carne não tivesse nada a ver. Como se a indústria farmacêutica – que produz a maioria de seus produtos para pessoas cis – não tivesse nenhuma responsabilidade. E quanto à falta de tratamento de esgoto nas cidades? Nada disso, vamos culpar um dos grupos sociais mais marginalizado da sociedade.

Sendo que, aliás, em geral, mulheres trans se hormonizam com produtos que se degradam mais rapidamente do que os que são usados nos anticoncepcionais.

Como se fosse um problema só dos hormônios, aliás, e não dos inúmeros produtos químicos que a indústria produz e descarta ou coloca nas mercadorias que nós compramos.

Metais pesados, enxofre, gás carbônico, monóxido de carbono, antibióticos, hormônios, plástico, borracha, tanta poluição causada pela indústria e pela falta de um sistema ecossustentável, tratamento de esgoto, separação e tratamento do lixo, mas pra quê culpar o sistema, os governos, os capitalistas? Muito mais fácil culpar as pessoas trans.

Written by Beatriz

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