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Sobre a transexualidade no esporte

Por Amélia Flor.

A participação de pessoas transexuais no esporte tem causado muita polêmica. Por um lado, há quem defenda a inserção de uma minoria que sofre com a ausência de oportunidades na ocupação de espaços (mas essa é outra discussão para outro texto), por outro, há quem afirme ser injustiça atletas transgêneros competirem com atletas cisgêneros, calcando-se na diferença fisiológica, estatural e anatômica entre os competidores. O objetivo principal do meu texto certamente não é entrar em aspectos fisiológicos ou defender um ou outro ponto de vista, pois declaro que, tendo terminado agora o primeiro ano de Medicina, tenho poucos conhecimentos sobre os aspectos do corpo humano e dos efeitos hormonais para sustentar categoricamente um lado, além de saber que as pesquisas ainda estão em andamento nesse contexto. Sendo assim, eu não quero aqui discutir a nossa participação definitiva e irrestrita às categorias concordantes com nossa identidade como atletas, mas sim quero provocar uma reflexão sobre o tema uma vez que o modo como a discussão está sendo feita me preocupa, pois observo a propagação de discursos de ódio e informações equivocadas. Há alguns aspectos a serem considerados principalmente por aqueles que são contra a inserção trans nos esportes, pois recentemente li uma carta na qual uma atleta contrária a tal inserção usou de um tom transfóbico para defender sua opinião.

Em primeiro lugar, vejo algumas pessoas utilizando com veemência o conceito de justiça em seus argumentos. Ora, talvez eu esteja sendo parcial demais por ser uma pessoa que cultiva grande repulsa a competições- por acreditar que elas promovem um ambiente desconfortável de estresse e nervosismo, o qual pode fazer o ser humano propagar racismo, machismo e LGBTfobia. De qualquer modo, eu me pergunto se há uma competição totalmente justa, afinal, mesmo entre competidores cisgêneros, é inegável que há diferenças metabólicas e anatômicas que favorecem alguns corpos em detrimento de outros (sejam diferenças na altura ou no tamanho de um braço, por exemplo). Por isso, acredito que o termo justo pode ser um pouco questionável no contexto esportivo, ainda que válido para alguns casos.

Em segundo lugar, vejo alguns argumentos machistas sendo utilizados. Pessoas defendendo a fragilidade da mulher para justificar a não participação das mulheres trans no esporte, ou seja, estas não têm a delicadeza física daquelas. Tendo em vista que tal visão de mulher é uma construção social por vezes imposta, submeter tanto as mulheres cis quanto as trans a esse constructo é tirar sua subjetividade enquanto indivíduo, afinal, ambas podem ou não corresponder a essa  visão social estereotipada de mulher.

Em terceiro lugar, é importante ressaltar um absurdo que li também. O que me pareceu é que algumas pessoas estão com medo de que mulheres cis construam corpos masculinos, afirmando, assim, serem homens trans, e depois dos resultados esperados com a hormonização voltem atrás na afirmação de sua identidade de gênero para competir na categoria feminina. Nesse contexto, elas angariariam vantagens obtidas por um corpo moldado por grandes dosagens de hormônios masculinos. De fato, acho bem pouco provável que essa situação ocorra, porque se afirmar transexual no Brasil, além de diminuir sua expectativa de vida, é sofrer com uma transfobia diária, que nos machuca física e psicologicamente- muitas vezes dentro do próprio contexto familiar – desembocando comumente em suicídios ou automutilação pela ausência de compreensão e de proteção dos próprios amparos legais. Li também que, na toada da inserção, há o temor de que as mulheres trans possam apropriar-se de todas as vagas femininas no esporte. Bom, considerando as variedades corporais e que nem todas as mulheres trans antes da transição tinham corpos sarados e bem treinados, posso garantir pra vocês que a transexualidade não vem com super talentos esportivos ou de qualquer outro teor, afinal, se isso ocorresse acho que não estaríamos majoritariamente à margem da sociedade, eu não seria a única trans na minha sala de aula e essa discussão estaria sendo feita há mais tempo (Nós também batalhamos muito para conseguir alguma coisa, por vezes com obstáculos imensos e por outras vezes sem qualquer oportunidade).

Um ponto para ressaltar, e que decerto me deixa mais preocupada quando leio comentários acerca do tema, é a negação da nossa existência para justificar a exclusão trans dos esportes. As pessoas estão utilizando discursos de ódio e negando uma categoria inteira para justificar o incômodo ao nos ver em uma posição que geralmente não ocupamos. São frases do tipo: “Você é um homem não importa o que faça nunca será mulher”, “Exaltar esse homens em campo é misoginia”, “Um homem que cortou o pinto não é mulher”. Eu respeito o temor das diferenças anatômicas construídas por anos de testosterona. Entendo que é uma situação curiosa e para ser discutida. O que eu peço é respeito e cuidado ao defender suas posições. O gênero não pode ser determinado pela genitália. Ser mulher não é só ter útero e uma vagina. E, certamente, não é misoginia ser simpatizante da causa trans. Misóginos,em definição, são indivíduos que têm aversão a mulheres. Por que um misógino seria simpatizante de pessoas que se identificam com a aversão deles? Não seria um paradoxo?

Por fim, as pessoas trans deveriam ser inseridas nas categorias correspondentes à sua identidade nos esportes? Prefiro não responder essa. Vou esperar um parecer das pesquisas e dos fisiologistas pesquisadores. Vou esperar o que muitos pedem: uma análise mais completa do ponto de vista científico. Todavia, não posso mais esperar calada enquanto negam minha existência e a presença social de uma categoria que está aos poucos ganhando espaços e saindo da marginalidade. Eu sou uma mulher transexual. Não peço sua aceitação, mas sim seu respeito e menos ignorância. Tome cuidado ao se posicionar. Todos têm direito a ter uma opinião, mas todos têm o dever de respeitar a integridade e a existência do próximo. A diversidade está aí. Portanto, informe-se, pois cansamos de só aparecer à noite e às escondidas. Cansamos de ser objetos sexuais e fingirem que nós não existimos. Nós existimos sim. E estamos chegando para exercer nossos direitos. Estamos chegando para existir!

Written by Beatriz

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