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Um pouco sobre sexo e sexualidade

Essa postagem tem um caráter mais pessoal.

Ontem eu vi uma imagem que, segundo a discussão que seguiu na comunidade do TF, (caso ainda não conheça, cf. aqui: http://www.facebook.com/groups/transfeminismo/ ) era para ser subversiva.

Mas tudo naquela imagem para mim era triggering, me despertava disforia* e me deixou bastante para baixo.

A imagem era um Ken e uma Barbie, a Barbie ajoelhada simulando início de sexo oral com a legenda “Kd caraio” e na postagem da foto a tag #decepções. Isso tudo porque @s bonec@s não tem genital (quem se lembra de Barbie sabe).

Nem vou discorrer do porque disso ser cissexista, o ponto aqui é outro.

Nós, trans*, somos constantemente associadas com o ilegítimo, não-real, falsidade, engodo, etc. daí termo em inglês como “trap” (armadilha). Especialmente as mulheres trans* – de quem me sinto mais apta a falar, pois sou uma. Além disso, nos espaços psi somos induzidas a esconder nossa sexualidade, nossos desejos; a esconder a existência de nossos genitais, esconder nossos gozos, orgasmos. Eis o resultado da higienização binarista trans*, da assepsia sexual de nossos desejos.

A disforia*, como já disse anteriormente, é uma construção social. Ela é criada a partir desses discursos que visam demonizar e ojerizar o corpo trans*, situá-lo fora do humano e fora do desejável – exceto quando servimos ao machismo fetichista, ou seja, aos “t-lovers”.

Ontem, me senti anormal. Um corpo estranho, uma morfologia grotesca e ao mesmo tempo quis anular minha sexualidade, meus desejos, minha libido. Ontem me senti assexuada¹.

Conversando com um amigo percebi que não tinha do que me envergonhar. Pensei também em como eu poderia pregar empoderamento para as pessoas trans* através desse blog e do conjunto de textos e imagens que espalho, sem me amar. Sem me sentir desejável, sexy, amada. Sem querer gozar e fazer outr@s gozarem.

Somos sujeitos com desejos, como quaisquer outras pessoas. Desejamos e queremos ser desejad@s.

Somos hetero, homo, bi, pan; somos lésbicas e somos gays.

Temos pênis, vulvas, peitos/seios; somos depilad@s ou pelud@s, temos cabelo comprido ou curto, somos alt@s e baix@s, gord@s e magr@s… Temos estrias e celulites – como qualquer outra pessoa. Temos tesão.

Pela liberdade sexual das pessoas trans*, pela liberdade de gozar sem sermos ojerizadas, pela liberdade de desejar e sermos desejadas, pela liberdade de transar com quem quisermos sem sermos hipersexualizadas. Pela liberdade também de nos prostituírmos com segurança.

Sou mulher, sou trans*, sou gorda. Tenho pênis, gosto dele, gozo com ele. Dou, como, chupo, lambo, beijo, abraço, afago – como qualquer outr@.

E NADA do que me falarem irá me fazer odiar meu corpo e meu genital. Meu corpo é lindo e sexy.

Ou como diz o tumblr: FABULOUS FAT

¹ Nota: não confundir com assexual.

– Agradeço aos lymdos Felipe C. Ferrari, Felipe Lima e Júlio Sandes que me ouviram nesses dias, sobre meu desconforto com meu corpo e sexualidade.

Written by Hailey

5 Comments

  • O seu blog sempre faz o meu dia. Sim, sexualidade não-heteronormativa e corpo trans sem necessidade obrigatória de “correção”, e celebração da vida sexual das pessoas trans sem medo, culpa ou vergonha. Nossa sexualidade não é condição da nossa identidade de gênero,e como mulheres feministas, devemos (com segurança, desejo e ao nosso tempo) desconstruir as concepções machistas que infestam nossa própria visão sobre nós mesmas e nossa sexualidade. Viva!

  • lindo texto! estou tendo contato com essa temática trans a pouco tempo, e pra mim, tem sido redescobrir o ser humano! me entender melhor e ao mundo!
    gratidão por compartilhar essas palavras!
    viva!
    ps: ainda não entendo o uso do ” * “…

  • O caminho é esse mesmo. Humanizarmo-nas nós mesmas. Jung escreveu isto para todas as pessoas. Achei um pensamento muito apropriado: “Sou eu próprio uma questão colocada ao mundo e devo fornecer minha resposta. Caso contrário, estarei reduzido à resposta que o mundo me der.” Melhoras, Beijos.

  • Texto muito foda. É complicado demais desconstruir o lixo que internalizamos, especialmente porque o lixo segue sendo reproduzido à exaustão. Precisamos demais de espaços como este, que nos tragam outras perspectivas sobre nós mesmxs.

    Trago um pequeno exemplo deste tipo de agressão que me ocorreu recentemente (e nalgumas outras ocasiões também): a ideia de que eu ‘fico melhor como homem’. Isso rolou num processo seletivo pra um trabalho, em que fui um dia ‘como viviane’ e noutro ‘como menino’. É foda lidar com estes comentários… mas antes eu não teria armas pra rebatê-los (mesmo que internamente); hoje, é diferente.

    Obrigada pelo texto. Eu tenho devido mais relatos como este.

    • Obrigada Vivi! Fico feliz que estou atingindo a vida de muit@s nesse aspecto. Quero que tod@s sejam livres e que tenham autonomia sobre seu próprio corpo/sexualidade. 😉

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