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Por que o sexo oral não é interpretado como sexo? Uma Análise Contrassexual

Texto de Inaê Diana da Costa Rossi.

“A maquilhagem diz-nos mais do que o rosto”

-Oscar Wilde

Após iniciar algumas pesquisas corriqueiras referentes aos campos das sexualidades, deparei-me com uma prática sexual, mais precisamente, com o entendimento a respeito desta, que me provocara um debruçamento, ainda que não com a profundidade que imaginei tratar: o sexo oral. E pensando, também, na des-assimilação dos órgãos sexuais dos órgãos reprodutores/genitais -proposta essa iniciada com Preciado, em seu Manifesto Contrassexual-, que me volto ao tema. Portanto, enquanto pensadora da contrassexualidade, tenho como tarefa, “identificar os espaços errôneos, as falhas da estrutura do texto e reforçar o poder dos desvios e derivações com relação ao sistema heterocentrado”.

Tido como preliminar -e é a respeito deste entendimento especificamente, que viso um breve debruçar sobre-, por muitos e muitas, às ‘práticas sexuais ‘propriamente ditas’,o sexo oral parece não existir como a prática que é, quando tratamos de sexualidade. Mas, o que lhe confere este atributo de ‘preliminar’, e não de prática sexual? Haveria alguma exigência da ordem da prescrição inscrita na utilização do termo, ou, melhor dizendo, na sua assimilação com a prática, na sua materialização? havendo essa suposta exigência, seria ela reflexo duma estrutura social patriarcal e heteronormativa? É a partir dessas questões que eu busquei desenvolver algo.

  Primeiro, precisamos entender o que é tido socialmente como sexo oral. Para tal, tomarei como base as informações contidas no site Grupo Gay da Bahia (GGB). A escolha deste site como referência não foi à toa, haja vista que se trata de um site que grande visibilidade nacional, o qual tem Luiz Mott como figura representativa.

Segundo o GGB, ‘o sexo oral’ consiste no ‘contato dos órgãos genitais de uma pessoa com a boca da outra. É a conhecida’, popularmente, ‘chupeta ou boquete -quando o pênis é levado à boca -ou chupada, no caso da vulva ser levada à boca’. No que se refere à prática deste, ‘um bom momento para a prática do sexo oral além das preliminares, é aquele em que seu(sua) companheiro(a) não está suficientemente estimulado’. Entretanto, ‘dificilmente você vai se satisfazer somente com o sexo oral. Por mais gostoso que ele seja, a relação tradicional é muito mais prazerosa’.² (grifos meus)

  Já na descrição do que seja o sexo oral, podemos nos deparar com uma possível resposta ao questionamento a respeito do fato de o sexo oral receber o atributo de ‘preliminar’, e não de ‘sexo’, apesar de este termo ser parte constituinte do seu nome. A partir da formulação ‘o sexo oral’ consiste no ‘contato dos órgãos genitais’, já se torna perceptível um discurso genitalista, ou que condicione a um genitalismo, ou seja, os órgãos genitais tornam-se o sujeito das práticas sexuais. Tal forma de lidar com as práticas sexuais é dicotomizante (se considerarmos que, segundo a Biologia, os mamíferos possuem apenas dois órgãos genitais, sendo eles, o pênis e a vulva), e, ou nos encaminhará às combinações tidas como ‘normais’ (pênis-vagina), ou às tidas como ‘desviantes’-e, consequentemente(pênis-pênis, vagina-vagina, pênis-ânus). Como o primeiro somente se efetiva a partir da negação do segundo, “a definição de comportamento anormal inclui, usualmente, uma dessas três abordagens, ou combinação delas: a estatística, a cultural, o fracasso no ajustamento pessoal”. Explicando-as resumidamente:

→A definição estatística considera que o comportamento e anormal quando se desviar da norma ou média -sendo a norma homem-branco-cisgênero-heterossexual, qualquer um/a que não se enquadre nesse sistema, será tido/a como ‘desviante’.

→A definição cultural considera divergente qualquer comportamento que viole os costumes da sociedade, ou que ameace a sociedade. O comportamento que é aceitável numa sociedade pode ser considerado anormal ou criminoso numa outra -sendo a “nossa”[1] estruturada sobre valores patriarcais e sexistas introduzidos pelo cristianismo, quaisquer práticas sexuais, em qualquer sociedade dita cristã, que não os obedeça, serão tidas como anormais ou criminosas.

→A definição de comportamento anormal em função do ajustamento pessoal, considera como anormal, o fracasso em atingir os padrões do que e tido como “saúde mental positiva”. Como exemplo, podem-se citar comportamentos tais como, a ansiedade, a derrota crônica e a ineficiência-  perceba que se tratam de comportamentos que não são raros. Afinal de contas, a sociedade tal como a conhecemos hodiernamente, estruturou-se a partir de divisões (o que eu desassocio de diferenciações) e essencializações das mesmas, com o intuito de que determinados sujeitos pudessem ser mais facilmente dominados por um determinado tipo de sujeito, o qual e tido como o padrão, o ideal, universal, sendo assim, qualquer sujeito que não se assemelhe a ele em todas as suas características, ou nas mais destacadas, um ‘desviante’, ‘criminoso[2], em potencial.

Esse discurso genitalista é tão evidente, que há tão somente a menção de duas modalidades do sexo oral (boquete-felação, chupada-cunilíngua), as quais alinham-se aos órgãos reprodutores, fazendo destes ‘essenciais’, ‘indispensáveis’, para as práticas sexuais, esquecendo-se -por descuido, talvez, (uma certa dose de cuidado permitiria apreender elementos discursivos que se fundamentam na heteronormatividade, permitindo, assim, que fossem evitados) – de uma terceira modalidade, a qual, por sua existência, questionaria o sujeito do sexo oral: a anilíngua (ou beijo grego, beijo negro), que trata-se da estimulação do cu através de lambedura e de beijo, ou seja, contatos diretos da boca com o mesmo.

Já não seria mais ‘o contato dos órgãos genitais de uma pessoa com a boca da outra’, como supõe o texto – o que é genitalista por si só, pois considera que é o órgão genital que se permite o contato, e não a boca – e sim, o contato da boca com determinadas partes do corpo, o que constituiria o sexo oral, deslocando, assim, a boca do locus, da posição de sujeito passivo, tão somente, a sujeito igualmente ativo-passivo, nas práticas sexuais. Consequentemente, o beijo passaria a ser uma prática sexual. E se considerarmos como o beijo era tratado na década de 50, como muito bem nos apresenta o filme Cinema Paradiso, essa realidade não se mostra tão distante. Assim sendo, a proposta de desgenitalização das práticas sexuais a partir da nomeação do cu como órgão sexual, em detrimento dos órgãos reprodutores, tal como propõe Preciado em seu Manifesto Contrassexual, se veria reforçada, agora, com a nomeação, também, da boca como órgão sexual. Logo, tal como todos e todas temos cu, todos e todas temos boca, abarcando assim, sujeitos de todas as idades, desmistificando e causando uma ruptura com o âmbito do privado ao qual fora designada a sexualidade.

Alem do mais, em práticas tais como as descritas na tabela abaixo, a boca se mostra de extrema importância para a realização das mesmas:

Felching Consiste em retirar com a boca o sêmen do cu ou da vagina do/a companheiro/a depois que alguém tenha ejaculado dentro (conhecido como creampie)
Snowballing O sêmen contido na boca duma pessoa e passado a boca duma outra por intermédio do beijo
Estimulação oral dos mamilos Muito mais comum entre indivíduos lidos socialmente como ‘femininos’, como o próprio nome diz, trata-se da estimulação dos mamilos oralmente, podendo haver, ou não, lactância durante o ato.
ATM/A2M (Ass to mouth = do cu à boca)Consiste na introdução do pênis na boca da outra pessoa (boquete), imediatamente após se ter tirado do cu desta, ou de outra pessoa.
69 Trata-se da prática mútua do sexo oral.
Garganta Profunda Tipo de sexo oral sobre o pênis (boquete ou irrumação[3])que consiste em introduzir o pênis ereto na boca do/a companheiro/a até chegar à garganta, e realizar profundos e repetidos movimentos de vai-e-vem, com o fim de estimular a glande.
Irrumação O pênis se introduz ativamente na boca do/a companheiro/a, obtendo-se a sensação do movimento deste, e não da sucção da boca e da língua, como ocorre no boquete habitualmente.
Humming Trata-se dum som gutural ou um canto gerado com a garganta para produzir cócegas/cosquinhas e prazer na sensível zona genital do/a companheiro/a, enquanto se realiza sexo oral de qualquer tipo.
Felação in coitus Uma terceira pessoa pratica sexo oral durante o coito.
Autofelação Consiste numa forma de masturbação com o pênis, na qual o sujeito estimula oralmente o próprio pênis.

Prosseguindo,‘Um bom momento para a prática do sexo oral além das preliminares, é aquele em que seu(sua) companheiro(a) não está suficientemente estimulado’. Percebe-se que há a consciência de que, ao sexo oral, é designado o locus da preliminariedade, e este (o locus em questão) é mantido, preservado, a partir do momento em que o sexo oral torna-se presente novamente em situações nas quais o(a) companheiro(a) não se encontra ‘suficientemente estimulado’ -lê-se ‘estimulado para’, e subentende-se, ‘dar continuidade ao sexo e alcançar o orgasmo’, preservando assim, o tripé sexo-orgasmo-desejo-, ou seja, o sexo oral sofre um processo de instrumentalização, tornando-se um mero imperativo hipotético, o que, por sua vez, atribui às práticas sexuais, um caráter estritamente teleológico -visa-se alcançar o gozo, e, costumeiramente, o gozo do homem cisgênero, ou do sujeito que ocupa a posição de ativo em práticas sexuais homoafetivas.

Mas, se o boquete, a chupeta, a felação, a chupada, a cunilíngua, encontram-se na categoria -e, consequentemente, tornam-se características desta- denominada como ‘sexo oral’, por qual razão não seria o sexo oral uma prática sexual em si, e não uma etapa duma prática sexual, ou seja, preliminar? Seria a sua não-aceitação como prática sexual um reflexo -e como todo reflexo que se preze, velado por justificativas fundamentadas sobre pesquisas científicas realizadas por cientistas majoritariamente do gênero masculino estrategicamente- da estrutura patriarcal e heteronormativa de “nossa” sociedade? Se os órgãos sexuais fossem o cu e a boca, haveriam sujeitos heterossexuais, homossexuais, bissexuais? Tentemos, pois, responder à primeira questão utilizando-nos da dialética hegeliana.

O sexo oral é, ou seja, o sexo oral é/trata-se de sexo oral(afirmação). O sexo oral não é sexo (negação). O sexo oral é/trata-se, portanto, do devir do sexo em si (síntese). Esse devir-do-sexo-em-si pode ser compreendido, também, como preliminar, se considerarmos que a preliminar possibilita a efetivação do sexo em si.

Deve-se reconhecer, portanto, que o sexo oral condiciona, cria condições para o “sexo em si”, haja vista que trata-se do seu devir -daí o estimular-, e, por tal, deve ser buscado em função dele (do sexo em si). Entretanto, esta resposta não nos é suficiente, e responde apenas com uma possibilidade -a mais simples, dentre tantas, talvez-. Seria necessário irmos mais fundo, ou tomarmos como ponto de partida, outras fontes, haja vista a impossibilidade de a lógica dar conta de solucionar a questão. Vale reforçar também que, quando uso o termo “sexo em si”, não estou afirmando que haja realmente um “sexo em si”, e sim, que há em nossa sociedade, em decorrência de sua estrutura patriarcal e heteronormativa, uma idealização das práticas sexuais, resultando num suposto “sexo em si”. Como aponta muito bem Preciado, mesmo “os órgãos sexuais não existem em si. Os órgãos que reconhecemos como naturalmente sexuais são o produto de uma tecnologia sofisticada que prescreve o contexto em que os órgãos adquirem  sua significação (relações sexuais) e de que se utilizam com propriedade, de acordo com sua ‘natureza’ (relações heterossexuais)”. Continuando, “é preciso pensar o sexo, pelo menos a partir do século XVIII, como uma tecnologia biopolítica. Isto é, como um sistema complexo de estruturas reguladoras que controlam a relação entre os corpos, os instrumentos, as máquinas, os usos e os usuários”.

Perceba que, ao mesmo tempo em que não é tido como “sexo em si”, o sexo oral também não sofre uma proibição, pois “a forma mais potente de controle da sexualidade não é, logo, a proibição de determinadas práticas, mas a produção de diferentes desejos e prazeres que parecem derivar de predisposições naturais(homem/mulher, heterossexual/homossexual, etc.), e que serão finalmente reificadas e objetivadas como ‘identidades sexuais’. As técnicas disciplinadoras da sexualidade não são um mecanismo repressivo, e sim estruturas reprodutoras, assim como técnicas de desejo e de saber que geram as diferentes posições de sujeito de saber-prazer”. Se pararmos para refletir, por exemplo, como se dá a ideia de fetichismo, perceberemos que a existência de tal termo tem a função de afirmar que, qualquer desvio dum suposto “natural” apresenta pelas ciências biológicas, só se dá a partir dum “feitiço”[4]. Segundo Freud, o pai da Psicanálise, por exemplo, em seu livro Três Ensaios para uma Teoria Sexual, refere-se em diversas secções ao fetichismo como manifestação perversa[5].

  Poderíamos atribuir, portanto, a nao-aceitacao do sexo oral como prática sexual, o que resulta na sua redução a “preliminar”, ao fato de que as práticas sexuais edificam-se em torno dos órgãos reprodutores, tratando-se, assim, de artifícios para a divisão dos sexos. Logo, pode-se concluir que, a consideração do sexo oral como prática sexual, e nao como mero suporte desta, resultaria na erotizacao da boca, e boca esta que acessa, e pode ser acessada, a qualquer instante, por qualquer pessoa. Ou seja, além de provocar uma ruptura entre as divisões público-privado, ativo-passivo, possibilitaria, também, uma ruptura com a divisão homem-mulher, masculino-feminino.

Não se trata, deixo claro, de se fazer tão somente do cu e da boca zonas erógenas, e sim, de nos voltarmos aos nossos corpos, realizando nestes, a possibilidade de possibilidades que somos.

Bibliografia

Michael Foucault – Os Anormais

Paul Beatriz Preciado – Manifesto Contrassexual

Sigmund Freud – Três Ensaios para uma Teoria Sexual

Valérie Tasso – El Otro Lado del Sexo

James Neal Butcher – Psicologia do Anormal

Sítiografia

Grupo Gay da Bahia – www.ggb.org.br

 Organización Mundial de la Salud – OMS – www.who.int/es/

Fernando A. Navarro, «Laboratorio del lenguaje: Cunnilingus», Diario Médico, 15 de octubre de 2008.

Filmografia

Cinema Paradiso (1988)

[1] Aplico em “nossa” as aspas, com o intuito de evidenciar que esta sociedade na qual vivemos não se trata de algo planejado e construído por nós, e sim, de um conjunto de leis e costumes impostos a nós.

[2] A ideia de criminoso aqui descrita, tem como base a aula de 8 de janeiro de 1975, ministradas por Michael Foucault, que consta no livro Os Anormais, da editora Martins Fontes.

[3] Por não haver um termo equivalente em português (não que eu tenha ciência, ao menos), faço uso tomando como base o termo em espanhol irrumación.

[4] A palavra “fetichismo” vem do latim facticius, “artificial”

[5] Perversão, do latim  pervertĕre (inverter ou dar volta), é um termo que historicamente foi utilizado pela psiquiatria clássica e pela psicopatologia e pelos pioneiros da sexologia, para designar um comportamento ou um conjunto de práticas sexuais que não se ajustavam ao socialmente estabelecido como sexualidade normal na época.

Imagem: Eros e Psiquê.

Written by Beatriz

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