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Tornar-se cisgênero

No ritual de passagem adolescente, alterações corporais irrefreáveis ganham espaço nas vidas de várias pessoas, agregando-se às suas subjetividades. Tornar-se cisgênero acaba sendo, então, um evento inevitável, nem sempre desejável, um modus operandi hormonal inesperado.

A partir daí, nossos corpos são (mais) veementemente simbolizados, nossas sexualidades mais fortemente evidenciadas (e/ou hipersexualizadas), nossos atos cistematicamente indesculpáveis; Não podemos mais, na presumida inocência infantil, perguntar por que não podemos usar/se associar a essa ou aquela coisa, agir dessa ou daquela maneira. Não que a coerção (e a correção) não viesse, de outras formas, enquanto crianças, mas há algo de agenciador no ritual de passagem cisgênero, que marca a nossa (i)responsabilidade em não sermos outra coisa que não cisgêneros. Após o ritual deixamos de ser crianças, e socialmente devemos responder por nossos atos que podem ou não tencionar nossa cisgeneridade.

Nossa memória do futuro é cisgênera, ao passo que o ritual já está prescrito, é um evento pré-determinado do futuro, normalizado, esperado, acatado, e qualquer tentativa de interrupção ou desvio é considerada um ultraje, execração, um atentado contra a ordem natural das coisas, contra o que deus fez, contra a biologia, contra a saúde.

Crianças, acreditamos, não são agentes de si. “É coisa de criança” dizemos, enquanto corremos para levá-las ao/à psicólogx, que nos dará a resposta esperada, o conforto ansiado: “seu/sua filhx é normal” ou “seu/sua filhx é portador/a/x de uma doença, mas que poderá ser curada e elx será normal, viverá uma “vida normal”. A “cura” pode vir na forma de duas coerções: o impedimento cistemático de todos gestos, expressões, gostos pelo “sexo oposto” ou o “processo transexualizador” que irá reorganizar binariamente esses corpos.

Toda vez que um sujeito diz “não desejo passar por isso”, “não me reconheço nesse corpo”, “minha memória não é essa”, “esse não é meu futuro”, um conjunto de discursos é colocado em prática, para defender a criança dos agentes externos que lhe desejam modificar a estrutura, ou para reorganizar esse corpo dentro do cistema, como outro binário. Mas quem defende a criança queer, como pergunta Preciado?

Que diferenças, tão díspares, haveria entre o ritual cisgênero pautado pela injeção interna de hormônios, cujos efeitos serão determinadas modificações corporais, e as injeções externas de hormônios cujos efeitos serão determinadas modificações corporais?

O que o devir cisgênero tem a ensinar sobre autonomia?

Tornar-se transgênero é categoria nosológica, tornar-se cisgênero é natureza.

Tornar-se transgênero é a pedra no caminho, tornar-se cisgênero é o próprio caminho.

Nos compêndios médicos, uma infinidade de técnicas e guias sobre como “tratar” a nosologia trans*, mil e uma explicações que inexplicavelmente reduzem as subjetividades trans* a apenas uma. Um estudo de caso com 14 sujeitos que universalizam a experiência identitária. Dezenas de artigos e discussões sobre “transexualidade na infância”. A patologia amplia seus domínios. Logo estaremos falando no gene da transexualidade, se é já não existe e felizmente me poupei de acessar tais informações.

Vejo muita gente com boa intenção falando em “crianças trans*” ou “transexualidade na infância”. A transexualidade é também um conjunto de crenças médicas materializadas numa nomenclatura/categoria nosológica. Quando corremos para classificar crianças que expressam seu gênero de forma inconforme com o cistema, ou seja, a(s) expressão(sões) de gênero(s) e o(s) corpo(s) designado(s) e cistematizado(s) não são isonômicos, estamos indiretamente patologizando uma expressão e estereotipando comportamentos. Ser trans* é sobretudo uma experiência identitária, e como toda experiência identitária ela é – ou deve ser – autônoma, deve haver agência por parte dxs sujeitxs que a experienciam. Essa também é uma luta do Transfeminismo.

Crianças devem ser livres para expressar seu(s) gênero(s) sem classificações identitárias que não escolheram, caso contrário acabaremos essencializando certas expressões/vivências como sendo trans*, sem ao menos deixarmos que seus agentes decidam por si mesmxs, quando forem capazes de compreender o que tal identidade significa e quais são as implicações existentes.

Nós trans*, nem sempre fomos trans*, mas pode-se dizer que muitxs de nós fomos pessoas cujo gênero era inconforme ao cistema. Fomos não, somos. Muitas de nossas infâncias foram pautadas pela subversão das normas que orientam o gênero. E nós éramos quem sempre fomos: nós mesmxs. Que essa experiência, posteriormente, foi classificada com o termo “transexualidade” de nada sabíamos e não teria feito diferença. Talvez a diferença tivesse sido o conforto que a patologia traz aos pais e mães desesperados com a “pane no cistema”.

Me entendo como trans* porque existe uma categoria identitária que abraço, sobretudo politicamente, para demandar direitos e explicar o que meu corpo e meu gênero significam para um mundo cistemático. Para mim, é uma categoria que inteligibiliza minha existência. Só que ao mesmo tempo, essa categoria permanece como doença mental. Só existe se for através do estigma da doença. E como lembra Missé, só podemos subir à Arca que promete a cura para os corpos errados, que nos levará à Ítaca com a promessa de uma vida melhor, se estamos convencidxs que nossos corpos sempre foram errados, de que necessitamos consertos, e essa memória de nunca termos sido normais é algo que jamais conseguiremos desexperienciar.

Meu corpo não é errado, não necessito de cura, errado é o cistema. Nunca fui uma criança transgênera, eu fui eu.

Prazer, eu sou a Hailey.

 

 

Written by Hailey

2 Comments

  • Eu gostaria de saber o que eu realmente sou.
    Eu vivi como um ”garota” até os meus 15 anos, hoje tenho 20 e alguns podem dizer que é uma fase, que ainda vou voltar a ser a garota de antes, mas isso não vai acontecer. Eu tento manter as aparências, apesar de usar roupas largas que não acentuem os meus seios e sempre que posso uso meu cabelo solto e pouca maquiagem.
    Muitas pessoas acham que estou virando lésbica, mas a verdade é que não sinto a mínima atração por mulheres. Já me esforcei pra tentar achar uma resposta pra isso, pois eu não quero viver o resto da vida esperando essa fase terminar, pois eu sei que ela não vai.
    Eu faço cosplays. Cosplay é o ato de você se vestir como personagem de determinada série de tv ou animação e sempre me identifico com personagens masculinos, talvez essa seja uma desculpa que eu use pra me po dever um pouco com o que eu realmente gostaria de ser, um garoto talvez, pois tenho traços de androginia e as pessoas costumam me confundir quando estou assim, e de alguma forma, eu gosto disso.
    No ambiente em que eu vivo nunca aceitariam a idéia de eu querer ser um garoto, ja que não gostam nem da idéia de eu me parecer com um, quando vêem minhas fotos que costumo postar no facebook, há sempre comentários do porquê de eu postar aquelas fotos e não fotos minhas maquiada e bonita. Eu não quero isso. Mas mesmo assim, não odeio o meu corpo, simplesmente não consigo aceitar ele.
    Eu poderia recorrer aos meios para me tornar um homem agora ou recorrer a uma terapia pra me aceitar do jeito que sou, mas isso não daria resultados, eu sei disso.
    Eu quero ter um filho. Quero ter esse filho antes de tentar fazer qualquer coisa que venha a interferir na minha vida. Quero estar com ele e quero ser seu pai e sua mãe. Quero que ele me aceite e com isso eu vou poder seguir em frente, serei o homem que já sou mentalmente e não a mulher que se esconde atrás de um muro imposto pela sociedade.
    Desculpe por usar esse espaço pra desabafar, mas precisava partilhar isso.
    Obrigado.

  • Republicou isso em Porcausadamulhere comentado:

    Texto fundamental para pensarmos a cisgeneridade.

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