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“Somos as netas das bruxas que vocês tentaram queimar”. São não.

Por Inaê Diana Ashokasundari Shravya.

“Somos as netas das bruxas que vocês tentaram queimar”. São não.

Ano passado saiu a Tábua Completa de Mortalidade para o Brasil [1], uma breve análise da evolução da mortalidade no Brasil apresentada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que divulga anualmente, até o dia 1o de dezembro, no Diário Oficial da União, as Tábuas Completas de Mortalidade para o total da população brasileira em 1o de julho do ano interior. Assim, a última Tábua é referente ao ano de 2018. Vejamos o que ela nos diz:

“A tábua de mortalidade projetada para o ano de 2018 forneceu uma expectativa de vida de 76,3 anos para
o total da população, um acréscimo de 3 meses e 4 dias em relação ao valor estimado para o ano de 2017 (76,0
anos). Para a população masculina o aumento foi de 3 meses e 7 dias passando de 72,5 anos para 72,8 anos,
em 2018. Já para as mulheres o ganho foi um pouco menor, em 2017 a expectativa de vida ao nascer era de
79,6 anos se elevando para 79,9 anos em 2018 (exatos 3 meses maior). ”

Temos aí a expectativa de vida da população brasileira em 76,3 anos. Se comparássemos com meados de 1900, quando a expectativa de vida da população brasileira era de 33,7 anos, pode-se dizer que a população brasileira teve sua expectativa de vida aumentada mais de 40 anos em 11 décadas [2]. Mas aí trago uma outra informação: a expectativa de vida da população trans (travestis e transexuais) é de 35 anos [3]. Segundo o Dossiê dos Assassinatos e Violência contra Pessoas Trans em 2018 [4],

“As travestis e transexuais femininas constituem um grupo de alta vulnerabilidade à morte violenta e prematura no Brasil. Apesar de não haver estudos sistemáticos sobre a expectativa de vida das travestis e transexuais femininas, Antunes (2013) afirma que a expectativa de vida desta população seja de 35 anos de idade, enquanto a da população brasileira em geral, é de 74,9 anos (IBGE 2013).”

O fato de um número maior de travestis e transexuais femininas/mulheres trans serem assassinadas se comparado ao número de assassinatos de transexuais masculinos/homens trans, se deve ao fato de na América Latina o feminicídio ser alto (em 2018 o Brasil encontrava-se à frente do México em índice de feminicídios [5]), ainda que haja uma recusa da parte de certas “feministas” (as aspas são por não reconhecer essa corrente como feminismo, mas uma derivação feminina do supremacismo branco) em reconhecer travestis e mulheres trans como mulheres.

Quando digo que a transgeneridade não possui relação com o Estado, que este é sua antítese ( onde a cisgeneridade é o efeito da estatização do biológico), me refiro a realidades concretas como esta: a expectativa de vida da população brasileira é de 76,3 anos, ao passo que a da população trans é de 35 anos. Notem o quão gritante é a diferença entre uma expectativa e outra. A formação do Estado-Nação não tem a transgeneridade em sua constituição, em seu projeto de cidadão. A nossa expectativa de vida em 2018 é semelhante à da população cisgênera brasileira em 1900. Como é que ainda acreditamos que podemos contar com o Estado para algo? O imaginário social é cisgenerizante. “Homem tem pênis”, “mulher tem vulva”. Não é assim e somos provas disso. A sociedade não tem nos incluído, tal como supõe muitas/os de nós. Minto: há uma inclusão, mas uma inclusão excludente, que se dá num processo de rebatimento, que em vez de nos compreender como possibilidade de existência, nos submete à compreensão dominante, que é patriarcal heterocolonial. Se houvesse de fato uma compreensão, uma inclusão da nossa população, teríamos mulheres designadas mulheres ao nascimento considerando ter piroca, homens designados homens ao nascimento considerando ter bucetas ou próteses mamárias, assim como a travestilidade se trataria também de uma possibilidade de existência. Não quero de modo algum naturalizar as existências trans, mas desnaturalizar as existências cis. Não quero inverter, mas perverter a dinâmica social de gênero – degenerar!

Nós somos as bruxas que têm sido perseguidas e que ninguém tem notado. Talvez porque não somos brancas escandinavas loiras de olhos azuis que usam amuletos ou fantasiam uma ancestralidade mistificada. Assim como as bruxas que muitas pessoas cis encontram em histórias de livros, em registros sobre a Inquisição, nós sofremos perseguição, somos assassinadas, seja direta ou indiretamente – a falta de assistência médica, de formas de trabalho que não nos deixem expostas à violências nas ruas, são formas de assassinato -, e sempre de maneira brutal [6].Enquanto cês bajulam Lilith, nós experimentamos os efeitos da expulsão do Paraíso. Não somos divinas, mas mundanas. Somos feitas da mesma matéria que este mundo.

As “netas das bruxas” tão mais para filhas dos inquisidores – a PM cumpre bem esse papel-, tamanha a conivência referente ao silenciamento sobre nossos assassinatos, referente à falta de cumplicidade – não queremos aliados/as, mas cúmplices -na defesa de nossas vidas.

Este foi o desabafo duma bruxa antinaturalista e tecnomaterialista, a qual evoca um único espectro: o do comunismo.

Referências

[1] Tábua Completa de Mortalidade para o Brasil – 2018 – uma breve análise da evolução da mortalidade no Brasil [PDF]: https: //biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/periodicos/3097/tcmb_2018.pdf

[2] IBGE: expectativa de vida dos brasileiros aumentou mais de 40 anos em 11 décadas / Agência Brasil: http://agenciabrasil.ebc.com.br/…/ibge-expectativa-de-vida-…

[3] Expectativa de vida de transexuais é de 35 anos, metade da média nacional: https://www12.senado.leg.br/…/expectativa-de-vida-de-transe…

[4] Benevides, Bruna e Nogueira, Sayonara – Dossiê dos Assassinatos e Violência contra Pessoas Trans em 2018: https://antrabrasil.files.wordpress.com/…/dossie-dos-assass…

[5]Feminicídio / Observatorio de Igualdad de Género: https://oig.cepal.org/es/indicadores/feminicidio

[6] Refresco aqui a memória de dois assassinatos que deram notícia, o de Dandara dos Santos, cujo apedrejamento e assassinato foi filmado e circulou por redes sociais amplamente no ano de 2017, e de Kelly Silva, que foi assassinada e teve seu tórax aberto, o coração arrancado e trocado pela estátua duma santa católica por seu companheiro no ano de 2019.

FOTO: ELIAS SAMPAIO/REPRODUÇÃO FACEBOOK.

Written by Beatriz

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