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Por visibilidades trans* multiplicadas, complexificadas, descolonizadas

Esta postagem faz parte da blogagem coletiva da Semana da Visibilidade Trans.

Por Viviane V.

Neste post dedicado ao dia da visibilidade trans*, gostaria de fazer algumas reflexões sobre visibilidade e invisibilidade desde uma perspectiva mais relacionada às vivências pessoais trans*, em vários sentidos derivadas de algumas experiências próprias. Estas reflexões já tomam como dados alguns pressupostos levantados neste importante dia de luta política: a visibilidade trans* do dia 29 de janeiro trata, eminentemente, da luta pela visibilização das demandas políticas trans*, fundamentadas nos princípios de dignidade humana e de autodeterminação, e as reflexões que procuro fazer partem da percepção de que estas demandas são constantemente negligenciadas mundo afora. Neste sentido, o contexto político para pessoas trans* estabelece uma espécie de pano de fundo para estas reflexões de cunho mais pessoal.

Pode-se dizer que muitas pessoas trans* têm de lidar com questões de visibilidade e invisibilidade cotidianamente. Ser visível enquanto pessoa trans* significa, no mais das vezes, ser alvo de ridicularizações, estranhamentos, exotificações e outras violências, fazendo com que a invisibilidade — equivalente ao ‘passar-se como pessoa cisgênera’, ou, em termos mais problemáticos, ao ‘parecer homem ou mulher de verdade’ — acabe se tornando um objetivo muito importante para muitas pessoas trans*.

Estes esforços de invisibilidade — ou ‘passabilidade cis’ — têm diferentes dimensões que representam desafios variados. Tenho passado por vários deles em minha vivência pessoal, que no geral envolvem questões visuais e estéticas — formas corporais, vestimentas, expressões ‘generificadas’, i.e., às quais se atribuem gêneros –, sonoras — tom, timbre, vocabulário — ou institucionais — documentação, acesso a recursos, entre diversas outras. Estas questões podem definir, em diferentes situações e temporalidades, a diferença entre o respeito enquanto pessoa humana e a desconsideração plena de uma parte imanente à nossa humanidade pessoal — a identidade de gênero.

Ilustro brevemente o significado destas dificuldades em lidar com a visibilidade ou invisibilidade enquanto pessoa trans*. Certa vez, em um ambiente de trabalho, havia uma cliente que, supunha-se, seria uma mulher trans*. Mais do que avaliar se havia ‘realidade’ nas especulações de algunxs colegas, impressionou-me (e me indignou também, certamente) a intrusão e desrespeito que se lambuzavam através delas. A partir dos questionamentos sobre a transgeneridade daquela pessoa, pude observar, mais que qualquer outra coisa, que as inconformidades com a cisgeneridade incomodam e excitam (em diversos sentidos) profundamente diversas pessoas (primordialmente, mas não somente, cisgêneras).

Neste sentido, considerando-se as violências às quais pessoas trans* se expõem quando são vistas enquanto tal, a busca pela invisibilidade por parte de algumas delas não deve ser lida necessariamente como uma reprodução acrítica do cis+sexismo dominante, ou como um conservadorismo problemático. Esta busca deve também ser vista como uma possibilidade de resistência às normas de gênero dominantes (patriarcais e cis+sexistas), e em muitos casos, possivelmente, como uma das poucas formas de sobrevivências a um entorno social hostil. Assim, não creio que devamos criticar a busca por esta invisibilidade sem antes fazer uma análise crítica e afetiva da(s) situação(ões).

É preciso pensar, por sua vez, na questão da visibilidade trans*. Se a busca pela ‘passabilidade cis’ é uma realidade (e um desejo plenamente legítimo), devemos também ter em conta que, para outras pessoas, esta passabilidade não é almejada ou não é possível — dadas as condições sociais vigentes [1]. E creio ser pertinente, dada a motivação primeira deste post, enfatizar a legitimidade destas existências nas formas e expressões que tenham e afirmem perante o mundo, denunciando, por consequência, linhas discursivas que procurem normatizar e idealizar a passabilidade cis de pessoas trans*, ou mesmo a ideia de que toda pessoa trans* almeje necessariamente passar como cis.

Portanto, interpreto este dia de luta pela visibilidade trans* como um dia em que, para além de se apresentarem as diversas e urgentes demandas políticas trans* — por dignidade, acesso a recursos (educacionais e de saúde, por ex.), empregos dignos e compatíveis com qualificações e anseios pessoais, entre várias outras — também se multipliquem e se complexifiquem as perspectivas, narrativas e possibilidades que as pessoas trans* tenham para si próprias e para as demais, em termos de como lidam com seus corpos, expressões de gênero e interações sociais (institucionais ou não), de maneira que se ampliem os horizontes de sua (nossa) inserção no mundo. Esta ampliação de horizontes passa pela percepção de que nossas inconformidades de gênero são construídas enquanto tais a partir de uma normatividade cisgênera, e que a luta consiste em, fundamentalmente, questionar esta normatividade — ainda quando a adequação ‘passável’ a ela esteja dentro de nossos objetivos, possibilidades e anseios.

Nota

[1]- Noutros contextos em que a cisgeneridade não fosse tão evidentemente prevalente, poderíamos pensar que as transgeneridades não seriam tão visíveis e monitoradas. E, até mesmo, que estes conceitos analíticos de cis- e transgeneridade não seriam mais relevantes.

Written by Hailey

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