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Sobre ser mulher trans* e bissexual – uma experiência pessoal

Hoje é o dia da visibilidade lésbica e bissexual, e como bissexual desejo comentar brevemente sobre minha identidade – uma identidade que por sinal costuma ser apagada com frequência das discussões gerais sobre sexualidade. Me identifico também como pansexual, mas para fins políticos, desejo falar somente de bissexualidade.

A bissexualidade sempre enfrentou vários mitos, inclusive na interseção monogamia/bissexualidade, onde pessoas bissexuais são vistas como infiéis ou promíscuas por ser capazes/desejarem se relacionar com dois ou mais gêneros. Além disso, o estigma da promiscuidade sempre recaiu mais fortemente às mulheres bissexuais.

Contudo, certamente as mulheres trans* sempre tiveram uma grande dificuldade em se assumir como lésbicas ou bissexuais. Isso acontece porque dentro da norma heterossexual se uma pessoa “deseja ser de outro gênero” automaticamente ela é heterossexual (heterossexualidade compulsória é inclusive uma das premissas dos compêndios médicos que patologizam a transexualidade). Por isso, ser uma mulher trans* que se relaciona com outras mulheres (cis ou trans*) era/é a “prova” de que a pessoa não era/é mulher de verdade, e sim homem. A ideia heteronormativa de “completude” heterossexual, inclusive, se estende aos relacionamentos gays/lésbicos onde sempre se perguntam “quem é o homem/mulher da relação”, mesmo sabendo-se de que se trata de duas mulheres ou dois homens.

Minha experiência pessoal sempre foi que, enquanto eu me identificava como homem (mas não necessariamente me via como homem), eu sempre achei que fosse gay. Sempre tive uma forte atração por homens, desde a adolescência – e enquanto essa é a experiência de muitas mulheres trans*(antes de se identificarem como mulheres), não significa que todas são ou deveriam ser heterossexuais. O estigma da deslegitimação identitária (mulheres trans* não são mulheres ou são menos mulheres porque se relacionam com outras mulheres) sempre foi (e é) muito forte nos espaços médicos e nos grupos trans*. Só comecei a repensar minha sexualidade quando entrei em contato com o feminismo, alguns anos atrás – e então fui me livrando de certos preconceitos, entre eles uma espécie de “translesbofobia” que eu tinha, me impedindo de relacionar com outras mulheres.

O feminismo foi essencial para essa descoberta, me permiti amar e ser amada por outras mulheres, sentir os prazeres do sexo lésbico, as maravilhas dos “ambientes femme” cheios de carinhos e afetos. Isso não quer dizer que eu ache que esse “ambiente” não possa existir entre homens ou entre pessoas de gêneros diferentes, mas nunca foi essa minha experiência com homens cis – até porque, infelizmente, minha experiência com homens cis sempre foi dentro do espectro fetichista. Os homens cis héteros e inclusive bissexuais sempre me pareceram estar muito mais focados na genitália do que as mulheres  – e essas relações genitalizadas sempre me foram muito caras.

Eu escrevi sobre a genitalização dos relacionamentos em outra postagem. A importância que as pessoas dão à genitália de outra, como elemento fundante das relações, elemento essencial dos afetos e do “gostar” romanticamente, é algo que talvez eu jamais entenda – e não acho que isso tem a ver com bissexualidade, mas sim com a importância que colocamos em certos signos corporais que se tornam premissas para nossas relações (inclusive heterossexuais). O que citei brevemente sobre fetiche acima é, inclusive, um bom exemplo. Os homens por quem eu me interessava (com reciprocidade) ora encerravam seu interesse romântico por mim no momento que “descobria” que eu sou trans* (e non-op), ora o interesse se intensificava, pois o que essa pessoa buscava em mim era tão somente essa diferença genitalizada em relação a outras mulheres.

Sempre quis ser vista por mim mesma e não pelo corpo que eu tenho.

No meu mundo ideal todxs seriam bissexuais (e/ou pansexuais). Acredito que as corporalidades são empecilhos que nos previnem de relacionarmos com pessoas maravilhosas. O gênero e o corpo de alguém são, de fato, parte daquela pessoa – mas haveríamos de nos perguntar se isso é tudo o que aquela pessoa é. Desejo conhecer as pessoas – todas elas – em suas particularidades, seus gostos, suas idéias, seus modos. Desejo conhecer as pessoas em outros espectros que não (só) gênero e corpo.

Sou uma mulher trans* e bissexual.

Written by Hailey

11 Comments

  • “No meu mundo ideal todxs seriam bissexuais (e/ou pansexuais). Acredito que as corporalidades são empecilhos que nos previnem de relacionarmos com pessoas maravilhosas”. Concordo plenamente. Muito bem abordada a questão, o que seria válido tb para os trangays. Parabéns!

  • Hailey, adorei teu post. Principalmente porque você abordou uma questão que sempre o povo coloca quando falamos de mulheres trans* lésbicas e tal (que é isso de falarem que no fundo elas eram homens mesmo etc.O que é uma visão infeliz). Só queria saber o que é, necessariamente, ser pansexual?

  • Adorei este post, aliás, como gosto de tudo que vc escreve. Porém tem uma questão que está me incomodando um pouco. Por que eu não estou vendo nenhuma publicação ou debate sobre as questões trans no Movimento Mundial de Mulheres que está acontecendo agora?

    • Eu não me identifico com nada que o MMM defende praticamente, exceto uma pauta geral genérica feminista anti-machista. Eu particularmente acho que tentar se articular com a MMM é perda de tempo, muito trabalho para pouco resultado. Se nos espaços feministas tradicionais já é difícil conseguirmos ser ouvidas, imagina na MMM onde elas publicam textos de feministas radicais reconhecidamente transfóbicas…Então não.

    • A propósito, obrigada pelo carinho e elogio! <3

    • Então Neusa, eu estava ontem na mesa sobre visibilidade lésbica e
      bissexual, as mulheres trans* estavam presentes sim. A todo momento, quando uma pauta era erguida, mencionava-se as bissexuais, as transsexuais, as travestis. Elas não foram invisíveis no discurso. Eu estava lá, eu ouvi.

      A MMM têm começado um ciclo novo… Onde tem pensando nas mulheres trans, nas travestis (estas, para além da prostituição -importante dizer). Só que a MMM é um movimento grande. AQUI EM SP estamos começando estes debates, que antes, excluía sim mulheres trans e travestis. Mas como esperado, as coisas mudam e ainda bem!
      Logo, faremos roda de conversas e debates para pautar as questões trans. Mas num encontro Internacional, dá pra perceber que cada núcleo da MMM se organiza de forma diferente e pauta questões diferentes. Por isso a inclusão das questões trans* possa demorar pra atingir todas as mulheres participantes da MMM. Mas a partir do momento que alguém começa esse debate e não deixa morrer, só fortalece, então eu vejo uma tendência forte à atingir as outras companheiras.

      Hailey, as coisas estão mudando, de verdade. Pode não ser na velocidade que você gostaria, mas estão acontecendo.

      Beijas pra vc,
      gostei muito do texto, como sempre você incrível na escrita.

      • Que bom, afinal sempre temos que gritar para sermos ouvidas e isso sempre rende backlash. Fico feliz que a MMM possa dar espaço para pessoas trans*.

  • Valeu pessoal. Fico muito feliz em saber disso.
    Abraços

  • só discordo do mundo ideal… compartilho fortemente do sentido de nos conhecer-mos intimamente… mas tb devemos respeitar que nem todos gostamos de todas as fisionomias…

    eu gosto de mulher cis e trans. mas homem nao da muito certo.. a figura mesmo me desestimula.. haha

    então eu acho que todos devíamos nos permitir mais carinho e intimidade. mas o ato sexual deve ter restrições e limites (até porque respeitar isso é o princípio para não cometer estupros)..

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