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Que homem eu era?

NOTA: Esse texto é uma continuação de “Sou Mulher?“, publicado em 8 de abril de 2013.

Certa vez eu conversava com uma amiga, que assim como eu é mulher trans*, sobre objetivos futuros. Contei que pretendia iniciar curso de maquiagem e manicure, para saber como me maquiar corretamente, e como pintar minhas unhas – e talvez trabalhar com isso. Segui contando sobre como desde a adolescência tenho interesse por coisas do tipo: “É algo que tenho vontade desde a infância, sabe? Quando adolescente, gostava dessas coisinhas… No fundo sempre me identifiquei com essas coisas… mas como isso ‘não é coisa de mulher’, apaguei da minha mente”.

Minha amiga respondeu, sem entender: “Como assim não é coisa de mulher?”.  Depois de alguns segundos, percebi ao que ela estava se referindo: “Ah, desculpe! ‘Coisa de homem, eu quis dizer’: como manicure e maquiagem não são ‘coisas de homem’, eu não fui atrás isso durante minha adolescência.”. Eu cometo esse tipo de engano com frequência.

Até um determinado ponto da minha transição, eu conseguia ver claramente na minha mente uma fronteira, separando o período em que era homem, do momento em que me descobri mulher e me aceitei dessa forma. Essa fronteira ocupava um espaço curto e bem delimitado no tempo. Eu podia usar os pronomes masculinos para me referir a mim mesma, quando falava de algo no passado, antes de me identificar como mulher. Isso não acontece mais, hoje em dia.

É paradoxal. Antes de me aceitar como mulher, eu rejeitava em mim mesma tudo aquilo que significasse ser homem. Ser homem era uma condição com a qual eu tinha que conviver. Eu abominava o rótulo e os papéis de gênero que me foram designados, e os evitava o quanto pudesse. Depois que me aceitei como mulher, essa rejeição desapareceu (tenha em mente que não estou falando do meu corpo). Ao contrário, ao mesmo tempo em que estava ansiosa para descobrir e explorar cada vez mais minha identidade feminina, eu também fiquei curiosa para entender o que era antes disso – entender o homem que era. “Que homem eu era?”, “Que tipo de homem eu era?” são perguntas que ocuparam minha mente por um bom tempo. Eu acreditava que encontraria naturalmente a resposta para essas perguntas: à medida que minha transição prosseguisse e eu me descobrisse cada vez mais, a mulher que sou se tornaria cada vez mais visível e evidente, e as diferenças dessa mulher em relação ao que eu era antes tornariam mais visível e identificável o homem que fui um dia.

Essa era a teoria. Na prática, não foi isso que aconteceu. O tempo não tornou mais fácil entender que homem eu era; ao contrário, tornou mais difícil. À medida que a mulher se tornou evidente, o homem começou a desaparecer. Claro, o objetivo da minha transição era exatamente esse, que o homem que fui um dia desaparecesse para dar lugar à mulher que sou. Porém, eu esperava de esse desaparecimento se desse a partir do momento que me identifiquei e me aceitei como mulher. Eu não esperava que o homem também fosse desaparecer antes, no passado.

Eu nunca me importei que questionassem minha “masculinidade” nem que colocassem em dúvida que eu era homem. Tampouco me importava que me comparassem às garotas. O problema, para mim, não era que me questionassem – eu os ignorava, apenas – mas sim que me cobrassem que fosse um homem. Odeio cobranças, mas não podia ignorá-las porque as pessoas que as faziam tinham poder sobre minha vida. Eu tinha que ser um homem, por necessidade. Mas não tinha a menor afinidade ou identificação com os referenciais masculinos ao meu redor, somente com os femininos. Eu tive que buscar referenciais em outro lugar: na televisão. Nos heróis.

Dentre os vários heróis, existe um tipo de herói não apenas resiste à dor e ao medo, ele simplesmente não sente dor e medo de qualquer forma. Ele não tem sentimentos, emoções, nem qualquer tipo de ambição ou objetivo. Por isso, tende a cumprir ordens cegamente, sem questionar. A negação dos sentimentos, fraquezas e vulnerabilidades é algo exigido de qualquer homem na sociedade em que vivemos, mas esse herói tem uma característica bem particular: ele não é sociável de forma alguma. Ele não tem amigos, nem os deseja. Ele não vive entre homens. Você jamais o verá sentar-se com outros homens numa mesa de bar para beber e falar sobre futebol ou mulheres. Ele vive sozinho, e não se sente mal por isso. No final do filme, ele não fica com a mocinha (se é que existiu alguma): ele termina sozinho, e está bem dessa forma. Na minha mente infantil, isso significou que, de tudo o que alguém pode fazer para “ser” um homem, viver em isolamento também é uma forma de ser homem. Entre todas as alternativas que eu poderia ter escolhido, esta – isolamento – parecia a menos dolorosa. Eu segui por esse caminho.

Eu não fui influenciada por esse modelo. Eu voluntariamente e premeditadamente escolhi esse modelo. Me lembro de conscientemente ter decidido por seguir esse modelo. Isso acabou com as cobranças para que eu tivesse “atitudes de homem”. A frieza e distância emocional características desse modelo supriam a demanda social de “ser homem”. As cobranças que tive o resto da vida passaram a ser que eu me tornasse mais amigável, mais sociável. Que buscasse amizades. Que não me isolasse tanto. Mas, ao contrário das cobranças por atitudes masculinas, essas cobranças não me causavam dor nem sofrimento, então eu pude ignorá-las. Ser homem, para mim, consistiu simplesmente em fazer-me antissocial e manter distância das pessoas, impedindo-as de enxergar em mim qualquer coisa que motivasse novas cobranças e questionamentos. Basicamente, fazer-me desconhecida e deixar que as pessoas vissem em meu isolamento a masculinidade que esperavam. Essa foi a minha “socialização como homem”: encenar um papel que me permitisse não adotar papéis de gênero masculinos e não ser cobrada por isso. Fingir ser um homem, para não ser um homem.

É impossível olhar para o passado e enxergar um homem, em qualquer momento da minha vida. Eu enxergo um personagem, nada mais. Um personagem que vivi o máximo que pude, mas que no final das contas nunca deixou de ser uma mentira. Por isso, a única conclusão que posso tirar é que nunca fui, realmente, um homem. Eu somente fingia ser um, de forma metódica e calculada. Presumivelmente, quem é algo não precisa fingir ser esse algo; portanto, quem é um homem não precisa fingir ser um. Ademais, eu suponho que qualquer homem se desenvolva como tal de forma natural, tendo sua personalidade e gênero moldados tanto pela sociedade quando pela sua individualidade e suas experiências pessoais; e não escolhendo de maneira premeditada sua personalidade e papéis de gênero com base em uma lista de critérios lógicos, como eu fiz. Por outro lado, nunca me senti fingindo ser uma mulher. Ser mulher, para mim, consistiu em deixar de encenar papéis, em primeiro lugar, para depois ser eu mesma à medida que me descobrisse. Chega a ser engraçado ouvir que pessoas transgêneras reforçam os estereótipos de gênero: eu reforçava estereótipos de gênero muito mais antes de iniciar a minha transição, ao passo que, desde que ela começou, tenho quebrado tais estereótipos cada vez mais, e deixando isso bem claro e visível para o mundo.

Essa foi a razão daquela “escorregada” que cometi na conversa que citei no início desse texto. Está bem gravado na minha memória que boa parte da minha vida eu deixei meu gênero limitar o que posso ou não fazer. Por isso, meu subconsciente deve ter calculado (errado) que se na adolescência eu não me permitia me interessar por coisas como maquiagem, deve ter sido porque a sociedade aceitava que somente homens fizessem isso. Esse engano ocorreu porque minha percepção de mim mesma no passado se alterou, e passei a enxergar uma mulher também na infância e na adolescência. A mente humana é complexa e misteriosa.

Ser uma mulher transgênera, no meu caso, há muito tempo deixou de ter a ver “mudança de sexo e/ou gênero”, e passou a ter a ver, cada vez mais, com ser uma mulher, simplesmente. Uma mulher que não tem seus direitos reconhecidos, que enfrenta alguns dos apagamentos e exclusões mais brutais e cruéis que a sociedade pode produzir, e que é tratada como cidadã de segunda classe. Infelizmente. Mas, ainda assim, uma mulher.

Written by Tranfeminismo

2 Comments

  • É incrivel o quanto isso se parece comigo: Enquanto eu interpretava aquele papel, nao era eu. era apenas alguem encenando uma longa e cansativa peça de teatro, um teatro macabro. Qualquer movimento, palavra ou ação em minha vida eu estava interpretando um papel, e este papel mudava com o tempo: Na infancia eu era fascinada pelo Zorro, o cantor Latino, depois pelo Leonardo Di Caprio em entrevista com o Vampiro, ciganos, Michael Fox, Michael Jackson, Antônio Banderas, Neo em Matrix, Axl Rose, Um amigo meu q era cantor, um primo que eu admirava… e varios outros. Enfim: homens que eu admirava e achava sedutores (nao tinha nada de sexual nisto, mas eram homens com personalidades refinadas, que me permitiam, ao menos expressar um pouquinho de minha alma sem parecer tao feminino)… eu me esforçava tanto que chegava a absorver o sotaque, expressoes e trejeitos de muitos deles ()até q eu mudava de “modelo”.. era muito sofrido – em pouquissimos momentos eu podia ser quem realmente sou, qdo estava c algumas amigas. As pessoas me pergunttavam coisas tipo: Vc é argentino/espanhol? vc é gaucho? coisas assim

  • Nossa, quase escreveu minha autobiografia 🙂

    Engraçado como os caminhos das trans* são tão parecidos.

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