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Travestis têm gênero, respeite!

É recorrente encontrarmos nas notícias e no falar geral o uso dos pronomes tratando mulheres travestis no masculino. Também ocorre o mesmo com pessoas transexuais. No entanto, intuitivamente acredito que com as travestis essa situação é um pouco mais “grave”, pois existe a crença ou imaginário social de que, como travestis não procuram a CRS (cirurgia de redesignação sexual), são “apenas” “homens que se vestem de mulher”. Isso se deve ao preconceito cissexista de acreditar que existe uma verdadeira essência por trás da biologia ou da morfologia. É acreditar que alguém que tenha um pênis esteja de alguma forma ligada a uma identificação ou condição masculina, assim como ocorre com a vulva e vagina com a feminilidade. Se a mulher trans* não quer construir uma vagina cirurgicamente, ou não tem a disforia corretamente “diagnosticada” por um psiquiatra, relacionada ao seu genital, não desenvolver uma narrativa esperada pela equipe de médicos, ela não é uma mulher de verdade ou nem ao menos é uma mulher.

Assim, pessoas transexuais/trans* que percorrem todos os procedimentos esperados ganham certa credibilidade em suas identidades. Mesmo que elas também não estejam isentas de serem desqualificadas e ojerizadas, pessoas trans* – neste caso, travestis, como são comumente designadas pelo discurso médico – que estão à margem desses processos médicos/jurídicos de validação de identidades podem estar em uma situação ainda mais vulnerável. Sem contar com diversos outros possíveis marcadores de subalternidade associados à identidade travesti: raça, escolaridade, situação de vulnerabilidade devido à prostituição ou outras condições… Assim fica ainda mais fácil se referir a uma travesti – mulher – no masculino indevidamente. As pessoas que fazem esse erro recorrem de justificativas das mais absurdas até as mais escancaradamente preconceituosas, passando inclusive pelo argumento de autoridade que a gramática normativa supostamente concede. Já ouvi:

1) Eu posso usar a flexão masculina, pois você não conhece a identidade dx travesti. Logo, se elx se identificar como homem, eu tenho esse direito;

2) Se alguém errar o meu pronome, eu –pessoa cisgênera –não vou ficar chateado. Aliás, acho até engraçado. É só uma piada, vocês não estão falando sério né, se eu posso rir vocês também podem!

3) A gramática normativa exige a utilização da flexão masculina para homens e como travestis são apenas homens que se vestem de mulher, eu tenho esse direito;

Então vamos por partes… Primeiro, podem de fato existir pessoas que se identificam como travestis e se apresentarem com uma fluidez de gênero, ou além do binário, de forma que elxs podem se identificar como homens, mulheres ou algo entre ou além dos dois e isso certamente não é um problema. Todas as pessoas tem o direito pela auto identificação, apenas elas decidem qual é a melhor forma de se definirem. Por isso é importante perguntar para a pessoa como ela gostaria de ser chamada.

No entanto, isso não é desculpa para reproduzir uma opressão estrutural e histórica contra as mulheres travestis: de as chamarem com pronomes que elas não desejam. De uma maneira em geral as pessoas travestis que se identificam com o gênero feminino preferem serem tratadas no feminino. Por isso não é adequado tratar mulheres transgêneras, apenas por serem transgêneras, no masculino de forma generalizante. Se alguma mulher cis apresenta roupas e acessórios femininos, sutiã dentre outros “marcadores” de feminilidade certamente ela será tratada pelo feminino e a chance de ocorrer misgender – errar o seu gênero – é pequena. Se ocorrer a mesma situação, porém com uma mulher transgênera, na qual pelo simples fato dela ser identificada como trans* ela ser tratada no masculino, o cissexismo fica evidente.

Errar o gênero, pronome e nome das pessoas trans* não é jamais a mesma coisa que com uma pessoa cisgênera. Afinal, pessoas cis nem ao menos são alvos dessa situação, a menos que tenha algo na aparência física/apresentação que remeta o gênero oposto, é extremamente improvável que isso aconteça. Ter seu gênero deslegitimado é opressão que acontece com pessoas trans* cotidianamente, é a violência que diz que alguém não é um homem ou mulher o bastante (ou simplesmente não existir a possibilidade de ser) por possuírem determinado genital ou aparência e que leva à disforia. Pessoas trans* não tem o privilégio de rirem quando isso acontece e nem de se esquecerem da situação ou de não se importarem com ela.

Por fim, usar a gramática para corroborar transfobia é hilário, mas trágico, pois é uma realidade. Regras gramaticais são convenções sociais, elas não são escrituras sagradas, que podem dizer as “verdades” a cerca dos pronomes das pessoas trans*. A única verdade sobre o gênero de alguém é a que ela diz sobre si mesma. Se alguma pessoa usar o argumento que é necessário tratar mulheres travestis no masculino ela não está sendo neutra – como a principio o argumento da “língua” poderia soar – ela vai estar sim em uma posição privilegiada – a cis – exercendo uma relação de dominação contra pessoas trans*, ao deslegitimar suas reivindicações – de serem tratadas como querem.

Pessoas trans* já cotidianamente são levadas a nem mesmo serem o que são. É ter que nadar contra a correnteza, a identidade de alguma pessoa trans* não foi obtida com pouco sacrifício, pois a todo momento somos lembradxs através dos mais diversos ataques transfóbicos de que não poderíamos nos identificarmos como nos identificamos. É realmente necessário reforçar essa violência ainda mais ao chamar pessoas trans* com o gênero a qual ela foi designada de forma coerciva? A regra é básica e simples: 1)Individualmente, chame alguém como elx gostaria de ser chamadx, pergunte 2) Ao tratar de grupos, da mesma forma que designamos o gênero feminino às mulheres cis com apresentação feminina, o mesmo tem que ser feito com mulheres trans* – assim como para homens cis e trans*.

Written by Beatriz

13 Comments

  • Hugo Romano Mariano on

    Bia Bagagli, seus textos são sempre emocionantes e emancipadores, coisas deliciosas de se ler.

  • Esse argumento baseado na gramática é o mais ridículo de todos, pois, de fato, não se baseia em gramática coisa alguma; tem suas bases, sim, nas velhas práticas cisnormativas que ditam as regras do corpo e do “bem-estar” (entre muitas aspas) com o corpo. Pessoas cis também vivem esses dramas ao lidarem com os padrões cis e heteronormativos. Só que a violência simbólica e mesmo física contra as pessoas trans* é estrondosamente superior, justamente porque nós transgredimos uma das maiores e mais fortes evidências ligadas a gênero: aquela segundo a qual gênero é definido por morfologia corporal e designação biológica.
    Fico muito orgulhoso quando vejo pessoas trans* que não sofrem de disforia, pois, embora intuitivamente (já que não tenho leitura no tema), tendo a achar que a disforia é o cruel resultado de uma injunção social à “concertar seu gênero”. Quem não procura esse “concerto” é aquele que mais acaba transgredindo as fronteiras da evidência e deixando de lado essa divisão esdrúxula entre masculino e feminino.

    • Pois é Jeff o argumento da gramática é ridículo e facilmente rebatido! Vi um texto muito legal sobre o gênero que se usa com “travesti” e podemos inclusive refutar o uso de, por exemplo, “o travesti Ana”, pois são de fato gramaticalmente incorretos (sem nem ao menos ter que dizer da importância de respeitar a identidade das pessoas trans* e da arbitrariedade dessas regras) já que como “Ana” é um nome feminino, travesti deve flexionar no feminino. Incrível como grandes portais de jornalismo, que se propõe a serem “gramaticalmente corretos” na verdade, erram… erram na mesma gramática normativa que tanto prezam! (http://serfelizeserlivre.blogspot.com.br/2010/11/as-travestis-e-presidenta.html)

      Sobre a disforia é uma questão bem delicada. Gosto de ver a disforia como não restrita a pessoa trans*, como se ela começasse e terminasse nas mentes e corpos “patológicos e desequilibrados” das pessoas trans*. A disforia é tão cruel que está sim no social: pessoas trans são ensinadas, assim como pessoas gordas e pessoas negras (cabelo ruim) a terem disforia. Por isso é complicado dizer que pessoas trans* podem estar alheias da disforia mas acredito que seja possível lutar contra ela, para ao menos atenuá-la, nas nossas práticas e discursos. Aqui no site tem um texto muito bom sobre a disforia ser um fato social (http://transfeminismo.com/o-que-e-cissexismo/). Pra mim não cabe querer descobrir a origem da disforia, se ela é mais ou menos social ou biológica (inata), mas sim informar que corpos de pessoas trans* não são errados e dar agência para pessoas poderem acessar procedimentos que desejam. É mais ou menos como informar insistentemente que mulheres não são feias se tiverem pelos, empoderá-las, mas não tentar impedir delas de se depilarem, se quiserem.

  • Ahazou, Bia!

    Ótima como sempre. Gosto de seus textos, pois você sempre é clara e direta!

    Também fico extremamente indignado quando alguém utiliza um artifício gramatical para legitimar uma opressão, neste caso a transfobia. E como disse, numa argumentação facilmente rebatida.

    Realmente é chocante ver em portais, reportagens, sites e nos mais variados lugares o total equívoco sobre o tratamento das travestis e trans.

    Há muito a ser vencido, mas são trajetórias e ações como a sua que nos dão força para não desistir nunca!

    Bjos!

  • Phudencio Taqueospa on

    É inacrteditável como os membros da sociedade moderna (homens, mulheres, [texto deletado por conter termos ofensivos] e almas penadas perdem tanto tempo com futilidades… O “politicamente correto” está tornando a convivencia entre grupos insuportável. O equilibrio forçado e imposição de comportamento só gera revolta. Adote um animal de rua, seu tempo será muito mais valorizado pelo todo poderoso (para os que acreditam) cuidando dele do que escrevendo essas bobagens.

    • Quem fala em “politicamente correto” são apenas pessoas que reproduzem opressão e querem continuar oprimindo sem se sentirem culpadxs. Se vc acha que o que escrevo são bobagens, não apareça por aqui. E outra dica, não existe causa mais importante, como se eu fosse obrigada a adotar animais de rua ao invés de militar pelas pessoas trans*. Outra falácia. Ao invés, convido você no lugar de perder seu tempo com “bobagens” vá ajudar uma travesti que se prostitui e está em uma situação delicada ^^

      • Oi, Bia,

        Ainda bem que estamos conseguindo mudar um pouquinho das coisas pelo nosso mindinho afora.

        Fico feliz porque à sociedade binária ainda me apresento como homem mas algumas amigas já me tratam no gênero feminino, mesmo eu própria usando o masculino para “fora”. (O faço por razões profissionais)

        Deixo aqui um beijo e obrigada pela militância. Surtiu efeito no post referido. Continuemos ajudando as pessoas a compreenderem mais!

        Um beijo,
        Carol

  • Olá Bia, você escreve muito bem, seus textos são ótimos. Eu sou uma trans não-op em transição. Eu sei que não é justificativa para errar o gênero de uma travesti, mas esse termo travesti, que é usado frequentemente mesmo para pessoas que fazem TRH (terapia de reposição hormonal), cirurgias de todo tipo (para poucas que podem pagar) como próteses de slicone e outras, mas não desejam a cirurgia genital, um termo que não ajuda. “Travesti” é um termo cunhado pelo psiquiatra e sexólogo radicado na Alemanha Magnus Hirschfeld no começo do século XX para designar pessoas de um sexo que se vestiam com roupas do outro. Naquela época não havia hormônios e cirurgias como de próteses de silicone disponíveis e o significado desse termo travesti sempre foi esse mesmo, o “tra” de transpor e o “vesti” de vestimenta. Essa idéia é muito mais coerente com o termo atual crossdresser, embora esse seja um tipo de transgênero também e tem que ter sua feminilidade respeitada quando “en femme”. Mas para essa sociedade cissexista essa idéia ultrapassada de travesti=homem que se veste de mulher ainda tem muita força e acho inapropriado chamar uma pessoa que tem modificações corporais por hormônios e/ou cirurgias “travesti”, pelo que esse termo significa. Desculpa a falta de parágrafos, estou escrevendo por celular. Que bom que você é uma lutadora pela nossa causa. Tudo de ótimo pra você, querida, beijos.

  • Bia eu tenho uma dúvida, veja se você pode me ajudar.

    Você sabe se existem “travestis masculinos”? Ou seja aqueles que realmente são “os” travestis? Pessoas que nasceram biologicamente como mulheres, mas sentem-se um pouco ou muito homens, mas não chegam a ser transhomens ou muito menos apenas cross dressers. Pergunto isso pois sempre vimos e ouvimos falar “das” travestis que nascem biologicamente com a genitália masculina, mas se sentem mulheres, porém não chegam a ser trasnssexuais. Estou curioso.
    Obrigado.

    • Travestis são vistas, enquanto grupo social, como aquelas pessoas que foram designadas com o gênero masculino ao nascer mas que se identificam com o feminino de alguma forma. A questão não é se “existem” homens travestis ou travestis masculinos (prefiro muito mais falar em ser designada com um gênero ao nascimento do que meramente “nascer” com um). Eles podem existir enquanto forma de auto identificação, mas não enquanto um grupo identificado socialmente.

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