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Viver enquanto trans: “não exista” entre-gênero Full view

Viver enquanto trans: “não exista”

Autoria anônima.

Num grupo trans uma moça cis postou um tópico perguntando que parte de ser mulher as mulheres trans mais gostam.

Uma pergunta que grita “clueless cis person” e é bem tosquinha, mas fiquei pensando aqui e acho que o que mais me agrada em ser mulher e reconhecida como mulher é ter relações (românticas ou sexuais) com outras mulheres da forma “correta”.

Isso é bastante difícil de explicar, mas o que eu acho interessante é o dilema que esse tipo de pergunta (e resposta) cria. Responder essas coisas é sempre se encaixar num estereótipo que pode ser usado para te atacar.

E isso tem muito a ver com minha vivência como mulher trans em geral. Sempre aquele medo dos estereótipos, sempre tendo que andar num campo minado gerenciando expectativas de todo mundo. E feminismo e ativismo queer não ajudam em nada, só criam mais minas e mais contradições. Não reforce estereótipos de gênero (porra mas e daí se eu gosto de andar perua por aí?). Não quebre estereótipos de gênero (sou sapatão caminhoneira me deixa em paz). Não seja um ser sexual, senão é apenas um macho pervertido. Não seja um ser assexual, para não reforçar discursos médicos problemáticos de transexualidade.

Não fale que teve efeitos psicológicos decorrentes da hormonização (como assim está menos agressiva e com menos libido por falta de testosterona? tá dando desculpas para homens culparem estupro e violência em realidade biológica). Não fale que NÃO teve efeitos psicológicos decorrentes da hormonização (se não muda nada, não tem pq você estar tomando, é só uma modificação estética).

Não queira mudar seu corpo. Não aceite o próprio corpo. Não use explicações cissexistas como “presa no corpo errado” para se validar em frente a gente cis que não entende nada. Não imponha essas coisas acadêmicas de “teoria queer” sobre as pessoas cis, explique de forma simples.

Não seja masculina, se quer ser mulher seja mulher direito. Não seja feminina, você está validando a opressão das mulheres cis.

Não seja lésbica, mulher de verdade tem que querer servir a um macho. Não seja hétero, heterossexualidade é um sistema político feito para oprimir mulheres (cis). Por tudo que é mais sagrado não seja bi ou pan, você não quer que te achem uma predadora sexual sem morais.

Não seja biscate, só está dando motivo para acharem que são todas prostitutas. Não seja puritana, sexo positividade liberação sexual UHULL!!!

Não use seu pênis durante o sexo. Não sucumba a padrões cissexistas e sexo-negativos do que é sexo e do que é ser mulher, mete com gosto.

Não urine de pé, isso é coisa de homem. Não urine sentada NUNCA LEU PRECIADO banheiro-heteronormatividade-cissupremacia MEU DEUS SE POLITIZA!!!!!!!!

Não divulgue seu nome social nem aceite que te chamem por ele, você está estragando tudo para o resto de nós. Não ligue pra esses negócios de nome estamos na era do pós-gênero já falei pra ler preciado.

Não fale que é travesti, isso é pedir pra acharem que é prostituta, homem e te tratarem no masculino; fale que é transexual. Não aceite essa dicotomia falsa, cissexista, racista e classista; se dizer travesti é um ato político.

Não sucumba ao desânimo e cansaço e lute a todo minuto do dia pelo seu gênero; não deixe um “ele” ou “moço” sequer passar. Preserve sua energia, apenas sobreviva da forma que puder.

Não seja revolucionária ou ativista demais, vai afastar aliados genuínos e viver deprimida e desgastada. Não aceite o estado atual das coisas, vamos lutar, o pessoal é político.

Não use roupas hiperfemininas ou muita maquiagem, isso deixa claro sua inexperiência e que você está se apenas se liberando de desejos reprimidos, está tentando demais, está sendo uma caricatura de mulher, está sendo patética; use roupas normais, mercado, aula ou piquinique não é desfile de moda. Arrasa e dá carão, mona!

Não aceite sexo com T-Lovers, está apenas alimentando nossa objetificação. Alguém te querer é algo raro demais para deixar a oportunidade passar.

Fale para a parceira que é trans, não viva de mentiras e enganando; fazer sexo sem dizer que é trans já foi considerado estupro por um juíz. Não fale que é trans para ninguém, o problema é da pessoa por supôr que todo mundo é cis.

Por tudo que é mais sagrado seja monogâmica, não precisamos de mais gente achando que somos pervertidas e prostitutas. Monogamia é uma forma de preservar o status quo, a objetificação, o patriarcado, a propriedade privada e os dragões de komodo: se livre dessa posse e ciúmes doentios.

Não tente se aproximar romântica ou sexualmente de meninas lésbicas, impor seu pênis sobre nós é estupro e lesbofobia; lésbicas que não se importam com pênis são apenas mulheres fetichistas e não representam todas as lésbicas. Não aceite que interpretem seu corpo por você, não aceite ser desumanizada, estereotipada e relegada a um fetiche e a algo abominável e não-apresentável.

Não seja lésbica e goste de penetrar, isso é fazer sexo de forma heterossexual e não está tendo uma relação realmente lésbica; nenhuma lésbica no mundo gosta de penetração e nenhuma relação homossexual tem risco de gravidez.

Não passe por cis, isso é viver para enganar homens héteros. Não seja visivelmente trans, isso é ser uma caricatura ofensiva de mulheres.

Não ache cantadas uma coisa boa, isso é um ataque contra as mulheres cis que sofrem com isso todo dia. Receber cantadas significa que você está feminina e parecendo mulher, não reclame de barriga cheia.

Não aceite assédios: são misoginia e uma expressão de ódio e poder. Não reaja a assédios, você tem muito mais chance de ser morta por isso do que uma mulher cis.

Não exista.

Written by Beatriz

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